As sílabas marginais/são três da tarde./de Nelson Ferraz

 

são três da tarde.

coberto de areia acendo

a primeira página

de um caderno novo.

a caneta esmaga o universo

com uma rima de berlindes.

pá e balde estão prontos

para um buraco

sem princípio depois de ser ontem.

acredito que se enrolar o tempo

em papel de lustro

terei uma alcateia de versos

que não cicatrizam com retratos.

mas são três da tarde

estou sentado no chão da sala

cheio de mar nas mãos.

afundo-me num arvoredo de paredes.

Chopin está calado e quieto

e eu chovo um ninho com barcos

onde também não estou.

depois do naufrágio

tudo o que resta são restos

de silêncio.

um silêncio onde é possível

plantar vida.

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nelson ferraz in “Restos de Silêncio”, Seda Publicações, 2023.

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