PALCO 219 – A CORUNHA – por Roberto Merino

 

Visito a cidade galega de La Coruña,/Corunha passados quase dez anos desde a última vez, a cidade continua com o seu belo enquadramento geográfico, uma longa e extensa baía transformada num passeio marítimo de excelência.

De longe contempla-nos a Torre de Hercules sempre vigilante hoje no presente como antes no passado, uma luz, um farol de alerta naquela terra que associamos à imagem do finisterrae. É o monumento mais emblemático da cidade e data do século II d.C., e também é o farol em funcionamento mais antigo do mundo.

Visitar a bela praça de Maria Pita, bela como grande parte das praças centrais espanholas. Lugar de homenagem a  María Mayor Fernández da Cámara Pita (Sigrás, Cambre, c. 1565 — Cambre, 1643) conhecida popularmente como María Pita, heroína na defesa da Corunha contra o ataque da Armada Inglesa comandado pelo corsário Francis Drake.

Uma visita quase obrigatória ao Aquarium Finisterrae, que cumpria no passado fim de semana 25 anos de vida, e de acordo com informação oficial com 6.546.416 visitantes desde a sua inauguração. O Aquário é um centro público de ciência dedicado à educação sobre o meio ambiental e à divulgação científica de temas marinhos. Mais de trezentas espécies marinhas e quatro salas de exposições, entre elas a Nautilus, submergida numa piscina de mais de cinco milhões de litros de água em que nadam corvinas, douradas e até tubarões.

Uma curiosa exposição, patente nas galerias, uma amostra de peças  artísticas realizadas a partir de resíduos recolhidos do mar. «Lixo exquisito» constitui um referente em arte feito cem por cento com resíduos marinhos e está composta por 14 peças escultóricas e quatro quadros em técnica de collage criados pela associação artístico-ambiental RetoqueRetro de A Corunha. “São peças que, apesar de uma grande  beleza artística, guardam uma mensagem de alerta sobre a contaminação do meio ambiente, e realizadas com materiais que alteram os ecossistemas e constituem importantes danos ecológicos e económicos. Todas os componentes que ajudaram à construção foram retirados  das praias de Galiza

Visitamos rodeados de crianças e pais e mães com os seus filhos num dia de visita gratuita.

A Praça do Humor,  que foi inaugurada em 1994, é outro lugar quase obrigatório de visita. O espaço  celebra a importância do humor na vida quotidiana e reflete o espírito e o carácter dos habitantes da Corunha, conhecidos pelo seu bom sentido de humor.

Esta praça acolhe várias esculturas criadas por diferentes artistas, cada uma com a sua própria interpretação e representação do humor. Entre estas obras encontram-se peças de cartoonistas locais de renome, como Xaquín Marín – o meu companheiro no júri em várias edições do Cartoon Porto/Festival do humor-, Siro López ou Flavio Morais.

Uma escultura notável é “Os Mariñeiros”, do artista Xaquín Marín, que retrata dois marinheiros com expressões exageradas, envolvidos numa conversa intensa que nunca deixa de divertir os transeuntes. Outra peça popular é “A Família”, de Castelão, que mostra uma típica família galega com caricaturas humorísticas que satirizam os papéis tradicionais na sociedade. Não podia faltar o insigne A. Castelão, escritor, dramaturgo, debuxante galego, uma figura incontornável da cultura galega. É tempo para recordar a minha encenação de Os velhos não devem namorar, com o grupo de teatro do Sindicato dos Bancários do Norte, no ano de l987.

De noite uma ida ao Teatro Colon, um edifício de 1945, de construção neoclássica, em muito -no seu interior- parecido com o velho Teatro Rivoli/Porto, antes da sua remodelação

Na noite do dia 8/6/24, La Asociación Cultural Donaire celebrava  a undécima edição do seu festival DÁLLE DONAIRE, no qual homenageavam  as mulheres como transmissoras da  música e do  baile tradicional galego. Mais de uma centena de intérpretes cantaram e dançaram Muñeiras, Xotas, Pasodobres, Mazurcas, Punteadas, Rumbas e Jotas.

No dia 9 a cantora Uxía Senlle (1962), num concerto sob o título de  Santa Liberdade: Un Soño Compartido. Concerto que se anunciava como:  um repertório cheio de sabores e cores, luminoso e mestiço, fruto dos seus quase  40 anos de carreira nos quais renovou a música tradicional conectando com as culturas atlânticas.

Uxía nos seus últimos trabalhos aproxima a música tradicional da Galiza e de Portugal a uma nova leitura da rica obra do Zeca Afonso, um exemplo e um modelo de como combinar as raízes e uma linguagem própria, num compromisso de beleza, lirismo e realidade.

Comemorando os 50 anos da Revolução dos Cravos recupera as canções mais representativas desse movimento civil revolucionário. A intérprete aporta temas próprios sobre poemas de Sophia de Mello Breyner, Luisa Villalta, Manuel María, Uxío Novoneyra e Rosalía de Castro e algum tema inédito dedicado a José Afonso e a sua relação  com a terra galega, assim como o poema que conta a história do transatlântico Santa Liberdade, a aventura romântica que uniu a galegos e portugueses para denunciar as ditaduras de Franco e Salazar.

Finalmente e pela sua aproximação à Galiza , uma notícia e um enorme abraço de felicitação ao José Viale Moutinho, poeta e romancista português, nascido no Funchal (1945),  que  é o vencedor do Grande Prémio de Literatura DST 2024, com a obra de poesia Desaparecimento Progressivo. O júri, este ano constituído pela escritora Lídia Jorge e o professor de literatura da Universidade do Minho Carlos Mendes de Sousa, sustentou a escolha desta obra pela “depuração poética, não idêntica a qualquer cânone”.
O amigo José Viale Moutinho(*), ao qual reitero o meu agradecimento pelo apoio dado ao Curso Superior de Teatro, quando era presidente da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, no ano de 1982, cedendo as instalações na baixa do Porto para que aí funcionasse a primeira Licenciatura em Teatro desta cidade, da antiga Cooperativa de Ensino Árvore Superior, hoje ESAP/Escola Superior Artística do Porto.


Notas:

(*) Foi eleito Académico da Real Academia Galega/RAG e não  tomou posse em solidariedade com José Luis Méndez Ferrín quando este deixou a presidência da RAG. Escritor muito ligado à Galiza pelo seu conhecimento da cultura galega, traduziu Xosé Neira Vilas, Castelão, Valentín Lamas Carvajal, Manuel María e Méndez Ferrín. É autor de “Introdução ao Nacionalismo Galego” e “De foice erguida. Antologia da poesia galega de combate”. (Wikipedia)

1 Comment

  1. Quem passa por A Coruña, não pode deixar de entrar e visitar, com calma, na Casa das Ciências, um museu interactivo magnífico.

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