FERNANDO PESSOA/ ÁLVARO DE CAMPOS (1888-1935), “A PARTIDA” (FRAGMENTO)

 

FERNANDO PESSOA/ ÁLVARO DE CAMPOS (1888-1935),

“A PARTIDA” (FRAGMENTO)

 

 

Minha imaginação é um Arco de Triunfo.

Por baixo passa toda a Vida.

Passa a vida comercial de hoje, automóveis, camions,

Passa a vida tradicional nos trajes de alguns regimentos,

Passam todas as classes sociais, passam todas as formas de vida,

E no momento em que passam na sombra do Arco do Triunfo

São momentaneamente um triunfo que eu os faço ser.

Qualquer cousa de triunfal cai sobre eles,

E eles são, um momento, pequenos e grandes.

[…]

Mas às grandes horas da minha sensação

Quando em vez de rectilínea, ela é circular

E gira vertiginosamente sobre si própria,

O Arco desaparece, funde-se com a gente que passa,

E eu sinto que sou o Arco, e o espaço que ele abrange,

E toda a gente que passa,

E todo o passado da gente que passa,

E todo o futuro da gente que passa,

E toda a gente que passará

E toda a gente que já passou.

Sinto isto, e ao senti-lo sou cada vez mais

A figura esculpida a sair do alto do arco

Que fita para baixo

O universo que passa.

Mas eu próprio sou o Universo,

Eu próprio sou sujeito e objecto,

Eu próprio sou Arco e Rua,

Eu próprio cinjo e deixo passar, abranjo e liberto,

Fito de alto, e de baixo fito-me fitando,

Passo por baixo, fico em cima, quedo-me dos lados,

Totalizo e transcendo,

Realizo Deus numa arquitectura triunfal

De arco de triunfo posto sobre o universo,

De arco de triunfo construído

Sobre todas as sensações de todos que sentem

E sobre todas as sensações de todas as sensações…

 

Poesia do ímpeto e do giro,

Da vertigem e da explosão,

Poesia dinâmica, sensacionista, silvando

Pela minha imaginação fora em torrentes de fogo,

Em grandes rios de chuva, em grandes vulcões de lume.

 

de “Poemas de Álvaro de Campos”, ed. crítica de Cleonice Berardinelli, 1992)

 

 

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