O Pedro, de cujo apelido já não me lembro, era um soldado nativo, da milícia de Bigene. Um dia, em combate, apanhou com um grande estilhaço entre as coxas, mesmo sobre a zona genital.
Trouxeram-mo tão rápido quanto possível. Toda aquela zona parecia um torresmo. Pensei o pior, apesar de ser bom o seu estado geral e não haver sinais de grande hemorragia.
– Pedro, disse eu, aguenta firme.
O Pedro pediu um cigarro e portou-se com aquela coragem que nos negros é ponto de honra.
– Tudo porreiro, dotô. Faz todo preciso.
Com o máximo cuidado possível, fui cortando os pedaços queimados e fui lavando durante mais de uma hora a enorme ferida com várias garrafas de soro até começarem a aparecer os tecidos limpos e identificáveis.
O escroto e a face interna das coxas rebentaram como uma castanha. Os testículos ficaram à vista, pendurados, sem nenhuma lesão significativa, e nem um dos importantes e vitais vasos das pernas foi atingido.
No meio de tão dramática cena, soltou-se-me uma gargalhada de contentamento ao ver que o Pedro estava fora de perigo e com a ferramenta intacta.
– Ó pá, milagre! Tens tomates para o resto da vida.
No meio das dores, o Pedro riu-se.
Com grandes pontos, fechei provisoriamente as feridas, de um lado e de outro, aproveitando as franjas de pele mais ou menos sã, e cobri os testículos com os restos do escroto. Mediquei-o e pedi uma evacuação Y.
Uma ou duas semanas depois, regressou todo sorridente.
No fim da minha comissão, aquando do meu regresso, foi o meu companheiro de viagem na avioneta, de Bigene até Bissau. Na despedida deu-me um apertado abraço, dizendo: