Estamos em maré de Santos Populares e, como é meu costume ter em casa sempre um pormenor a marcar as datas festivas do ano, lá saíram eles do armário, uma vez mais, todos enfarpelados e contentes. Os mesmos Santo António, S. João e S. Pedro da minha infância. Ficam ali, num cantinho da sala, a olhar para mim enquanto duram as festas. Para cascatas já foi tempo, tempo que nesta idade e disposição há muito se perdeu.
Nos tempos em que os meus filhos eram crianças, e passávamos largos dias na aldeia, eu fazia sempre uma cascata a sério, ao lado do portão, a imitar as cascatas da minha meninice. O meu pai, que nem religioso era, gostava de participar nestas tarefas, e engendrava sempre uma cascata em declive, coberta de musgo e ramalhos verdes de carvalho, com água a correr, lavadeiras no rio, homens a cavar a terra, um moinho, um S. João a “mijar em bica” e “repenica, repenica”, não faltando o Santo António, o S. Pedro e tudo o mais que a imaginação ou os bonecos comprados a um oleiro na feira o permitiam. Toda a gente da aldeia vinha ver a cascata, enquanto as crianças pediam um tostãozinho para o Santo António, com que comprávamos “rabuçados” na loja do Senhor “Ourico”, e que no fim da temporada repartíamos por todos.
Hoje, as festas populares são celebradas com pompa e circunstância. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Lisboa honra o Santo António e o Porto o S. João. As cascatas são mais dos costumes do Porto, que as há espalhadas por toda a cidade, com requintes religiosos e pagãos, e aqueles pormenores artísticos, cómicos e satíricos bem típicos dos tripeiros. Braga é outra das terras apaixonadas pelo brejeiro S. João, e lá se encontra ele, sempre em grande plano, a baptizar Cristo no meio do rio Jordão. Rezam os Evangelhos que o Céu se abriu, que o Espírito Santo desceu em forma de pomba e Cristo se tornou filho de Deus para pregar na terra a sua doutrina. Bom seria que a pomba branca voltasse a descer ao rio Jordão para com ela trazer a paz às suas margens.
De todos os santos, o menos popular parece-me ser o S. Pedro, apesar de celebrado como o santo padroeiro da minha freguesia, S. Pedro de Castelões. Não sei bem a razão, mas suponho que a sua missão é um pouco mais séria, dado que é ele quem manda no sol e na chuva e, sobretudo, quem tem as chaves do Céu. Por isso, à cautela, não deve meter-se em folias, não vá o diabo tecê-las. Pode algum herege apanhá-lo distraído, surripiar-lhe as chaves, enfiar-se à socapa no Céu… e armar por lá alguma revolução. Vade retro!


