Gosto de me focar brevemente em conversas alheias quando caminho. Não me detenho para as ouvir. Limito-me a escutar aquela brisa de palavras que se pode escutar enquanto se desacelera o passo, o suficiente para ouvir três segundos do que é dito sem que a coreografia se torne demasiado estranha e revele o meu intento.
Faço-o porque existe um quadrilheiro em mim, bem entendido. Nunca negarei. Mas também porque acredito que há uma obrigação de o fazer, para aquelas pessoas que, importando-se com a realidade social, têm vidas que os paradoxalmente arrastam para uma bolha.
Escutei três conversas. Na primeira, uma senhora dava nota às amigas de que “até há brasileiros que são boas pessoas, mas…”. Noutra, um idoso comentava com outro que “isto agora aqui é só lojas de pretos, olha aquela barbearia ali onde era um restaurante de frangos”. E, por fim, um homem de quarenta anos que comentava com outro que “já votou Bloco e PCP. Mas agora não. Olha isto da Ucrânia. Além disso, não são hoje eles que estão mesmo contra o sistema”.
Infelizmente, a minha percepção de que a resistência cultural, o preconceito e a mudança dos referenciais de protesto, numa alteração de órbita de um combate à injustiça social que pode ser superada democraticamente, para o combate à própria democracia, são mais importantes para explicar o quadro eleitoral negro do que qualquer fator de exclusão económica.
Não sabemos como vai ser. Mas o murmúrio dos passeios não augura nada de bom.
Post colocado às 21.08 do dia 9 de Junho de 2024
Para ler este texto do Diogo Martins no original clique em:

