CARTA DE BRAGA – “da educação e seus enigmas” por António Oliveira

A educação neste país, fechou para balanço, está a pedir um ‘reiniciar’, estará na graciosa (Período de férias prolongado que, consoante os casos, podia variar de 90 a 120 dias, com viagens pagas, concedido aos funcionários públicos das províncias ultramarinas portuguesas, a cada quatro ou cinco anos de trabalho, para passarem na terra natal) in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

Isto por ter sido ‘assaltado’ com poucos dias de diferença, por duas notícias que não posso aqui desenvolver muito; a primeira data da de 25 de Julho passado, no ainda prestigiado DN, ‘Ministério da Educação liga a professores a pedir para rescindirem contractos’. Alega falta de vagas nas escolas, para aqueles profissionais que teria de vincular obrigatoriamente, ao abrigo da norma travão, por já terem celebrado três contractos sucessivos.

Acontece o mesmo para outros professores que cumpriram dois anos de contracto, mas que não têm lugar no próximo ano. A ver pela notícia, a melhor maneira é pedir aos professores que renunciem, pois (acrescento eu) assim não haverá culpados e nem pecadores lá em cima e, como sempre, os humilhados e ofendidos estarão, cá em baixo, fora do seu alcance de visão.

Outra notícia, no mesmo jornal, agora data de dia 3 de Agosto, garante ‘Pais obrigados a pagar por manuais que já estavam usados’ Será que as escolas funcionarão como uma delegação informal, mas concorrencial de uma qualquer organização de artigos em 2ª mão? De acordo com esta notícia, ‘Há escolas a exigir pagamento de manuais para dar acesso a vouchers. Sem esse pagamento, os alunos perdem o direito aos livros no próximo ano lectivo’.

Aliás, na plataforma que gere o pedido de vouchers para os manuais, e ainda de acordo com aquele jornal, ‘Cabe às escolas, no âmbito da sua autonomia e da sua experiência, definir se os manuais escolares devolvidos se encontram em condições de serem reutilizados’, mais o palavreado da praxe que ninguém vai ler, citando legislação numerada de Janeiro de 2019. E haverá balcões para tal troca de vouchers pelas ‘obras’ pedidas, mesmo já usadas?

Note-se que os pais só pagam os livros que foram distribuídos aos seus filhos no início de cada ano lectivo, se os alunos os não entregarem no final do mesmo. Não têm de pagar por qualquer livro, novo ou usado, que seja distribuído pela escola. Este sistema, usado há muitos anos por muitos países europeus, com especial destaque para os nórdicos, permite, aos encarregados de educação, a poupança de uns milhares de euros ao longo dos doze anos de escolaridade obrigatória.

Custa-me ler coisas destas como professor que fui, durante umas dezenas de anos, pois de acordo com o professor, poeta e crítico António Carlos Cortez, também no mesmo jornal, mas já de 11 de Maio passado, ‘Até que ponto a defesa de princípios e de valores se equilibra com uma forma de acção que parece diluir, ou mesmo pôr em causa, esses princípios e valores? Quando os princípios e valores cedem constantemente ao imediatismo dos lugares-comuns, para que servem programas políticos? Quando aos programas sucede o calendário das agendas, que planeamento podemos esperar da parte de quem nos governa? 

Talvez seja bom recordar, aqui e agora, umas palavras tiradas da crónica do diplomata e escritor Luís Castro Mendes, também no DN, mas de 23 de Julho, ‘Penso muitas vezes que nós, os velhos, somos uma espécie de embaixadores do tempo passado junto do tempo presente, observamos e analisamos todas as mudanças em que já não participamos, e surpreende-nos o novo, como me surpreenderam, nos meus tempos no activo. Mas há algumas coisas que não mudam e são, por um lado os princípios e os valores e, por outro, os interesses e a ganância’.

E termino com uma afirmação Luís Vidigal, representante da sociedade civil na Rede Nacional de Administração Aberta, também ao DN, mas no dia 20 de Julho, ‘O Estado não pode ser uma soma de empresas de faz de conta’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 

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