Democracias minadas – a Argentina — Texto 10. Milei – uma história argentina, uma dinâmica global. Por Juliette Dumont

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Estamos no campo de domínio dos plutocratas –os que lenta, mas perseverantemente, se têm encarregado de ir minando os sistemas democráticos– mas que agora se vêm também acompanhados, ou emulados, por outras figuras e outros movimentos da direita mais extrema, tentando trazer acima práticas e regimes antigos, apoiados por poderes empresariais, económicos e financeiros, contando todos com a memória curta dos povos, devidamente ‘tratada’ com desinvestimento no ensino das humanidades e investimento na ‘sociedade do espectáculo’, comandado pelos ‘big brothers de bolso’.

António Oliveira, “das eleições ao sursumcordam”, A Viagem dos Argonautas em 20 de Abril de 2024 (aqui)

 

Texto 10. Milei – uma história argentina, uma dinâmica global 

 Por Juliette Dumont

Publicado por  em 7 de dezembro de 2023 (original aqui)

 

 

A vitória de Javier Milei nas eleições presidenciais na Argentina, no passado dia 19 de Novembro, e daqueles que ele representa, interroga tanto os democratas progressistas argentinos e latino-americanos como os europeus: como é que se chegou a este ponto? Para tentar compreendê-lo, é preciso superar a surpresa provocada pela eleição de um outsider cujo visual, as gesticulações e as afirmações provocatórias polarizaram a atenção dos defensores de uma racionalidade que viram nele uma personagem grotesca que se autodestruiria ao longo das suas tomadas de posição delirantes.

 

«A utopia libertária de Milei é um neoliberalismo radical embalado no projeto da extrema-direita global e com potenciais tentações autoritárias, com, por enquanto, um poder institucional frágil, sem base sociopolítica consolidada e muitas tensões internas. É preciso ver como isso evolui. »

Este tuit de 3 de dezembro é de Pablo Stefanoni, historiador e jornalista, autor de La rébellion est-elle passée à droite ? – Dans le laboratoire mondial des contre-cultures néo-réactionnaires (La Découverte, 2022, e que este ano foi objeto de uma 9ª edição), mas também editor-chefe da revista latino-americana de Ciências Sociais Nueva Sociedad. Stefanoni, um dos poucos analistas que levou a sério o fenómeno Milei nos últimos dois anos, resume neste tuit os temores e incertezas que o resultado das eleições argentinas levanta. Ele fala da complexidade de um movimento de ascensão rápida, durante um processo que entrelaça várias escalas espaciais (global, regional, nacional) e temporais, e da dificuldade de imaginar o futuro, a curto, médio e longo prazo num país abalado por mais de 20 anos de crises e que conheceu uma das ditaduras mais duras do Cone Sul (1976-1983).

A chegada ao poder de Milei e daqueles que ele representa questiona tanto os democratas progressistas argentinos e latino-americanos como os europeus: como é que chegámos aqui? Para tentar compreendê-lo, devemos superar o choque causado pela eleição de um estranho cujo olhar, gesticulações e projeções provocativas polarizaram a atenção dos proponentes de uma racionalidade que viam nele um caráter grotesco que se autodestruiria sobre as suas tomadas de posição delirantes. Trump e Bolsonaro foram objeto deste tipo de análises, bem como os seus partidários, muitas vezes considerados com condescendência e desprezo, tanto nas Américas como na Europa, por uma esquerda progressista que se dá conta de que está a perder a «batalha cultural». Para apreender o que se passa na Argentina, para produzir a inteligibilidade necessária à compreensão e à ação, é preciso, portanto, ultrapassar o personagem de Javier Milei e inscrevê-lo em dinâmicas mais amplas.

O 10 de dezembro de 2023, dia da tomada de posse do novo presidente, marcará também os 40 anos do regresso à democracia num país onde o terrorismo de Estado fez mais de 30 mil vítimas. Estes 40 anos são os das «Mães da Praça de Maio», do «Nunca más», da justiça transitória, das organizações civis que lutam pelos direitos humanos com uma ressonância internacional, dos movimentos feministas da «marea verde» (que obtiveram o direito ao aborto com forte luta em dezembro de 2020, mas também o reconhecimento do «feminicídio» no direito argentino) [1] inspirando as suas irmãs latino-americanas e europeias… Estas conquistas democráticas, essenciais, não devem fazer esquecer uma vertente mais sombria que comprometeu a passagem de uma democracia formal a uma democracia real.

Com efeito, os anos 1980-1990 são, tanto na Argentina como no resto da América Latina, os da crise da dívida, da hiperinflação, dos ajustamentos estruturais impostos pelo FMI e pelo Banco Mundial, traduzindo-se em políticas neo-liberais de desmantelamento dos serviços públicos e dos sistemas de proteção social, das privatizações, tendo por corolário uma enorme explosão de pobreza e de desigualdades.

Na Argentina, é o presidente Carlos Menem (1989-1999) que implementa estas medidas, nomeadamente a dolarização da economia em 1992. Este período, descrito pelo realizador Pino Solanas no seu documentário Memoria del saqueo (Memória de um saque, lançado em 2003), levou a Argentina à situação de não pagamento da dívida e à crise de 2001.

A crise económica desemboca numa crise institucional e o slogan «Que se vayan todos» («Vão-se todos embora») domina as imensas manifestações que levam o presidente Fernando de La Rua (1999-2001) a demitir-se; esta «explosão social» gera mobilizações e modos de ação (piqueteros, assembleias de bairros e empresas «recuperadas» pelos assalariados) que propõem uma alternativa ao neoliberalismo e alimentam o imaginário de esquerda [2]. Dois outros presidentes se sucederam até à eleição, em 2003, de Nestor Kirchner, peronista de centro-esquerda. O país está a sair gradualmente da crise e parece reencontrar uma certa normalidade institucional.

No entanto, é o início de uma polarização que não parou de marcar – e de paralisar – a vida política argentina desde há 20 anos. Enquanto a esposa de Nestor Kirchner, Cristina Fernández de Kirchner, é presidente desde 2007, um conflito opõe-na, em 2008-2009, ao «campo», termo que designa o complexo agroindustrial argentino. Este último representa 10% do PIB, 20% dos empregos e 70% das receitas em divisas de que a economia – e o Estado – argentina necessitam. O «campo», ao longo da história argentina, fez pressão para uma economia aberta, impostos baixos, uma maior desregulamentação económica e uma política externa alinhada pelas grandes potências (a Grã-Bretanha ontem, a China hoje). Este modelo, assumido politicamente pelo anti-peronismo, assenta num mercado de trabalho caracterizado por baixos salários e pela quase ausência de organizações sindicais. Diante dele, existe uma indústria que é a terceira maior na América Latina e que emprega um terço dos trabalhadores argentinos e tem poderosos sindicatos. É a base política do peronismo, cujo kirchnerismo é a última versão de centro-esquerda.

A oposição destes dois modelos económicos, sociais, políticos, mas também culturais, ditou as alternâncias políticas (a nível legislativo e executivo) desde 2003 segundo um ritmo «taquicárdico», para retomar a expressão do jornalista José Natanson [3]. Este último resume os apoiantes e as suas implicações: “[Esta polarização] é uma estratégia deliberada de preservação do poder, um modo de construção política cujo resultado é o prolongamento de uma circularidade exasperante que resulta numa gestão estéril, um modelo de governança sem reformas, sem resultados e, finalmente, sem esperança. Há cerca de 15 anos, a economia argentina mal cresce, as exportações estagnam, não é criado nenhum emprego privado e a inflação aumenta: 25% em média no segundo governo de Cristina Fernández de Kirchner [2011-2015], 50% no de Mauricio Macri [2015-2019], mais de 100 % no de Alberto Fernández [2019-2023].[4]

O esgotamento deste sistema, simbolizado pela ausência dos seus dois principais representantes (Cristina Fernández de Kirchner e Mauricio Macri) entre os candidatos às eleições presidenciais de 2023, é um dado essencial para compreender o sucesso de Javier Milei e do seu partido La Libertad Avanza (LLA). A socióloga e ecofeminista Maristella Svampa faz parte das que insistem na «re-significação à direita do 2001 argentino e do slogan “Que se vayan todos” operada por Milei e os seus apoiantes»: “já não é a promessa de uma restauração do vínculo social a partir de valores como a solidariedade, a mobilização coletiva e o Estado social, mas a promessa da defesa do indivíduo trabalhador, ignorado e/ou explorado por um Estado ineficaz e corrupto”. Ela conclui: “O ciclo que começou como uma explosão e se desdobrou à esquerda em 2001, é fechado hoje pela direita em 2023[5], com alguns sobreviventes do menemismo a fazerem parte do movimento que se criou em torno de Javier Milei. Já sem contar com o apoio decisivo do lado macrista na segunda volta.

Esta recomposição e este novo significado devem ser pensados em ligação com vários processos que se interligaram nos últimos 15 anos: a sociedade argentina está a passar por um processo de uberização, que afecta em particular os jovens; os serviços públicos continuam a degradar-se, enquanto o discurso político é desacreditado, provocando com ele uma desconfiança crescente em relação ao Estado. A retórica anti-casta de Milei e a retomada pelos seus partidários do slogan «Que se vayan todos» tiveram, assim, uma forte repercussão tanto nas classes populares como nas classes médias, cujo poder de compra não pára de diminuir e para as quais o Estado já não representa uma instância protetora. Nesta perspetiva, impostos, taxas, regulações e normas são entraves, o Estado torna-se um inimigo e os partidos políticos no poder são vistos como microcosmos desligados da realidade… e da verdade. A pandemia de COVID-19 foi, a este respeito, um catalisador da tensão da ligação entre a sociedade e o Estado [6]. Os confinamentos longos e muito restritivos decididos pelo Governo de Alberto Fernández agravaram o destino de um número cada vez maior de trabalhadores do sector informal, tornando inaudíveis as razões desta decisão – a proteção da população, nomeadamente das pessoas idosas. Como em outros lugares do mundo, as teorias da conspiração floresceram nas redes sociais e esse contexto favoreceu o surgimento e a audiência de personagens propondo uma versão «alternativa» da verdade e uma outra visão do mundo, quando ainda não estavam no poder, como Jair Bolsonaro. Javier Milei foi um destes personagens.

Recusando o regime de verdade enunciado a partir do Estado, Javier Milei soube captar simultaneamente um mal-estar e um desencanto próprios da Argentina e inscrever-se numa dinâmica que transcende as fronteiras deste país. A singularidade do «paleo-libertarianismo» miléista conjuga-se de facto com a gramática das novas direitas radicais (ou «direitas alternativas») que se desenvolvem no espaço transatlântico: xenofobia, racismo, anti-feminismo, masculinismo, ceticismo climático, revisionismo histórico, ataques contra estudos de género, anti-estatismo, «pós-verdade»… retomando a retórica e os repertórios de ação que eram os da esquerda.

O termo «casta» empregue por Milei e pelos seus apoiantes é, por exemplo, utilizado há muito tempo no Podemos em Espanha. Os laços de Milei com Vox e com o PiS polaco, com o trumpismo e o bolsonarismo são conhecidos, assim como com o chileno José Antonio Kast, candidato de extrema-direita que ficou em segundo lugar nas eleições presidenciais de 2021. Nas redes sociais, os partidários da La Libertad Avanza não escondem a sua admiração por Marine Le Pen, enquanto a sua vice-presidente, Victoria Villaruel, filha e sobrinha de oficiais envolvidos de perto no terrorismo de Estado [7], proclama sua admiração por Giorgia Meloni. Dentro desta «grande família global», para retomar a expressão do sociólogo Ariel Golstein (autor da obra La reconquista autoritaria. Cómo la derecha global amenaza la democracia en América Latina, publicada em 2022) há evidentemente diferenças que qualquer análise comparada e transnacional deve ter em conta.

Este contexto global é, no entanto, indispensável para compreender a ascensão de Javier Milei, totalmente desconhecido na cena política argentina há três anos: ele representa um reservatório de «forças e recursos financeiros, ideológicos e comunicativos que alimentaram La Libertad Avanza», enquanto as experiências trumpista e bolsonarista foram «metabolizadas» por esta última [8]. «A guerra cultural» levada por estes diferentes movimentos contra a «hegemonia progressista» que ameaça os «fundamentos da civilização» é um ponto de articulação importante e permite-lhes juntar direitas conservadoras cujas expressões partidárias tradicionais estão em plena decomposição.

A vitória massiva e inquestionável enquanto tal de Javier Milei deve, pois, ler-se também, por um lado, pela deslocação do eixo da direita e do centro-direita para a extrema-direita e, por outro, da postura unicamente defensiva e não proactiva da esquerda progressista e/ou peronista. Também aqui o caso argentino se inscreve num quadro mais amplo que é o de uma democracia liberal cujo papel parece cada vez mais resumir-se à gestão das crises geradas pela ordem neoliberal. Este regime e as forças políticas que o sustentam parecem prisioneiros da «tirania do presente» [9], incapazes de propor um futuro desejável. Diante delas, são as direitas radicais que propõem «mudar o mundo»… mesmo que para isso se aliem com o pior do «Velho Mundo».

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Notas

[1] Ver Caroline Prévost, «Néomuralisme et militantisme féministe dans l’Argentine du XXIe siècle», Amérique Latine Histoire et Mémoire. Os Cadernos ALHIM [En ligne], 41 | 2021, colocados em linha em 6 de julho de 2021, consultado em 5 décembre 2023, aqui.

[2] Sobre este assunto, ver os trabalhos de Maxime Quijoux, em particular Néolibéralisme et autogestion. L’expérience argentine, Paris, edições Iheal, 2014.

[3] « 2009 (antikirchnérisme), 2011 (kirchnérisme), 2013 (antikirchnérisme), 2015 (antikirchnérisme), 2017 (antikirchnérisme), 2019 (kirchnérisme), 2021 (antikirchnérisme)… »

[4] José Natanson, «Argentina: elecciones en el atardecer de los liderazgos», Nueva Sociedad, n°306, juillet-août 2023. Disponivel em https://nuso.org/articulo/306-argentina-atardecer-liderazgos/

[5] Maristella Svampa, «Milei y la crisis argentina», Nueva Sociedad, agosto 2023, disponível em linha : https://nuso.org/articulo/milei-y-la-crisis-argentina/

[6] Veja sobre este assunto as análises do sociólogo e antropólogo argentino Pablo Semán.

[7] Veja sobre este assunto as análises do historiador Christophe Giudicelli, “O que significa a eleição de Milei? “, Contretemps. Jornal da crítica Comunista, 11/30/2023, online: https://www.contretemps.eu/de-quoi-milei-est-il-le-nom / [consultado em 01/12/2023].

[8] Pablo Semán, Está entre nosotros. ¿De dónde sale y hasta dónde puede llegar la extrema derecha que no vimos venir?, Buenos Aires, Siglo XXI editores, 2023.

[9] Jérôme Baschet, Défaire la tyrannie du présent. Temporalités émergentes et futurs inédits, Paris, La Découverte, 2018.

 


A autora: Juliette Dumont, doutorada em História, é Historiadora da América Latina no Instituto de Altos Estudos da América Latina (IHEAL-CREDA), Diretora do Centro Franco-Argentino de Altos Estudos em Ciências Sociais, Universidade de Buenos Aires.

Juliette Dumont trabalha na diplomacia cultural latino-americana e no pan-americanismo na sua dimensão cultural e educativa. Ela publicou notavelmente diplomacia Cultural e fabrica identidades. Argentina, Brasil, Chile (1919-1946) (Rennes University Press, 2018); “Cooperação intelectual Pan-americana “no trabalho coordenado por Juan Pablo Scarfi e David Sheinin, o novo Pan-americanismo e a estruturação das relações interamericanas (Routledge, 2022) e” Pan-americanismo, cadinho e Encruzilhada do internacionalismo educacional (1917-1945) ” na revista Relações Internacionais (2020/3, n183). Foi presidente da Associação de investigação sobre o Brasil na Europa de 2015 a 2020.

Desde 2016, tem feito inúmeras intervenções mediáticas sobre notícias recentes da América Latina, em particular sobre o Brasil, na imprensa escrita (Le Monde, Midi Libre, TFI Info, Huffington Post, 20 minutes, Le journal du dimanche) e audiovisual (RFI, France Culture, France 5, LCI, TV5 Monde, France 24). (para mais info ver aqui e aqui)

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