CARTA DE BRAGA – “de animais institucionais” por António Oliveira

A nós, os mais velhos no tempo e nas recordações, ainda nos vai dando um enorme prazer, olhar e tentar imaginar e criar as estórias que estão, ou estarão, atrás das mais antigas construções e ruínas, memórias de outras épocas e civilizações, de gente que andou por aqui e não voltará mais, de que só sabemos pelos historiadores, pelos ‘escritos’ que lá apuseram, ou pelas estátuas e esculturas com que se representaram, e tentaram dar imagens às crenças que as levaram a ser, viver e andar.

E ainda temos gente que só se dedica a fazer isso, por acreditar que não saber nem querer tentar perceber de onde e como viemos, vai acabar por nos levar a não podermos nunca, conjecturar o que ainda teremos pela frente, deixando todas essas ‘merdas’ para os verdadeiros patrões do mundo, os donos das finanças e das IA’s, que o desenharão a seu bel prazer.

E tudo à nossa volta, parece apontar para uma das ideias-base do regime neoliberal, de a segurança ser cada vez menos uma tarefa que compete ao estado, e cada vez mais à exigência individual, ‘Um conceito de suavização que parece levar-nos a diminuir o impacto da crise, já que não somos capazes de a evitar: o futuro não está na lógica do progresso, mas em ganhar o presente, estabilizar e prolongá-lo, para impedir o pior’, escreveu em Outubro último, o filósofo e sociólogo Daniel Innerarity.

É uma outra maneira de encarar a ruptura entre o privado e público, pela expectativa de uma felicidade particular e individual, conseguida apenas pelas vitórias de cada um, por conseguir e manter relações pessoais vantajosas, muito mais importantes que prováveis mudanças sociais, ‘Pondo Marx de lado pois, actualmente, revolucionário será preservar o mundo e não mudá-lo’, acrescentou e explicou Innerarity. 

Lembra-me, tudo isto, uma estória que li um dia, referindo o escritor peruano Ramón Ribeyro, que costumava chegar à varanda do seu apartamento em Paris, para, calmamente, ali fumar um cigarro, mas se, ao atirar fora a ‘beata’, visse um transeunte lá em baixo, exclamava sempre ‘Que diabos faz esse tipo no meu cinzeiro?

Talvez para não se ouvirem comentários como este, e evitar que os cidadãos tenham ‘ganas’ de mudar o mundo e manter apenas relações pessoais agradáveis, a polícia de Málaga, vai pôr um ‘cão robot’ a patrulhar as ruas. O ‘bicho’ nem é grande, pesa apenas 35 quilos, é silencioso, não ladra, não morde, mas olha e grava com uma câmara de 360 graus, e até pode pôr multas. É claro que funciona a Inteligência Artificial, e vai acompanhar as patrulhas da guarda civil, todas elas ainda equipadas com a inteligência normal, natural e humana.

Por cá, foi divulgado passado dia 16, na sua conta no Instagram, com mais onde de mil seguidores registados, que, no primeiro dia do mês, tinha morrido o mais completo ‘relações públicas’ da vetusta Assembleia da República. Padecia de um tumor maligno, e quem escreveu a notícia, só o fez ‘Para agradecer todo o carinho, mimo e ternura que lhe dispensaram’, salientando mais ainda, ‘E foi um guerreiro e um lutador até ao fim’.

A porta-voz do PAN, Inês de Sousa Real, despediu-se através das redes sociais. ‘Os corredores e os jardins da Assembleia da República ficaram mais vazios. Um forte abraço aos assessores que incansavelmente cuidam e estimam a colónia dos gatos parlamentares’, escreveu. Era, foi, o gato Miau-Maria, um dos sete que lá têm residência, e privam de perto e bem, com a gente ilustre que ali também tem assento!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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