Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 3 – Das harmonias universais decretadas pela Escola de Chicago à violência das crises atuais – Reflexões sobre os Nobel ou nobelizáveis da Escola de Chicago
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
9 min de leitura
Texto 13 – A “Teoria da Ressaca” do Crash 2008-2009 falha por causa do “timing” não adequado
Por
, em 29 de Junho de 2015, (original aqui)
Por coincidência, duas pessoas no passado fim-de-semana informaram-me sobriamente daquilo a que chamam uma “dura verdade”: que o emprego a nível nacional tinha simplesmente de diminuir em 2008 e 2009.
Como vê, disseram eles, tivemos de tirar as pessoas da nossa atividade de construção de casas e das profissões ligadas a essa atividade, e era impossível fazer isso sem baixar o nível de emprego.
Isto é, naturalmente, um eco da afirmação de John Cochrane no seu discurso de abertura do Fórum CRSP de 2008 em que afirmou:
“Deveríamos ter uma recessão“, disse Cochrane em Novembro, falando a estudantes e investidores numa sala de conferências com vista para o Lago Michigan. “As pessoas que passam a vida a pregar pregos no Nevada precisam de fazer outra coisa …”
Ou, como ele explicou a John Cassidy do The New Yorker:
A base de uma economia que funciona bem incluirá… algumas flutuações no nível de desemprego. Quando descobrirmos que fizemos demasiadas casas no Nevada, algumas pessoas vão ter de se mudar para empregos diferentes, e vai demorar algum tempo a procurar o emprego que considerem como adequado. Haverá algum desemprego. Não tanto como nós temos, certamente, mas algum…. Uma parte do desemprego é devido ao facto de que as pessoas procuram melhores empregos depois de dificuldades ou de desajustamentos pelas quais terão de passar …. Isso é um grande e duradouro contributo… [que] resulta de uma economia que funciona perfeitamente…. Será dez por cento o número certo? Agora estamos a falar de opiniões…. Mas o que precisamos é de modelos, dados, previsões… não da minha opinião versus a sua opinião…
A questão, porém, é que isto está simplesmente errado. Veja-se o colapso do emprego no país como um todo. Começa no Inverno de 2008 e prolonga-se até ao Outono de 2009:
Veja-se agora o colapso da atividade económica no sector da construção residencial – o período de tempo em que estamos a retirar recursos de empresas que empregam pessoas “a pregar pregos no Nevada”:
Esse colapso acontece entre Fevereiro de 2008 e Novembro de 2009? Não. Esse colapso na construção residencial começa no Outono de 2005. A construção residencial está a retomar a sua quota-parte de atividade económica de tendência normal no Verão de 2006. A construção residencial está a 5/6 do caminho até ao seu nível atual – altamente deprimido de hoje, antes da queda da taxa de emprego em todo o país.
Assim, a “teoria da ressaca” do colapso do emprego de 2008-2009 falha porque simplesmente não consegue funcionar no “timing” adequado.
A realocação sectorial é uma coisa muito diferente da depressão macroeconómica. E o facto de as pessoas desde antes de Schumpeter terem tentado confundi-las erroneamente não significa que devamos fazê-lo.
E por isso precisamos, mais uma vez, de citar Paul Krugman – comentando de forma explícita a citação “pregar pregos” do orador principal da Escola de Chicago de então, em 2008 – porque Krugman tem razão:
Paul Krugman (2008): HangoverTheorists: “Assim, a teoria da ressaca, sobre a qual escrevi há cerca de uma década …,
… ainda circula por aí. A ideia básica é que uma recessão, mesmo uma depressão, é de alguma forma uma coisa necessária, parte do processo de “adaptação da estrutura da produção”. Temos de levar as pessoas que estavam a bater pregos no Nevada para outros lugares e ocupações, razão pela qual o desemprego tem de ser elevado nos estados da bolha habitacional durante algum tempo. O problema com esta teoria, como referi há muito tempo, é duplo:
- Não explica porque não há desemprego em massa quando as bolhas estão a crescer e a diminuir – porque é que não necessitámos um elevado desemprego noutros locais para levar essas pessoas para a atividade de pregar pregos no Nevada?
- Não explica porque é que as recessões reduzem o desemprego em geral e não apenas nas indústrias que estavam inchadas por uma bolha.
Um facto notável, sobre o qual já escrevi, é que a atual recessão está a afetar também alguns estados sem bolha no sector imobiliário, tão ou mais severamente como os epicentros da bolha…
De acordo com Brad De Long,
Milton Friedman lembrar-se-ia de que na Universidade de Chicago, onde estudou não se ensinavam disparates tão perigosos.
Mas agora, evidentemente, ensina-se.
E:
Paul Krugman (1998): The HangoverTheory: “Há algumas semanas, um jornalista dedicou uma parte substancial de um artigo a caracterizar-me:
… à minha incapacidade de prestar a devida atenção à “teoria austríaca” do ciclo económico – uma teoria que considero tão digna de estudo sério como a teoria flogística do fogo. Pois bem. Mas o incidente pôs-me a pensar – não tanto sobre essa teoria em particular, mas sobre a visão geral do mundo por detrás dela. Chame-lhe a teoria das recessões pelo sobre-investimento, ou ‘liquidacionismo,’ ou simplesmente chame-lhe a ‘teoria da ressaca’. É a ideia de que as recessões são o preço que pagamos pelos boom, que o sofrimento que a economia vive durante uma recessão é um castigo necessário para os excessos da expansão anterior.
A teoria da ressaca é perversamente sedutora – não porque oferece uma saída fácil, mas porque não a oferece. Transforma as oscilações dos nossos gráficos numa peça de moral, uma história de arrogância e de queda. E oferece aos seus defensores o prazer especial de dispensar conselhos dolorosos e ficarem com a consciência tranquila, seguros na crença de que não são sem coração, mas meramente praticando um amor duro e pleno.
Por mais poderosas que estas seduções possam ser, deve-se-lhes resistir – pois a teoria da ressaca é desastrosamente errada. As recessões não são consequências necessárias dos períodos de fortes expansões. Podem e devem ser combatidas, não com austeridade mas com liberalidade – com políticas que encorajem as pessoas a gastar mais, e não menos. Nem se trata de um mero argumento académico: A teoria da ressaca pode causar danos reais. Os pontos de vista liquidacionistas desempenharam um papel importante na propagação da Grande Depressão – com teóricos austríacos como Friedrich von Hayek e Joseph Schumpeter a argumentar, nas próprias profundezas dessa depressão, contra qualquer tentativa de restaurar a “falsa” prosperidade através da expansão do crédito e da oferta de dinheiro. E estes mesmos pontos de vista estão a fazer a sua parte para inibir a recuperação nas economias deprimidas do mundo neste preciso momento.
Deixem-me fazer uma pergunta aparentemente tola: Porque é que os picos em alta e em baixa da procura de bens de investimento deveriam conduzir a altos e baixos no conjunto da economia? Não diga que é óbvio – embora os ciclos de investimento estejam claramente associados a recessões e recuperações em toda a economia na prática, é suposto uma teoria explicar as correlações observadas e não apenas assumi-las. E de facto a chave da revolução keynesiana no pensamento económico – uma revolução que tornou a teoria da ressaca em geral e a teoria austríaca em particular tão obsoleta como os epiciclos – está na perceção de John Maynard Keynes de que a questão crucial não era a razão pela qual a procura de investimento por vezes diminui, mas por que razão é que tais declínios provocam a queda de toda a economia.
Aqui está o problema: Por uma questão de aritmética simples, a despesa total na economia é necessariamente igual ao rendimento total (cada venda é também uma compra, e vice-versa). Portanto, se as pessoas decidirem gastar menos em bens de investimento, não significa isso que devem estar a decidir gastar mais em bens de consumo – implicando que uma quebra no investimento deve ser sempre acompanhada de um aumento correspondente no consumo? E se assim for, por que razão haveria de haver um aumento do desemprego?
A maioria dos teóricos modernos da teoria da ressaca provavelmente nem se apercebem que isto é um problema para a sua história. Nem os teóricos austríacos supostamente profundos responderam ao enigma. O melhor que von Hayek ou Schumpeter conseguiram encontrar foi a vaga sugestão de que o desemprego era um problema friccional, criado à medida que a economia transferia trabalhadores de um sector de produção de bens sobredimensionado para a produção de bens de consumo. (Daí a sua oposição a qualquer tentativa de aumentar a procura: Isto levaria “à redução dos estragos que a depressão poderia fazer “, uma vez que o desemprego em massa fazia parte do processo de “adaptação da estrutura da produção”). Mas nesse caso, porque é que o boom do investimento – que presumivelmente requer uma transferência de trabalhadores na direção oposta – também não gera desemprego em massa? E de qualquer modo, esta história tem pouca semelhança com o que realmente acontece numa recessão, quando cada indústria – não apenas o sector de investimento – contrata normalmente….
A teoria da ressaca, então, revela-se intelectualmente incoerente; ninguém conseguiu explicar porque é que os maus investimentos no passado requerem o desemprego de bons trabalhadores no presente. No entanto, a teoria tem um forte apelo emocional. Normalmente esse apelo é mais forte para os conservadores, que não suportam a ideia de que uma mão positiva por parte dos governos (deixe-se estar só e quieto! Imprimir dinheiro) pode ser uma boa ideia. Alguns libertários enaltecem a teoria austríaca, não porque tenham realmente pensado bem nessa teoria, mas porque sentem a necessidade de alguma alternativa prestigiosa às implicações estatais do keynesianismo. E algumas pessoas são provavelmente atraídas pela escola austríaca porque imaginam que esta desvaloriza as pretensões intelectuais dos professores de economia. Mas os moderados e liberais não são imunes aos encantos sedutores da teoria – especialmente quando esta lhes dá a oportunidade de dar lições a outros sobre os seus fracassos….
A Grande Depressão aconteceu em grande parte porque os decisores políticos imaginaram que a austeridade era a forma de combater uma recessão; a quase-tão grande Depressão que envolveu grande parte da Ásia foi agravada pelo mesmo instinto. Keynes tinha razão: Muitas vezes, se não sempre:
são as ideias, e não os interesses instalados, que são perigosas tanto para o bem como para o mal”.
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