Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 3 — Texto 4. O Momento Minsky – Crise hipotecária subprime e possível recessão. Por John Cassidy

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 3 – Das harmonias universais decretadas pela Escola de Chicago à violência das crises atuais – Reflexões sobre os Nobel ou nobelizáveis da Escola de Chicago

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

Texto 4 – O Momento Minsky – Crise hipotecária subprime e possível recessão

 Por John Cassidy

Publicado por em 27 de Janeiro de 2008 (ver aqui)

 

TOM BACHTELL

 

Há vinte e cinco anos, quando a maioria dos economistas exaltava as virtudes da desregulamentação financeira e da inovação, um aventureiro chamado Hyman P. Minsky manteve uma visão mais negativa de Wall Street; de facto, observou que banqueiros, operadores em bolsa e outros financiadores desempenhavam periodicamente o papel de incendiários, pondo toda a economia em chamas. Wall Street encorajou empresas e indivíduos a assumirem demasiados riscos, acreditava ele, gerando ruinosos ciclos de expansão-recessão. A única forma de quebrar este padrão era o governo intervir e regular os homens do dinheiro.

Muitos dos colegas de Minsky consideravam a sua “hipótese de instabilidade financeira”, que ele desenvolveu pela primeira vez nos anos sessenta [do século XX], como radical, se não mesmo maluca. Hoje, com a crise do subprime aparentemente à beira de se metamorfosear numa recessão, as referências a ela [hipótese de instabilidade financeira] tornaram-se comuns nos websites financeiros e nos relatórios dos analistas de Wall Street. Vale a pena revisitar a hipótese de Minsky. Ao tentar relançar a economia, o Presidente Bush e a Câmara já chegaram a acordo sobre os contornos de um “pacote de estímulos”, mas a primeira fase da cura de qualquer doença é fazer um diagnóstico correto.

Minsky, que faleceu em 1996, com a idade de setenta e sete anos, obteve o doutoramento em Harvard e ensinou nas [universidades] Brown e Berkeley, e na Universidade de Washington. Não tinha nada contra as instituições financeiras – durante muitos anos, serviu como diretor do Banco Mark Twain, em St. Louis – mas sabia mais sobre o seu funcionamento do que a maioria dos economistas de secretária. Existem basicamente cinco fases no modelo de Minsky do ciclo de crédito: deslocamento, boom, euforia, tomada de lucros e pânico. Um deslocamento ocorre quando os investidores ficam excitados com algo – uma invenção, como a Internet, ou uma guerra, ou uma mudança abrupta da política económica. O ciclo atual começou em 2003, com a decisão do chefe do FED, Alan Greenspan, de reduzir as taxas de juro de curto prazo para um por cento, e um influxo inesperado de dinheiro estrangeiro, particularmente dinheiro chinês, para obrigações do Tesouro dos EUA. Com o custo dos empréstimos – taxas de hipoteca, em particular – em mínimos históricos, desenvolveu-se rapidamente um boom imobiliário especulativo muito maior, em termos de valorização global, do que a anterior bolha nas ações tecnológicas.

Como uma forte expansão boom leva à euforia, disse Minsky, bancos e outros financiadores comerciais estendem o crédito a mutuários cada vez mais duvidosos, muitas vezes criando novos instrumentos financeiros para fazer o trabalho. Durante os anos noventa e oitenta, os títulos de alto risco [lixo] desempenharam esse papel. Mais recentemente, foi a titularização de hipotecas, que permitiu aos bancos conceder empréstimos à habitação sem se preocuparem se alguma vez seriam reembolsados. (Os investidores que comprassem os títulos novos seriam deixados para lidar com quaisquer incumprimentos). Depois, no topo do mercado (neste caso, em meados de 2006), alguns operadores em bolsa inteligentes começam a encaixar os seus lucros.

O início do pânico é geralmente anunciado por um efeito dramático: em Julho, dois fundos de cobertura de Bear Stearns, que tinham investido fortemente em títulos hipotecários, entraram em colapso. Seis meses e quatro cortes nas taxas de juro mais tarde, Ben Bernanke e os seus colegas do FED estão a lutar para conter a crise. Apesar da recuperação da semana passada, as perspetivas continuam a ser sombrias. Segundo Dean Baker, o co-director do Centro de Investigação Económica e Política, os preços médios das casas estão a cair a nível nacional a uma taxa anual superior a dez por cento, algo que não se via desde antes da Segunda Guerra Mundial. Isto significa que os lares americanos estão a ficar mais pobres a uma taxa superior a dois milhões de milhões de dólares por ano.

É difícil dizer exatamente como a queda dos preços das casas afetará a economia, mas as recentes simulações por computador realizadas por Frederic Mishkin, um governador do FED, sugerem que, por cada dólar que a riqueza típica das famílias americanas em habitação diminui num ano, essa família pode reduzir os seus gastos em até sete cêntimos. A nível nacional, isso soma cerca de cento e cinquenta e cinco mil milhões de dólares, o que é maior do que o pacote de estímulos do Presidente Bush. E não tem em conta a queda dos preços das ações, o colapso da confiança, e a imposição tardia de práticas de empréstimo mais restritivas – tudo isto irá restringir ainda mais a atividade económica.

Num ano de eleições, não se pode esperar que os políticos reconheçam a sua impotência. No entanto, foi desanimador ver os republicanos a explorar a crise atual para tentarem tornar permanentes os cortes fiscais do Presidente, e os democratas a tentarem imputar a recessão económica à Casa Branca. Por uma vez, Bush não é o culpado. Os seus cortes fiscais foram irresponsáveis e insensivelmente regressivos, mas não desempenharam um papel significativo na bolha da habitação.

Se alguém é culpado é Greenspan, que manteve as taxas de juro demasiado baixas durante demasiado tempo e ignorou avisos, alguns dos seus próprios colegas, sobre o que estava a acontecer no mercado hipotecário. Mas ele não era o único. Entre 2003 e 2007, a maioria dos americanos não quis ouvir falar sobre o lado negativo dos fundos que investem em títulos garantidos por hipotecas, ou de hipotecas que permitem aos mutuantes fazer pagamentos mensais tão baixos que os seus saldos dos seus créditos por vezes até aumentam. Estavam ocupados a pensar quanto é que os seus vizinhos tinham ganho ao vender o seu apartamento, a pesquisar websites imobiliários e a irem às jornadas Portas Abertas e a ligar para o Washington Mutual ou Countrywide para ver se conseguiam obter novo empréstimo imobiliário. Essa é a natureza das manias especulativas: finalmente, eles acabam por atrair muitíssima gente.

Pode pensar que a melhor solução é evitar o desenvolvimento de manias, mas isso requer vigilância. Desde os anos oitenta, o Congresso e o poder executivo têm conspirado para enfraquecer a supervisão federal de Wall Street. Talvez o passo mais fatídico tenha vindo quando, durante a Administração Clinton, Greenspan e Robert Rubin, então Secretário do Tesouro, defenderam a abolição da Lei Glass-Steagall de 1933, que pretendia evitar a recorrência da especulação desenfreada que precedeu a Depressão.

A maior necessidade é de reavaliação intelectual, e um bom lugar para começar é com uma declaração de um artigo escrito em co-autoria por Minsky, onde se diz que “são necessárias uma intervenção adequada e estruturas institucionais para que as economias de mercado sejam bem sucedidas”. Em vez de travar velhos debates sobre cortes fiscais versus aumentos de despesas, os decisores políticos deveriam estar a discutir como reformar o sistema financeiro para que este sirva o resto da economia, em vez de se alimentar dela e a desestabilizá-la. Entre os problemas em causa: como reestruturar os pacotes de remuneração de Wall Street que encorajam a assunção de riscos excessivos; restringir os empréstimos irresponsáveis sem excluir os mutuários solventes; ajudar as vítimas de práticas predatórias sem salvar os mutuantes irresponsáveis; e responsabilizar as agências de rating pelas suas avaliações. Estas são questões complexas, com poucas soluções fáceis, mas isso é o que as torna interessantes. Como Minsky pensava, “as economias evoluem, e assim também a política económica deve evoluir”.

 


O autor: John Cassidy [1963-] é jornalista do The New Yorker e colaborador frequente da New York Review of Books. Ele é o autor de How Markets Fail and Dot.con: How America Lost Its Mind and Money in the Internet Era and lives in New York City.

 

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