Éramos algumas centenas naquele dia bem quente de 1961 (creio que no final de Maio ou princípio de Junho), todos nus e com um papel na mão!
Tínhamos chegado às 9 horas da manhã àquele quartel, para sermos inspeccionados para poder fazer (ou não) o Serviço Militar Obrigatório, mas, com os problemas em Angola a terem começado dois meses antes, a maioria já sabia que nos poderíamos despedir da família, depois do tempo da recruta.
Havia gente de todos os tipos, notava-se até pela fala e modos usados nas conversas, pela maneira como tapavam ‘as vergonhas’ e não era raro ver alguns que, não sei explicar a razão, tinham erecções que não conseguiam controlar, mas mesmo nus e de papel na mão, conversavam a medo sobre o problema de Angola.
A certa altura e, para prolongar toda aquela situação, aparece um sujeito –sargento ajudante como vim a saber depois– que manda todos os mancebos (palavrão que aprendi então, como e onde se devia usar) ficar de pé e encostados às paredes dos enormes corredores que no edifício havia, porque viria alguém passar revista ao pessoal.
E quando todos nos conseguimos encostar, e deixar a parte central do corredor livre, aparece um senhor com calças e botas de montar, esporas prateadas, enfeitado com um bivaque com pontas levantadas à frente e atrás, seguido de dois fardados de pessoal menor, a ver pela deferência com que tratavam o do bivaque em forma de sela, que andava lentamente, armado com um pingalim, debaixo do sovaco esquerdo.
Olhava para cada um dos nus, às vezes puxava e lia o papel que mantínhamos na mão, mas também puxava do pingalim, para deitar abaixo a masculinidade dos que não a conseguiam controlar, levando alguns a gritar e um deles chegou mesmo a levantar-se contra o sádico, e, nessa altura, percebi a razão da companhia dos dois fardados de pessoal menor.
Depois fomos encaminhados, ainda nus, para umas portas que davam acesso a salas de um piso inferior, onde estava sentado a uma secretária, um indivíduo vestindo bata e estetoscópio –seria o médico encarregado de legitimar aquilo tudo– e comigo ainda no alto da escada, depois de confirmar o meu nome e idade, atira para os dois sujeitos que também tinha ao lado na secretária, ‘Está apurado!’
Quando desci as escadas e parei à frente da secretária, perguntou secamente. talvez por fazer parte do guião, ‘Queixa-se de alguma coisa?’ a que respondi apenas ‘Quero vestir-me para ir embora’
Ainda tive de assinar uns papeis, mas nunca mais esquecerei o tipo do pingalim, com uma sela no alto da cabeça, a passar revista a umas centenas de mancebos, todos nus e de papel na mão!
Espero e quero crer que já não haverá mais disto, nos apelos para um novo Serviço Militar Obrigatório.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
O exacerbado, prepotente, arrogante e anacrónico militarismo evidenciado pelo senhor do pingalim e seus acólitos, pouco tem a ver com Serviço Militar Obrigatório. Julgo eu…
O exacerbado, prepotente, arrogante e anacrónico militarismo evidenciado pelo senhor do pingalim e seus acólitos, pouco tem a ver com Serviço Militar Obrigatório. Julgo eu…