CARLOS REIS – APELO

Venho por este meio apelar a todas as entidades possíveis – como seja governo, meios de comunicação social, comentadores televisivos de futebol, treinadores e outros intelectuais, alguns amigos meus e do futebol, o seguinte:

1. Que se dignem registar que nós, os que não ligávamos habitualmente nenhuma ao desporto-rei (gosto de lugares incomuns, perdoe-se-me a liberdade) mas que de algum modo, talvez contagiados pelos entusiasmo reinante, que  vem, aliás, do fundo dos tempos da nossa cultura, estamos em vias de nos redimirmos.

Isto quer dizer que passámos a ter respeito pelos resultados dos jogos, ouvindo com outra atenção e acuidade as inteligentes e pedagógicas afirmações a que 19 promissores canais televisivos e 85 esforçados comentadores se dedicam a tempo inteiro.

2. Que façam o favor, quando nos mostrarem aquelas (agora já algo electrizantes) imagens antes do golo, orgasmo final de qualquer jogada perto de um happy end – que façam o favor de nos dizer apenas quem é o clube que “vai ali”, para nossa informação ainda incipiente.

Não insistam, por favor, em dizer que o “Mendy captou a bola de Badara, cujo rematou em força, mas que André Paulo rechaçou o remate para fora”.

Ou que “Ruben Vinagre não conseguiu suster o avanço de Rochinha mas que André Paulo defendeu garbosamente”.

Ficamos na mesma. Sabemos lá quem é quem!

3. É que nós –  iniciados e finalmente recuperados portugueses para esta superior forma de cultura – não percebemos nada, ainda e por enquanto. Sabemos lá nós se o Badara é funcionário do Vitória de Setúbal ou se o Rochinha abraça o Desportivo das Águias!

Se o Ruben Vinagre arrisca a vida pelo Sporting ou sofre pelo Lorosa!

Nada sabemos! “Só sei que nada sei” – como afirmava um antigo guarda-redes de futebol, que Deus guarde.

Somos recém-iniciados, pelo amor de Deus! Não estraguem, portanto, o nosso entusiasmo, fazendo-nos desistir logo de início – com essa precipitação tão fruto de uma vossa entrega e conhecimento indomáveis  – a nossa posterior participação no mundo que se nos abre!

Digam as coisas devagar, sem mencionar de imediato nomes, mas explicando também devagar, com suavidade e cuidado, qual o clube que está quase a meter golo, as cores das camisolas, o padrão das meias, essas coisas…

Mais um ou dois campeonatos e estaremos prontos. Desinibidos e aptos a não passar vergonhas no café, no táxi ou no barbeiro.

Carlos

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