

Quando, no ano de 2002, José Saramago visitou a cidade de Ramallah, cujo nome significa ‘Morada do Senhor’, sita exactamente no centro da Cisjordânia, o escritor português comparou as condições de vida dos palestinos naquele enclave, com o extermínio dos judeus no campo de concentração de Auschwitz. Em resposta ao escândalo internacional levantado por tais declarações, Saramago afirmou simplesmente, ‘Fazer comparações emocionais que sacudam a gente para que compreenda’.
Esta estória foi contada por Ian Buruma, escritor holandês e a analista político internacional ao jornal ‘La Vanguardia’ já em Novembro do ano passado, mas a que Buruma acrescenta ainda mais nomes e mais críticas, a condenar as acções do estado israelita., invocando a tentativa da Alemanha nazi de aniquilar o povo judeu, dando especial importância ao historiador britânico Arnold J. Toynbee, por ter escrito, ‘Os judeus ocidentais, assimilaram esta civilização da pior forma possível; assimilaram o nacionalismo e o colonialismo ocidentais. A confiscação de casas, terras e propriedades dos 900.000 árabes palestinos, tornados refugiados, estava no mesmo nível moral dos piores crimes cometidos em quatro ou cinco séculos, pelos conquistadores e colonizadores europeus’.
Aliás o professor israelita Yuval Noah Harari, e escritor de best-sellers como ‘Sapiens’ e ‘Homo Deus’, escreveu em meados de Janeiro, ‘Netanyahu contruiu uma coligação de fanáticos messiânicos e oportunistas sem-vergonha’.
Note-se, aliás, a insistência de Netanyahu em apresentar a guerra contra o Hamas como um combate existencial entre o bem e o mal, enquanto do lado palestino se continua a comparar os israelitas aos nazis e, ao mesmo tempo que de um lado e do outro, se adopta a vingança e a violência terrorista para ditar comportamentos, será muito difícil alcançar uma solução ou, como afirma o cronista John Carlin, ‘Olho por olho, e todos acabarão cegos’.
Por outro lado, os sucessivos vetos de Biden (falhou o último!) aos pedidos de cessar fogo em Gaza, e os de Putin à condenação dos territórios ocupados na Ucrânia, também minaram o Conselho de Segurança das Nações Unidas, a instituição que devia tomar decisões vinculativas para quaisquer dos países envolvidos naquele problema, que também atinge, de algum modo, o resto do mundo, e o coloca à beira de uma catástrofe total; aliás o Secretário Geral, António Guterres, considerou em Genebra, nos últimos dias de Fevereiro que aquele órgão devia ser reformado.
Reforma que tem também sido pedida nos últimos tempos por países como o Brasil, a denunciar a ausência de países latino-americanos, árabes e africanos, num Conselho capaz de intervir em conflitos armados.
Termino esta Carta com uma citação do filósofo Santiago Alba Rico, apoiando-se no sempiterno Kant, ‘Em “A Paz perpétua” e em defesa do binómio política-moral, Kant adoptava a entrada do ponto de vista de um Estado imoral, que sabe que o êxito de uma operação criminosa não depende da justificação prévia, mas da audácia do próprio facto, que se justifica a si mesmo de algum modo’.
Talvez por isso, também Voltaire escreveu um dia ‘Confesso que o género humano não é tão mau como certas pessoas o apregoam, na esperança de o governar’.
Páscoa Feliz para todos, aqui e nos territórios atrás referidos.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
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