Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
15 min de leitura
Nota de editor: Este texto devido à sua extensão e nível de abstração é publicado em duas partes. Hoje a segunda.
Significativamente, o economista italiano Giorgio Gilibert disse, em 1989, que Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias, publicado simultaneamente em Cambridge e em Turim em 1960, é “um dos mais fascinantes livros da história da economia” (On the meaning of Sraffa’s Equations: Some Comments on Two Conferences, em Political Economy, volume 5, número 2, pág 181, 1989).
Parte B: Texto 24 – A Economia Clássica depois de Sraffa (2/2)
Por Heinz D. Kurz e
Neri Salvadori
Publicado por
Cahiers d’économie Politique 2015/2 (nº 69) págs 45-71 (original aqui)
(conclusão)
4. A Teoria do Valor-Trabalho vs. a Teoria do Valor do Trabalho
Uma vez Paul Samuelson perguntou a Sraffa se Ricardo tinha uma teoria do valor trabalho. Sraffa terá respondido: “Ele tinha e não tinha”. O que à primeira vista poderia ser considerado uma resposta sibilina acaba por refletir adequadamente o ponto de vista de Ricardo, o que, por exemplo, na terceira edição dos Princípios vem à tona quando Ricardo fala “do trabalho como sendo o fundamento de todo o valor, e a quantidade relativa de trabalho como determinando quase exclusivamente o valor relativo das mercadorias” (Ricardo Works I: 20; ênfase acrescentada). A seguinte nota que Sraffa escreveu em Novembro de 1927 pode ser lida como um comentário à declaração de Ricardo e coloca em evidência a questão em estudo:
É todo o processo de produção que deve ser chamado de “trabalho humano”, e que está pois na origem de todos os produtos e todos os valores. Marx e Ricardo utilizaram a palavra “trabalho” em dois sentidos diferentes: o acima referido, e o de um dos fatores de produção (“horas de trabalho” ou “quantidade de trabalho” tem um significado apenas neste último sentido). Foi confundindo os dois sentidos que se confundiram e disseram que o valor é proporcional à quantidade de trabalho (no segundo sentido) enquanto deveriam ter dito que esta é devida ao trabalho humano (no primeiro sentido: uma quantidade não mensurável, ou melhor, não uma quantidade em absoluto).
– Documentos de Sraffa D3/12/11: 64; itálicos no original.
Ricardo considerava o trabalho como o “fundamento” de todo o valor, “uma quantidade não mensurável, ou melhor, de todo, uma não quantidade ” nas palavras de Sraffa, e sentia-se no direito de falar em valor aproximado em termos de valor trabalho [9]. Sraffa ilustrou a confusão dos dois sentidos em relação à abordagem do problema por Robert Torrens:
Torrens sabia que o valor (absoluto) do produto é determinado pela (na realidade, é) quantidade de coisas que foram destruídas para a sua produção. Mas ele não como é que o valor destas coisas se poderia determinar sem encontrar uma “medida comum” para elas: provavelmente sentiu repulsa, ou pensou que era impossível calcular a soma de quantidades de coisas heterogéneas medidas em unidades diferentes. Isto foi obviamente fatal: começou a encontrar algo comum nelas, sobre o qual basear a sua medida: a teoria do trabalho estava pronta… O resultado foi obviamente absurdo.
(Documentos de Sraffa D3/12/5: 26)
A afirmação de que o resultado foi “absurdo” aplica-se a um sistema com um excedente, enquanto em relação a sistemas sem excedente pode ser demonstrado que o vetor de preços na equação) é proporcional ao vetor de valores de mão-de-obra devidamente construído (ver Kurz e Salvadori, 2009). Sraffa aparentemente não estava ciente disto quando desenvolveu e discutiu as suas “primeiras equações”. A razão é óbvia: não há necessidade de falar de mão-de-obra – tudo o que importa são os custos reais físicos de produção. Os valores trabalho, portanto, não têm importância na análise, são, na melhor das hipóteses, são grandezas secundárias (voltamos a esta questão mais abaixo). A teoria do valor do trabalho, Sraffa concluiu na altura, envolvia uma “corrupção” da tradição estabelecida por Petty e pelos fisiocratas, que se diz terem tido o conceito correto de “custo”. Neste contexto, vale a pena mencionar que, num documento de cerca de cinquenta páginas composto no Verão de 1929, Sraffa explicou detalhadamente porque pensava então que o trabalho não era uma “quantidade” que pudesse ser tomada como um dado na teoria do valor (ver também o reflexo do seu argumento em D3/12/13: 2, e Kurz e Salvadori, 2009). Expôs que a sua objeção à abordagem em termos de quantidades de trabalho ” baseia-se na visão essencialmente fisiocrática de que o valor é uma quantidade intrínseca de objetos, quase uma qualidade física ou química“. (Documentos da Sraffa D3/12/12: 7, itálico acrescentado) [10]. A interpretação física é claramente corroborada por um documento intitulado “Custos Físicos & Valor”, contido numa pasta “Nov. [1927]”, que diz:
Quando digo que o valor de um produto é “determinado” pelo volume físico das mercadorias utilizadas na sua produção, não se deve entender que é determinado pelo valor dessas mercadorias. Isto seria um círculo vicioso, porque o valor do produto é igual ao valor dos fatores mais o excedente produzido.
O que eu digo é simplesmente que as proporções numéricas entre quantidade de fatores e quantidade de produto é, por definição, o valor absoluto do produto.
(Documentos da Sraffa D3/12/11: 101; ênfase no original, “não” é sublinhado duas vezes no original)
E num documento contido na mesma pasta, falou também de “valor físico” (Sraffa’s Papers D3/12/11: 75).
Algumas pessoas parecem pensar que os valores trabalho são algo natural e simples. Contudo, normalmente não o são (ver Kurz e Salvadori, 2009). Aqui não há necessidade de entrar numa discussão sobre as dificuldades envolvidas. Perguntamo-nos antes de onde devem vir os valores do trabalho. Se na produção de uma unidade de mercadoria U certas quantidades de mercadoria X, Y, Z, … são consumidas produtivamente, então para se poder determinar o valor de trabalho de U seria necessário conhecer já os valores de trabalho de X, Y, Z, …. Como Sraffa salientou, determinar valores por meio de valores envolve “um círculo vicioso”: os valores devem ser determinados em termos de magnitudes que não são eles próprios valores [11]. Como sublinhou num documento presumivelmente escrito no segundo… Num sistema com um fluxo circular de mercadorias e um excedente de produtos, os valores do trabalho podem ser determinados resolvendo um sistema especial de equações simultâneas, nomeadamente aquele em que a taxa de lucros é igual a zero: os valores dependem exclusivamente dos métodos de produção e consumo produtivo efetivamente utilizados. Assim, os valores trabalho refletem apenas uma constelação muito especial da partilha do produto entre trabalhadores e capitalistas. Para enfatizar este facto, no início dos anos 40 Sraffa cunhou o termo “Teoria do Valor do Trabalho” (ver Sraffa Papers D3/12/44: 3 e D3/12/46: 24): os valores são proporcionais às quantidades de trabalho se e só se não houver lucros (pondo de lado o caso extremamente especial de proporções de entrada uniformes em todas as indústrias da economia).
Só no caso contemplado por Ricardo, em que os processos de produção começam com “trabalho não assistido”, é que os valores de trabalho podem ser apurados de forma fácil e direta, somando as quantidades de trabalho desde o início do processo de trabalho escalonado no tempo até ao seu fim. Marx objetou a esta conceptualização da produção como um processo unidireccional ou linear de duração finita que não existe nenhuma fase no processo de produção das economias desenvolvidas que não envolva algum “capital constante”, ou seja, meios de produção produzidos. A implicação disto é, evidentemente, que os valores laborais só podem ser apurados através da resolução de um sistema de equações simultâneas – nada mais são do que preços de produção correspondentes a uma determinada distribuição do rendimento (r = 0).
Finalmente, façamos uma breve observação sobre o “problema da transformação”. Como mostra a interpretação de Sraffa dos autores clássicos, se a abordagem dos custos físicos reais clássicos for desenvolvida de forma coerente, simplesmente não enfrenta este problema. Na economia Clássica não há problema de transformação. Isto não significa que não se possa, em certos casos, passar dos valores trabalho para os preços de produção de uma forma logicamente consistente. Significa apenas que os últimos podem ser determinados de forma totalmente independente dos primeiros, que são, portanto, redundantes na análise (Steedman, 1977). Curiosamente, em casos não triviais em que se pode passar dos valores do trabalho para os preços da produção, é necessária a utilização da mercadoria Padrão da Sraffa (ver Kurz e Salvadori, 2009). Nesta perspetiva, a teoria do valor trabalho (interpretada como significando que o trabalho é a única fonte de valor) não é um elemento indispensável da economia clássica. Atribuindo erradamente aos autores clássicos tal teoria teve o efeito de tornar toda a sua análise vulnerável à crítica e foi responsável pelo seu abandono prematuro.
5. Aplicação da abordagem Clássica
O impacto da Produção de Commodities por Meios de Commodities foi enorme. Roncaglia (1978 [1975]) inclui um apêndice com uma lista de publicações sobre o livro da Sraffa publicado até meados dos anos 70. Inclui centenas de artigos. A primeira secção do apêndice chama a atenção para um grande número de revisões do livro e formulações matemáticas de várias partes do mesmo, e as numerosas interpretações apresentadas em relação ao pensamento recebido dos economistas clássicos, de Marx e de alguns economistas neoclássicos. Mais recentemente, Bellino (2008) discutiu 35 resenhas do livro com algum pormenor. Na segunda secção da sua bibliografia Roncaglia enumera obras relativas a aspetos particulares do livro de Sraffa. Aqui encontramos vários trabalhos sobre a mercadoria Padrão (a sua interpretação, o seu papel dentro do livro, a sua relação com a “medida invariável do valor” de Ricardo e com o chamado “problema de transformação” dos valores trabalho em preços de produção em Marx), produção conjunta, capital fixo, e terra. Dedicámos um documento inteiro à mercadoria Standard (Kurz e Salvadori, 1993) e não o discutiremos aqui. Para um estudo mais recente da literatura sobre Sraffa, ver Aspromourgos, 2004.
Enquanto o problema da produção um só bem por ramo ou indústria foi rapidamente investigado após a publicação do livro da Sraffa, os problemas da produção conjunta, do capital fixo e da terra precisaram de muito mais tempo, e alguns foram de facto investigados apenas depois de 1978. Um relato sumário é pertinente; ver também o livro editado por Salvadori e Steedman (1990), que inclui a literatura relevante até finais dos anos 80. Um aspeto comum ao tratamento destas questões por Sraffa diz respeito ao facto de o número de processos envolvidos poder ser igual ao número de mercadorias. A questão não é trivial especialmente no caso da produção conjunta, mas Sraffa indicou a solução para a mesma. O problema que restava era se o número de processos envolvidos tinha de ser igual ao número de produtos de base. Schefold (1978a, 1978b) e Bidard (1986), entre outros, provaram que em alguns casos a resposta é positiva, mas em outros não é. Este resultado levou ao abandono do tratamento do problema em termos de equações (Sraffa) e ao seu tratamento em termos de desigualdades (von Neumann). Contudo, nos casos em que a produção conjunta não é pura e está relacionada apenas com a presença de capital fixo e/ou terra, o sistema é “quadrado”, para usar a expressão cunhada na literatura para indicar que o número de processos envolvidos é igual ao número de mercadorias produzidas.
No Apêndice D Sraffa explica como o método de tratar o que resta do capital fixo no final do ano como uma espécie de produto conjunto é prefigurado por alguns economistas clássicos. Dedicámos um documento inteiro a esta questão (Kurz e Salvadori, 2005a) e não o discutiremos aqui. No Capítulo X Sraffa apresenta a sua análise do capital fixo, mas limita-o ao caso em que apenas uma máquina é utilizada, a eficiência desta máquina é constante, e a máquina não é transferível entre sectores. A literatura subsequente generalizou quase completamente a questão. Roncaglia (1971) analisou o caso em que as máquinas são utilizadas em conjunto e a sua eficiência é constante. (Ele não investigou a transferibilidade das máquinas, mas com base nos pressupostos que empregou, não haveria qualquer problema em fazê-lo). Schefold (1971, 1978c) investigou o caso em que a eficiência não é constante e em que as máquinas não são utilizadas conjuntamente e não são transferíveis. Salvadori (1988, 1999) estudou tanto o caso em que a eficiência não é constante e as máquinas são utilizadas em conjunto e não transferíveis, como o caso em que a eficiência não é constante e as máquinas não são utilizadas em conjunto e transferíveis, desde que as vias de eficiência sejam independentes do sector em que as máquinas são utilizadas. Huang (2015) forneceu uma análise na qual a eficiência, embora não constante, está sujeita a algumas restrições, e as máquinas são utilizadas em conjunto e transferíveis. Em todas estas análises é confirmado que os preços não dependem das proporções de produção, mas apenas da distribuição dos rendimentos, exceto no caso em que as máquinas são utilizadas conjuntamente; neste caso, a taxa de crescimento desempenha um papel na escolha das técnicas e, por conseguinte, os preços são determinados uma vez conhecida tanto a taxa de lucro (ou a taxa salarial) como a taxa de crescimento.
No Capítulo XI Sraffa apresenta a sua análise da terra. Na realidade Sraffa (1960, p. 74) refere-se a “Recursos naturais que são utilizados na produção, tais como terra e depósitos minerais”. No entanto, sabemos pela correção das provas do seu livro que, no último minuto, deixou cair partes de uma secção dedicada ao que nas suas notas preparatórias tinha chamado “desperdiçar bens” (ver Kurz e Salvadori, 2001, pp. 290-3). Sraffa considera a renda extensiva e intensiva quando existe um único bem agrícola. O problema dos múltiplos produtos agrícolas é mencionado, mas não tratado. A análise da renda extensiva limita-se ao caso em que a taxa de renda em relação a uma qualidade de terra é igual a zero, sem se ter mais em conta a qualidade da terra a que esta se aplica. Mais uma vez Sraffa preocupa-se principalmente com a questão da igualdade do número de processos envolvidos e o número de mercadorias cujos preços têm de ser apurados, dadas as quantidades brutas dos diferentes produtos que têm de ser produzidos. A análise da Sraffa sobre a renda intensiva está limitada a duas questões: a existência de dois processos para produzir a mercadoria agrícola, o que garante soluções ao quadrado (§87), e a ligação entre esta análise e um processo de rendimentos “intensivo” decrescente (§88). Quadrio-Curzio (1967, 1980), Montani (1972, 1975), Kurz (1978) e Salvadori (1986) forneceram relatos detalhados de rendas extensivas e intensivas.
O caso de recursos naturais escassos como a(s) terra(s) deixa bem claro que os preços relativos e a distribuição de rendimentos não podem ser determinados independentemente dos níveis de produção bruta dos diferentes produtos a produzir (um facto que já deveria ter sido claro dadas as advertências da Sraffa de que os retornos constantes à escala não são assumidos no seu livro). Em caso de diminuição intensiva dos rendimentos, surgirá uma renda se o terreno em consideração for escasso, o que se reflete tipicamente na coexistência de dois métodos de produção por meio dos quais o terreno é utilizado. Foi também confirmado que a “fertilidade” (no sentido dos custos unitários de produção) não é uma propriedade intrínseca das terras, mas depende da taxa de lucros. (Sraffa tinha esclarecido isto já em Sraffa, 1925). Abraham-Frois e Berrebi (1980, cap. 4) e Saucier (1981, cap. X) demonstraram a possibilidade de uma renda diferencial externa ao operarem um processo de produção de milho e dois processos de produção de um produto industrial que necessita de milho em quantidades diferentes por unidade de produção; Saucier (1981, p. 234) chamou a esta variedade de renda “renda diferencial externa”. Bidard (2011) mostrou que resultados semelhantes podem ser obtidos quando existe mais do que um produto agrícola. Foi confirmado que se as quantidades na procura efetiva são independentes dos preços, então o sistema é quadrado, mas não precisa de o ser se não o forem.
Todas estas análises sobre a terra foram realizadas no pressuposto de que a economia está num estado de auto-substituição, ou seja, está estacionária. Caso as quantidades produzidas mudem ao longo do tempo, a escassez de terra(s) também muda ao longo do tempo e os preços, as taxas de renda, e a taxa competitiva dos lucros (ou, em alternativa, a taxa de salário real) não podem permanecer constantes. Um problema semelhante surge quando se tem em conta a utilização de outros recursos naturais que não a terra – que Ricardo chegou a considerar ter “poderes originais e indestrutíveis” (Obras, I: 67) – são tidos em conta, o que Sraffa não fez em profundidade. A referência é a recursos esgotáveis, tais como petróleo ou minerais. Estes têm sido investigados a partir de um quadro clássico-sraffiano de análise. Noutro artigo (Kurz e Salvadori, 2015, cap. 16) revimos todo o debate, partindo do que se pode encontrar sobre esta questão nos artigos de Sraffa, seguido de uma análise do artigo seminal de Parrinello (1983), e do debate subsequente, incluindo uma análise extensiva dos pontos de vista de Ricardo sobre minas.
No Apêndice A Sraffa explica como do sistema económico se pode extrair um “sistema mais pequeno de auto-substituição cujo produto líquido consiste apenas num tipo de mercadoria”; isto pode ser feito para toda e qualquer mercadoria. Sraffa chama a esse sistema em miniatura um “subsistema”. A ideia de base subjacente à construção pode ser traçada em bibliografia muito antiga e pode ser encontrada, por exemplo, em Marx e também em Ricardo. É também conhecido como um sistema verticalmente integrado. A sua característica é que necessita apenas de mão-de-obra e recursos naturais como inputs do exterior, porque todos os bens de capital são reproduzidos dentro da indústria integrada. Uma formalização e elaboração do conceito foi fornecida por Pasinetti (1988, 1989).
O livro da Sraffa forneceu também a base para uma reformulação da pura teoria do comércio internacional, prestando especial atenção ao facto de o capital consistir em meios de produção heterogéneos. Parrinello (1970) recomeçou, seguindo-se várias contribuições de Steedman, Metcalfe e Steedman, e Mainwaring, que mostraram que vários dos teoremas tradicionais do comércio, derivados do modelo comercial de Heckscher-Ohlin-Samuelson, não transitam para um quadro com uma taxa positiva de lucros e bens de capital heterogéneos; ver em particular a coleção de ensaios em Steedman, 1979b. Foi também dada atenção à análise da pequena economia aberta, da economia mundial (ver Steedman, 1979a) e da fiscalidade (ver por exemplo Metcalfe e Steedman, 1971).
A Produção de mercadorias pelas mercadorias foi também um instrumento importante na investigação de questões da história da análise económica. A lista de contribuições e temas é demasiado grande para ser aqui abordada; ilustramos o tipo de conclusões desta literatura em termos de três casos.
De facto, o sistema de preços estudado pela Sraffa (1960) pode ser encontrado de forma resumida em muitos autores incluindo Marshall e Walras, mas também em Marx e, obviamente, Ricardo. Steedman (1977) examinou o raciocínio de Marx baseado no valor do trabalho com a ajuda de Sraffa (1960), e mostrou que este, geralmente, não pode ser sustentado. Num artigo dedicado à “Refutação da Teoria Inglesa” de Walras nos Elementos, refutámos as críticas de Walras a Ricardo. Mostrámos também que o sistema de preços do tipo Sraffa está contido na construção de Walras e mostrámos que a teoria clássica do valor e distribuição é fundamentalmente diferente da neoclássica de Walras (ver Kurz e Salvadori, 2002).
Em alguns outros artigos relacionámos os modelos mais importantes da literatura da Nova Teoria do Crescimento (NGT) com a tradição clássica do pensamento económico (ver, por exemplo, Kurz e Salvadori, 1998, cap. 4). Num sentido muito preciso, pode-se dizer que a NGT envolve um regresso aos modos de pensamento e ao método de análise característico dos autores clássicos. Em termos de método, a NGT é uma teoria de longo prazo, defendida por Adam Smith e desenvolvida por David Ricardo. Em termos de conteúdo, muitos dos modelos da NGT dispensam a tradicional determinação neoclássica da taxa de lucro em termos de oferta e procura de “capital”. De facto, a taxa de lucro é determinada pela tecnologia porque se assume que existe uma tecnologia que produz “mão-de-obra”. A fim de tornar este facto aceitável para um público do século XX, o fator recebeu novos nomes e entra em cena ou como “capital humano” ou “conhecimento”. Os leitores da Produção de Mercadorias podem imediatamente recordar que quando no início do capítulo II (§§ 4-5) os salários são considerados como entrando no sistema “em pé de igualdade com o combustível para os motores ou a alimentação do gado” (Sraffa, 1960, p. 9), a taxa de lucro e os preços são determinados apenas pela tecnologia. Pelo contrário, quando os trabalhadores recebem uma parte do excedente, a quantidade de mão-de-obra empregada em cada indústria tem de ser representada explicitamente, e a taxa de lucro e os preços só podem ser determinados se for introduzida na análise uma equação extra que determine a distribuição do rendimento. A equação adicional geralmente utilizada pelos defensores da análise neoclássica é a igualdade entre a procura e a oferta de “capital”, o que exige a homogeneidade deste fator. Mas nenhuma equação adicional é necessária na NGT uma vez que, tal como em Ricardo e nos §§ 4-5 do livro de Sraffa, existe uma tecnologia que produz “mão-de-obra”.
6. Uma crítica à teoria marginalista
O subtítulo da Produção de mercadorias pelas mercadorias é “Prelúdio a uma crítica da teoria económica”, sendo a referência a “teoria marginal do valor e distribuição” (Sraffa, 1960, p. vi). De facto, durante muito tempo após a publicação do livro da Sraffa, a ênfase foi quase exclusivamente na crítica explícita ou implícita dessa teoria contida no livro nas chamadas controvérsias de Cambridge sobre a teoria do capital. Aqui não precisamos de nos debruçar sobre o assunto; para relatos sumários, ver Harcourt, 1972; Kurz e Salvadori, 1995, cap 14; Garegnani, 2012; Petri, 2015. Basta chamar a atenção do leitor para um livro de Opocher e Steedman (2015) sobre o Full Industry Equilibrium, no qual os autores traçam as implicações de um ponto de vista rigorosamente de longo prazo relativamente ao lado da oferta na teoria microeconómica convencional. Mostram, em particular, que geralmente não há presunção de que a procura de um fator varie inversamente com o preço do fator, como é comummente assumido neste tipo de análise. Isto tem implicações de longo alcance para a teoria, e implica que muito do que os economistas convencionalmente consideram como factos discretos não o são de forma nenhuma.
7. Observações de conclusão
Após a publicação da edição de Ricardo e do livro de Sraffa de 1960, a perceção e compreensão da abordagem dos economistas clássicos sobre a teoria do valor e da distribuição mudou muito claramente. Sraffa merece o mérito de ter libertado essa abordagem de espessas camadas de má interpretação e de ter demonstrado que este tipo de abordagem tinha sido abandonada – “submersa e esquecida” – prematuramente. Em particular, a abordagem Clássica não era irremediavelmente defeituosa, como demonstrou a reformulação e elaboração da Sraffa. Além disso, a abordagem Clássica revelou-se não só rica em conteúdo e agora disponível numa forma logicamente consistente, como também forneceu uma perspetiva ou um ponto de vista a partir do qual se podiam ver grandes deficiências da teoria marginalista, que até então tinham passado despercebidas. Aparentemente, o desenvolvimento da economia não segue um caminho moldado por um mecanismo de seleção perfeito que abandona tudo o que é errado e fraco e mantém tudo o que é verdadeiro e útil. Depois de Sraffa, a economia já não é o que era.
Documento apresentado na conferência “What have we learned on Classical economics since Sraffa?”, Université Paris Ouest Nanterre, 16-17 de Outubro de 2014. Estamos gratos aos participantes da conferência por discussões úteis após a apresentação da nossa comunicação. Também gostaríamos de expressar a nossa gratidão a dois referrees anónimos e à Ghislain Deleplace pelos seus valiosos comentários e sugestões. Não é necessário dizer que a responsabilidade pelas opiniões expressas neste documento é inteiramente nossa.
Notas
[9] Uma confusão dos dois sentidos é generalizada na literatura sobre Ricardo. Por exemplo, Mary Morgan escreveu recentemente: “é apenas o trabalho que cria valor, e … há uma relação direta entre o trabalho e o valor” (Morgan, 2012, p. 60; ênfase acrescentada). Como acabámos de ver, Ricardo não era desta opinião.
[10] Tradução em inglês: “baseia-se no ponto de vista essencialmente fisiocrático de que o valor é uma quantidade que é intrínseca aos objetos, quase uma qualidade física ou química”.
[11] Como sublinhou num documento presumivelmente escrito na segunda metade de 1929, fazendo eco de uma posição de Petty, os preços relativos e a distribuição de rendimentos devem ser determinados exclusivamente em termos de “quantidades [que] têm uma existência objetiva e independente em todos ou em alguns instantes do processo natural (ou seja, não interferido pelo experimentador) de produção e distribuição; podem, portanto, ser medidas fisicamente, com os instrumentos normais de medição do número, peso, tempo, etc.”. (D3/12/13: 2).
Heinz D. Kurz [1946-] é um economista alemão, professor emérito no Centro Schumpeter da Universidade de Graz, tendo também lecionado em universidades no estrangeiro (v.g Roma, Manchester, Paris, México, Leicester, Nice, Pisa, Tóquio). É doutorado pela universidade de Kiel. Publicou numerosos artigos em jornais, e vários livros, entre os quais se destaca The Theory of Production (em co-autoria com Neri Salvadori). É co-fundador e editor-chefe do European Journal of the History of Economic Thought (Londres: Routledge) desde a sua fundação em 1993 (desde 2005 a revista é abrangida pela SSCI). Editor geral dos trabalhos não publicados e correspondência de Piero Sraffa, uma tarefa realizada em nome da Cambridge University Press e do Trinity College, Cambridge (três vols. com cerca de 2.000 págs). (para mais detalhe ver aqui)
Neri Salvadori é membro correspondente da Accademia Nazionale dei Lincei desde 2016 e é Professor de Economia na Universidade de Pisa, Itália (até 2021, quando se aposentou). É autor ou editor de vários livros, incluindo Theory of Production (co-autoria com Heinz D. Kurz), Theory of Growth and Accumulation de Ricardo e Elgar Companion to David Ricardo (co-edição com Heinz D. Kurz). Atualmente faz parte dos conselhos editoriais da Metroeconomica, a revista Europeia de História do Pensamento Económico, a revista de economia pós-keynesiana. Também lecionou nas Universidades de Nápoles, Catania, Denver e no Marritime University Institute, Nápoles. Foi professor visitante, entre outras, na Universidade de Graz, na Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), na Universidade de Santiago de Compostela, na Universidade de Paris-X-Nanterre, na Universidade de Nice, na Universidade Meiji (Tóquio). Os seus principais interesses de investigação envolvem a teoria da produção, a teoria do crescimento e a teoria da concorrência. Nos últimos anos, contribuiu também para a história do pensamento económico, nomeadamente no domínio da história da economia clássica e da história da teoria do crescimento. Recebeu o Prémio Linceo em 2004.

