Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 4 — Texto 8. A esquecida tradição económica da esquerda (1/2) . Por Meg Jacobs

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 4 – A quem servem os modelos de macroeconomia – os impasses da esquerda americana

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 min de leitura

Nota de editor: dada a extensão do texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a primeira.

 

Texto 8 – A esquecida tradição económica da esquerda (1/2)

Nas eras Progressista e do New Deal, houve uma resposta marcadamente diferente à subida dos preços e uma utilização diferente da teoria económica.

 Por Meg Jacobs

em 13 de Abril de 2023 (original aqui)

 

                          Ilustração de ROB DOBI

Este artigo foi publicado em American Prospect Magazine em 23 Abril de 2023

 

Joe Biden descreveu o seu discurso sobre o Estado da União de 2023 como um “projeto de colarinho azul”. Num momento em que a inflação tem estado acima de qualquer coisa vista nas últimas quatro décadas, o presidente defendeu um maior investimento, alívio de preços e capacitação para o que ele chamou de lugares e pessoas esquecidos. “Muitos de vós que me estão a ouvir esta noite, sei que o sentem”, disse ele a partir do Capitólio. “Muitos de vós sentiram que foram simplesmente esquecidos. No meio da agitação económica das últimas quatro décadas, demasiadas pessoas foram deixadas para trás e tratadas como se fossem invisíveis.”

No meio desta retórica Rooseveltiana, de “homem esquecido”, houve uma coisa que Biden não mencionou: o aumento das taxas de juro. O Presidente ignorou o principal instrumento que os macroeconomistas têm apresentado como necessário para fazer baixar o elevado custo de vida. Nem se referiu à Reserva Federal ou ao seu presidente Jerome Powell.

Em vez disso, falou de aparelhos auditivos. Graças à sua administração, disse, “milhões de americanos podem agora poupar milhares de dólares porque podem finalmente obter um aparelho auditivo sem receita médica”. A mudança para um mercado de venda livre tem como objetivo retirar poder a um cartel de fabricantes que têm mantido os preços artificialmente elevados, fora do alcance desses homens e mulheres esquecidos.

No passado, os economistas de esquerda identificaram problemas de poder e trabalharam para os resolver, em vez de seguirem, de forma míope, os modelos inflexíveis dos manuais.

Biden acrescentou: “Olhem, o capitalismo sem concorrência não é capitalismo. É extorsão. É exploração”.

Há quatro décadas, os economistas que lutam contra a inflação estavam firmemente na crista da onda. Ronald Reagan depositou as suas esperanças no “Morning in America”, depois de um revés nas eleições intercalares de 1982. O que ele realmente queria dizer era que, depois de um par de anos difíceis, ele tinha deitado por terra a espiral de inflação ao deixar Paul Volcker, então presidente da Reserva Federal, aumentar as taxas de juro para níveis nunca vistos, quase 20% em 1980 e 1981.

Num discurso proferido pouco antes das eleições de 1980, o ator de Hollywood pediu aos americanos que pensassem se estavam melhor do que estavam quatro anos antes. A resposta foi não. Nesse mesmo discurso, Reagan saudou outro ator, John Wayne, um “herói americano” que personificava tudo o que havia de bom na ação rápida e arrojada. A subida em flecha das taxas de juro de Volcker, que conduziu a economia a uma recessão, foi o epítome destas táticas de homem duro. John Wayne, Paul Volcker: a mesma diferença. Um deles tinha um curso superior.

O discurso de Biden, após as eleições intercalares, sugere um afastamento desta tirania de 40 anos dos monetaristas e da sua política de sacrifício ritual da classe média. O presidente realçou a domesticação do capitalismo em vez do arrefecimento da economia; os limites ao poder das empresas em vez dos limites à ajuda fiscal; as pessoas em vez dos mercados de obrigações.

A ascensão dos economistas monetaristas foi reforçada pela afirmação de Margaret Thatcher de que “não há alternativa” à sua forma de pensar. Mas a história fornece provas de uma tradição esquecida, tal como as pessoas e os lugares esquecidos no discurso de Biden.

Em vez de confiarem nas taxas de juro para fazerem as suas maravilhas, os economistas de esquerda viram, no passado, as questões da distribuição do rendimento, da política industrial e da concentração das empresas como a chave para resolver aquilo a que, histórica e coloquialmente, se chama o elevado custo de vida. Identificaram problemas de poder e trabalharam para os resolver, em vez de seguirem de forma míope os planos inflexíveis dos manuais. A questão de saber se a administração Biden se voltará a ligar totalmente a este legado irá determinar o rumo da nação.

 

A ascensão dos institucionalistas

Para captar essa linhagem, temos de recuar até ao momento em que os economistas começaram a ocupar-se de questões fundamentais de política social. Antes de se chamarem economistas, chamavam-se a si próprios economistas políticos. Um dos mais emblemáticos foi Richard T. Ely, que fundou a Associação Económica Americana em 1885 e fez da Johns Hopkins e da Universidade de Wisconsin os principais institutos de investigação dedicados à reforma do capitalismo americano.

Ely pensava que as universidades não deviam ser meros parques de recreio para os jovens da elite que socializavam e tecem redes sociais antes de assumirem o seu lugar de direito no governo, nos negócios e no púlpito. Em vez disso, os especialistas deveriam trabalhar com os políticos para suavizar as arestas do capitalismo empresarial. Juntamente com os defensores da “Ideia de Wisconsin”, Ely era a favor de um salário mínimo, da indemnização dos trabalhadores, de planos de pensões e muito mais. Quando apoiou os esforços de sindicalização local dos trabalhadores, os seus críticos tentaram expulsá-lo do campus de Madison. Num momento marcante que veio a definir o significado de “liberdade académica”, manteve o seu posto quando os administradores da universidade se abstiveram de o despedir.

Ely não era marxista. Também ele acreditava no mercado, tal como os economistas institucionais para os quais lançou as bases. Mas em vez dos indivíduos maximizadores de utilidade da economia neoclássica, para ele era a presença de empresas que determinava a distribuição da riqueza de uma nação. E era função dos economistas promover exatamente o tipo de políticas públicas que criariam a base institucional para uma prosperidade amplamente partilhada.

Se a ascensão das empresas significava que os trabalhadores já não podiam estabelecer os termos do seu próprio emprego, o mesmo acontecia com o consumidor moderno. Em vez de espreitar para o barril de bolachas e regatear ou negociar com o comerciante local, um comprador comprava Nabiscos numa caixa pré-embalada ao preço ditado pela National Biscuit Company. Na primeira década e meia do novo século, o custo de vida subiu mais de 20%, antes de disparar ainda mais durante a Primeira Guerra Mundial. “O alto custo de vida”, disse o presidente da Era Progressista, Woodrow Wilson, “é fruto do entendimento privado”.

Em 1917, o reformador urbano Frederic Howe publicou um livro com o título The High Cost of Living. Tal como Louis Brandeis que, antes de se tornar o primeiro juiz judeu do Supremo Tribunal, explicou de forma célebre como as empresas e os financeiros contraíam empréstimos para obterem enormes lucros e explorarem a classe trabalhadora no seu livro Other People’s Money, Howe expôs o que acreditava serem forças nefastas em ação: “O monopólio é responsável pelas condições com que nos confrontamos.” A subida dos preços dos produtos alimentares, o foco do trabalho de Howe, deveu-se ao facto de os especuladores fundiários, os condicionadores de carne, os entrepostos frigoríficos, os armazenistas e os gestores dos caminhos-de-ferro terem exercido uma influência indevida, que o governo tinha a obrigação de denunciar e contrariar. A recém-criada Comissão Federal do Comércio do Presidente Wilson reforçou estas denúncias, revelando que os “Cinco Grandes” empacotadores, responsáveis pela distribuição de dois terços da carne fresca, estabeleciam acordos de associação para repartir o mercado e fixar os preços

O consumidor moderno partilhava instintivamente este ponto de vista. Quando Howe estava a escrever sobre a inflação, um grupo de mulheres que se tinha mudado recentemente para a cidade e que agora dependia mais das compras no mercado do que da carne das suas próprias quintas, formou a Mothers’ Anti-High Price League (Liga das Mães contra os Preços Altos). Escreveram ao Presidente Wilson: “Nós, donas de casa da cidade de Nova Iorque, mães e esposas de trabalhadores, desejamos chamar a sua atenção, Sr. Presidente, para o facto de que, no meio da abundância, nós e as nossas famílias enfrentamos a fome… O nível de vida americano não pode ser mantido.” Em cidades de todo o país, os consumidores saíram à rua em motins alimentares, exigindo carne a preços que pudessem pagar. Howe concordou.

O atento observador da vida americana, Walter Lippmann, observou: “O verdadeiro poder que está a emergir hoje na política democrática é apenas a massa de pessoas que está a gritar contra o ‘elevado custo de vida’… Falar de ‘rendimentos razoáveis’ é iniciar um ataque ao industrialismo que irá muito além da imaginação atual das pessoas que falam sobre isso.”

 

Da moral à economia

O ataque ao corporativismo como causa do elevado custo de vida levou a uma reação da elite industrial. Nada, ou ninguém, parecia prometer revolucionar os padrões de vida tanto quanto Henry Ford. Ford acreditava que era do interesse da empresa pagar mais aos trabalhadores e baixar os preços dos produtos que fabricava, tudo para criar um mercado de massas. O objetivo do “dia de cinco dólares”, introduzido em 1914, numa altura em que a rotatividade dos postos de trabalho era superior a 300%, era estabilizar a mão de obra, enquanto a produção em massa, possibilitada pela linha de montagem móvel, permitiria reduzir drasticamente os custos de produção. Os trabalhadores bem pagos poderiam ter uma casa própria e comprar um Modelo T.

Exceto se não pudessem. William Green, presidente da Federação Americana do Trabalho, disse na década de 1920: “Para manter a prosperidade da América, as massas de trabalhadores devem poder comprar e usar as coisas que produziram”. Outros líderes trabalhistas, como Sidney Hillman e Rose Schneiderman, que organizaram imigrantes não qualificados, incluindo muitas adolescentes ignoradas pela AFL, fizeram eco dessa opinião. Expressando um sentimento semelhante, os economistas de Wall Street, Waddill Catchings e William T. Foster, escreveram no seu livro de 1927 Business Without a Buyer: “A incapacidade da procura do consumidor para acompanhar a produção de bens de consumo é a principal razão pela qual a prosperidade termina em depressão.”

Não se tratava apenas de reivindicações morais sobre a dignidade do trabalho e o direito a um nível de vida americano. Eram reivindicações económicas. Precisamente nessa altura, nos loucos anos 20, o jovem Herbert Hoover afirmava com sucesso, na sua campanha presidencial, que o país estava “mais perto do triunfo final sobre a pobreza do que alguma vez esteve na história de qualquer país”. No entanto, por detrás dos Fords e das mulheres que desafiavam as convenções, havia sinais de problemas. Entre 1914 e 1926, Detroit duplicou a sua produção automóvel, mas a população cresceu apenas 15 por cento. Ao mesmo tempo, as empresas estavam a atribuir mais dividendos da produtividade aos lucros do que aos salários. Os agricultores sofreram uma deflação maciça com a queda dos preços dos produtos de base após a Primeira Guerra Mundial. Então, quem iria comprar todos estes produtos? Como é que o mercado moderno sustentaria exatamente a procura? Catchings e Foster chamaram-lhe “subconsumo”.

Henry Ford criou a “jornada de cinco dólares” para estabilizar a mão de obra, permitindo que os trabalhadores bem pagos pudessem ter uma casa e comprar um Modelo T.

 

Um novo grupo de economistas, em grande parte de simpatias liberais e maioritariamente ligado ao movimento operário, surgiu. Chamemos-lhes “progressistas do poder de compra”. Acreditavam que não se podia confiar nos capitalistas, mesmo os mais bem-intencionados, para tomar decisões fundamentais sobre a distribuição dos ganhos da produtividade entre salários, preços e lucros. Em vez disso, o Estado, o trabalho organizado e uma série de outros grupos organizados – como os agricultores ou os consumidores – tinham de exercer aquilo a que John Kenneth Galbraith chamaria mais tarde “poderes compensatórios”.

Dois economistas em particular servem para ilustrar esta nova forma de pensar. Um deles foi Paul Douglas, que publicou em 1930 um trabalho seminal chamado simplesmente “Salários Reais“. Antes de se tornar um ilustre senador liberal do Illinois, Douglas começou a trabalhar na academia. Em 1927, introduziu o que ficou conhecido como a função de produção Cobb-Douglas para medir as contribuições relativas do trabalho e do capital para a produtividade, uma fórmula que se tornaria um elemento básico da microeconomia.

No entanto, o interesse permanente de Douglas centrava-se naquilo a que chamava os “salários reais” dos trabalhadores. A inflação dos anos de guerra tinha sido particularmente corrosiva para os ganhos de rendimento. Como ele concluiu, “o trabalho americano como um todo, portanto, não pode ser legitimamente acusado de ter lucrado durante a guerra. Pelo contrário, como Alice no País das Maravilhas, foi obrigado a correr mais depressa para se manter no mesmo sítio”. Se os salários deviam sustentar a procura, os trabalhadores precisavam de uma forma de obter uma parte maior dos dividendos da produtividade. Caso contrário, receberiam aquilo a que o magnata dos grandes armazéns e reformador liberal Edward Filene chamou de “falsos salários”.

O outro inovador foi o economista Gardiner Means, que em 1932 escreveu The Modern Corporation and Private Property, juntamente com o jurista Adolf A. Berle Jr. Juntos, estes dois reformadores – ambos filhos de ministros do Congresso – acreditavam ter diagnosticado o problema no coração da economia moderna. Tratava-se de uma concentração demasiado grande do poder das empresas, presidida por uma elite de gestores que não prestava contas.

Antes da Grande Depressão, 200 empresas controlavam mais de metade de toda a riqueza empresarial. Isso significava que, em vez de fixarem os preços “por meio de negociações e de regateios no mercado” (uma referência a Adam Smith), os gerentes dessas grandes empresas, o que Means chamou de “pequeno corpo de funcionários”, recorriam a “preços administrados”. Enquanto a teoria económica clássica teria sugerido que uma queda no mercado teria levado a preços mais baixos, em vez disso, estes gestores empresariais voltaram-se para a escassez, reduzindo salários, cortando a produção e eliminando a concorrência. “A organização industrial moderna (…) destruiu o mercado livre”, disse Means.

A Grande Depressão confirmou a opinião desses progressistas do poder de compra, sobre o facto de que as empresas tinham demasiado poder, como quanto à necessidade de o Estado ter de intervir para assegurar a procura dos consumidores sob a forma de salários mais altos e preços mais baixos. A solução não era acabar com as empresas; não se tratava de anti-monopolistas destruidores de fundos. Em vez disso, procuravam levar a cabo  uma ideia inteiramente nova que se tornaria a base do New Deal: socializar a função de fixação de preços e salários da empresa privada.

 

(continua)

 


A autora: Meg Jacobs [1969 -] é historiadora e investigadora sénior e leciona História e Assuntos Públicos na Universidade de Princeton. É autora de Pocketbook Politics: Economic Citizenship in Twentieth-Century America (2007) e de Panic at the Pump: The Energy Crisis and the Transformation of American Politics in the 1970s (2016). Licenciada pela Universidade de Cornell, é doutorada pela Universidade de Virginia. (para mais info ver wikipedia aqui)

 

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