Adotar não é experimentar e depois dizer “não posso mais, não é o que eu sonhei”
Ao ver a série da RTP2 “Blue Bird”, e à qual fiz referência, na semana passada, refleti no sofrimento que pode existir entre quem adota e quem é adotado.
Porque querem os adultos adotar uma ou mais crianças?
Muitas podem ser as razões, sendo para mim a mais verdadeira, no sentido em que a criança vai integrar um lar feliz e vai ser feliz como qualquer filho biológico, o desejo de adoção se centrar na criança, que segundo a Declaração dos Direitos Humanos e dos Direitos da Criança, esta tem direito a ter uma família com vínculos positivos relativamente às pessoas que interagem com ela.
Como é importante o colinho da mãe que a faz recordar o bater do coração materno, que a faz reconhecer a voz e as festinhas paternas, o sorriso de um irmão/ã que fez festinhas estava ela ainda dentro da barriga da mãe.
A criança que é adotada é-o por razões de falta de cuidados físicos e afetivos, de violência, de neglicência parental, de socialização, de mendicidade, de abandono.
Outra razão para querer adotar pode ser para afagar o seu próprio ego, de ter alguém que se sente ao seu colo, que espere por ela/ele para fazer os trabalhos de casa, para ser abraçada/o pela criança que entrou nas suas vidas.
Longe de mim estar a criticar negativamente os motivos da adoção.
A nova relação que se vai estabelecer, com vista às necessidades de cada ser humano, deve reconhecer a especificidade de cada um, o respeito mútuo e a troca de afetos porque sim.
Há muitos filhos que não têm o comportamento adequado dos pais para fazê-los crescer de forma feliz, a relação pais/filhos pode ser natural e simples ou penalizadora e complexa. Há pais biológicos, que esquecendo os verdadeiros interesses dos seus filhos, lhes impõem opções que têm a ver com as suas expectativas e sonhos e não com os sonhos dos filhos. Quem não conhece casos destes?
E voltando à série Blue Bird não posso deixar de comentar o sofrimento da mãe adotiva, única sobrevivente de uma família num campo de concentração, e o sofrimento de Bezhig vítima de uma lei criminosa, no Canadá, existente há duzentos anos, a retirada, à força, das crianças indígenas para aniquilar a cultura indígena.
O sofrimento é silencioso, mas cheio de lágrimas e de boas recordações das famílias biológicas, recordações tão distantes que se foram apagando quando se sentiam amadas pelos pais adotivos, mas que fazia o desejo de quererem ir procurar o seu passado familiar…
A adoção não é um processo fácil para ninguém, em 2020 a Santa Casa da Misericórdia pediu o julgamento de pais adotivos que devolveram as crianças em fase de pré-adoção. As consequências desta atitude, “por motivos fúteis”, são apenas para as crianças. Os adultos não as quiseram e devolveram-nas.
A palavra devolução é de uma agressividade gritante, por isso mesmo foi referida por Isabel Pastor, diretora da Unidade de Adoção, Apadrinhamento Civil e Acolhimento Familiar da Santa Casa da Misericórdia (2020).
Isabel Pastor defende que seria importante haver uma condenação para os pais adotivos que devolvem as crianças, até pelo efeito preventivo que pode ter para evitar situações futuras. A pré adoção deve ter uma equipa a apoiar a família, a criança, para assegurar uma adaptação recíproca que leve a uma relação de filiação. É preciso sensibilizar a sociedade que não há crime sem castigo e que a resolução da dificuldade de adopção não passa por voltar a institucionalizar a criança.
Muitas vezes os problemas de adaptação não estão centrados na criança, mas nos adotantes que desistem porque afinal a criança não corresponde às suas expectativas.
E as expectativas da criança, quem zela por elas?
Em 2016 havia 19 crianças com o processo de adoção interrompido, em 2017, 20 crianças, em 2018, 14. No entanto, nesse mesmo ano, foram adotadas 213 crianças, segundo o relatório do Conselho Nacional de Adoção de 2018.
Desde 2020 algumas coisas foram alteradas, como o facto de não se poder separar irmãos. Não consegui legislação mais atual, mas o importante é esclarecer e acompanhar os pais adotivos para que a mudança na sua vida familiar se ajuste às necessidade da criança adotada ou/e biológica.

