CARTA DE BRAGA – “da vida e dos remorsos” por António Oliveira

 

Agora os corpos vêem-se nos ecrãs, nas ruas ficam só os escombros, familiares e voluntários resguardam-nos, a eles e a nós, grita-se muito a horas e desoras, mas só na internet, e eles continuam lá, debaixo dos escombros.

Há um provérbio japonês –pelo menos li-o algures desta maneira– e que me parece singular e notável, ‘Só as árvores cujas raízes tocaram no inferno, têm ramos que chegam aos céus’, até por poder dar razão a Heródoto que disse, já no século V a.C. a tentar explicar a violência daqueles tempos, que a História é uma indescritível sucessão de vinganças e de ódios, que parece perfeitamente ajustada a muitos das tragédias da nossa época.

E, a um desses os conflitos marcados por tal sucessão, sucedem-se qualificativos como ‘ataques contra civis indefesos’, um outro mais curto, mas muitíssimo mais duro, ‘massacre’, que deixa as raízes de tais árvores à mostra e ‘o inferno na terra’!

Aliás o escritor israelita David Grossman, afirmou no final de Maio, ‘Temos uma democracia onde há liberdade de expressão, de imprensa, e reunião, mas há mais de cinquenta anos que ocupamos um território, e não creio um ocupante a ser verdadeiramente democrático’.

Não muito longe daquele país, a distância ao inferno marca-se de outra maneira – a Amnistia Internacional refere que pelo menos 853 pessoas foram executadas na República Islâmica do Irão, o que representa um aumento em relação às 576 execuções registadas em 2022 e, do total dos executados, pelo menos eram 24 mulheres e cinco eram menores de idade.

Alargando agora o âmbito deste tema de vinganças e de ódios, na Faixa de Gaza, uma em cada dez crianças, corre o risco de inanição grave, uma pequena parte de todos aqueles mais de 180 milhões de crianças, menores de cincos anos, que padecem de pobreza alimentar, a beira da inanição, como conclui um estudo da UNICEF, depois de analisados 100 países.

Por outro lado e analisando agora outro tipo de raízes, hoje, um de cada quatro agricultores europeus, são migrantes vítimas de exploração laboral e abuso de direitos, de acordo com um relatório, publicado pelo Instituto Universitário da Universidade de Oxfam; são quase dois mil e quinhentos milhões, os migrantes que se dedicam à apanha de fruta e legumes na Europa, uma quarta parte da força laboral do sector, embora o estudo não abranja os trabalhadores sazonais, nem os que não têm documentos, que poderá aumentar, e muito, aquele número.

Mas vamos ‘compor’ esta Carta com uma notícia do DN do dia 6 deste mês. Um restaurante algarvio faz um jantar mega exclusivo, só para catorze pessoas, com pratos de autor, inéditos e irrepetíveis, acompanhados por vinhos de uma colecção limitada. O preço também deverá terá as ‘raízes no inferno’, por ser de 1.300 euros a cada ‘vítima voluntária’.

Lembro-me de Joseph Conrad ter escrito um dia, ‘Coisa curiosa é a vida, essa misteriosa disposição desapiedada por um propósito inútil. O mais que podes esperar dela, é algum conhecimento de ti mesmo, que chega demasiado tarde, numa safra de remorsos inextinguíveis’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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