Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 5 — Parte B: Melissa – Texto 13: Os comboios da felicidade, uma história de acolhimento numa Itália dividida. Por Francesca Saturnino

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 5 – Da teoria da renda diferencial de Ricardo à violência da renda absoluta de Marx

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

  5 min de leitura

 

Parte B: Melissa – Texto 13. Os comboios da felicidade, uma história de acolhimento numa Itália dividida

 Por Francesca Saturnino

Publicado por  em 28 de Julho de 2022 (original aqui)

 

Uma foto da cena de “Os comboios da felicidade” por Laura Sicignano-Donato Aquaro

 

TRAÇOS. As crianças do Sul que viajam para conhecer o Norte, uma iniciativa das mulheres Udi no pós-guerra. Os testemunhos recolhidos em livros, filmes e um espetáculo de teatro em digressão

Hoje olhamos para as imagens dos comboios da Ucrânia e das barcaças a transbordar no mare nostrum como selos postais desbotados e distantes. No entanto, ainda não há 80 anos, essas histórias de miséria e destruição éramos nós. Depois da guerra, a Itália era um país devastado. Sobretudo o Sul, onde a população infantil se encontrava em condições gravíssimas. De uma ideia de Teresa Noce, dirigente comunista e combatente da resistência, nasceram os “comboios da felicidade”.

Graças à coordenação do Partido Comunista e das mulheres da Udi, 70.000 crianças, raparigas e rapazes, de toda a península foram levados para a “Alta Itália” e salvas da miséria da guerra. Esta história, esquecida durante anos, está a voltar à luz graças ao precioso trabalho de investigação de Giovanni Rinaldi, Alessandro Piva e Simona Cappiello, autores, respetivamente, do livro “C’ero anch’io su quel treno” (Solferino), do documentário “Pasta nera” e do documentário, mais tarde transformado em livro, “Gli oche più azzurri. Le storie vere dei Treni dei bambini” (Colónia). Estas fontes deram também origem a “I treni della felicità”, uma obra teatral escrita por Alessandra Vannucci e dirigida por Laura Sicignano, com Fiammetta Bellone, Federica Carruba Toscano, Egle Doria e música ao vivo de Edmondo Romano, produzida pela Fondazione Luzzati Teatro della Tosse de Génova e pela Associazione Madè. O espetáculo está hoje em cena em Montignosa, Massa Carrara, depois da sua recente estreia em Asti, enquanto aguarda a sua digressão de inverno.

 

Estas crianças não faziam ideia do que as esperava, a Igreja dizia-lhes que acabariam nas mãos dos comunistas, que fariam delas sabão.

Laura Sicignano

 

Tropecei nesta história enquanto pesquisava para Donne in guerra, uma obra de 2008 escrita com Alessandra Vannucci, a mesma autora de I treni della felicità. O período da Segunda Guerra Mundial sempre me interessou”, explica a realizadora Laura Sicignano: genovesa, com um avô napolitano e um avô siciliano, as histórias de desenraizamento estão no seu ADN. Entre os seus muitos espetáculos, encontramos um trabalho sobre a odisseia dos menores requerentes de asilo no Afeganistão e na Nigéria. No futuro, um projeto sobre o maior campo de refugiados do mundo, sobre o qual está a fazer uma investigação.

“A primeira fonte para I treni della felicità foi Cari bambini, vi aspettaiamo con gioia, editado por Angiola Minella, Nadia Spano, Ferdinando Terranova. Um texto difícil de encontrar, escrito por mulheres que contam a sua experiência daquele período: acabei por encontrá-lo na Biblioteca Udi, em Génova. A viagem destas crianças, de apenas 4, 6 anos, foi um pouco iniciática: não faziam ideia do que as esperava, enquanto a terrível propaganda da Igreja lhes dizia que iriam parar às mãos dos comunistas, que fariam delas sabão. É uma história de recalcamentos, na qual as mulheres desempenharam um papel de primeiro plano, juntando-se para um trabalho de solidariedade em conjunto. É também uma história de vergonha – a vergonha de deixar os filhos a outros. É também uma história de virtude, que hoje talvez pareça aborrecida. E é uma história sobre a partida em busca de uma vida melhor: nós que partimos, enquanto outros chegam aqui hoje”.

As crianças que partem. Foto de Gaetano Macchiaroli, cortesia de S. Cappiello

NÁPOLES, Roma, Foggia, Cassino. Em 1947 partem os primeiros comboios: as viagens prosseguiram até 1952. Destino: Emilia Romagna, Liguria, Toscânia, Marche. A organização capilar e bem sucedida foi assegurada por funcionários e dirigentes do partido comunista, especialmente as mulheres que acompanhavam as crianças até ao seu destino. As famílias de acolhimento eram de origem mista, muitas vezes camponeses já com vários filhos a cargo, antigos resistentes, trabalhadores. O período de estadia era de quatro meses mas, como contam os protagonistas, hoje com mais de oitenta anos, muitos chegaram a ficar dois anos. Nos seus testemunhos, recordam esses meses como a melhor época da sua infância. “Não se tratava de esmolas”, sublinha Sicignano, “mas de solidariedade, que é algo que envolve toda a comunidade. As crianças iam ao bar e não lhes cobravam nada, o médico tratava-as de graça.

Todos contribuíam. Uma operação orgânica de reconstrução de um país em escombros materiais e morais. A hospitalidade não era apenas uma cama limpa e uma refeição quente, mas um tratamento entre iguais: sentiam-se acolhidos como crianças. Era importante que estas crianças, que muitas vezes vinham de um contexto de violência e privação, pudessem aprender um modelo diferente, que investíssemos na sua emotividade”.

A peça relata este percurso a partir de diferentes pontos de vista. O encenador explica como as três atrizes, oriundas de diferentes partes de Itália, contribuíram para a escrita, partilhando reflexões sobre temas muito íntimos: o que significa ser mãe, será a maternidade apenas um ato biológico ou político? A  escolha de acolher não é ela própria a  maternidade?

“Uma rede de mulheres organizou esta máquina de paz: entre estas mulheres estão as mães constituintes, mulheres da Udi e do Partido Comunista, como Angela Viviani, Teresa Noce, Maria Maddalena Rossi, Angela Minella, Miriam Mafai. Nomeamos todas estas mulheres. É uma reconstrução sem protagonistas, uma história coral porque é uma história coral. O grupo de mulheres que organizou os comboios da felicidade é o mesmo que tornou possível a nossa emancipação, graças à lei sobre o aborto, o divórcio, o direito da família. Nós somos os netos dessas mulheres”. Há a história de Elvira Suriani, operária e sindicalista, que foi acusada e presa pela polícia de Scelba, durante um protesto contra os salários de fome, juntamente com uma centena de pessoas. O Partido acolheu os seus filhos em Emilia. Anna Berio, de Imperia, cujo filho foi torturado pelos fascistas, acolheu o filho de Maria Maddalena Di Vicino, de Nápoles: as duas trocaram cartas de “arrepiar”.

PAOLA ZENI, uma das protagonistas do livro Gli occhi più azzurri (Os olhos mais azuis) de Simona Cappiello, foi parar às mãos de uma parteira de Emília, solteira e ateia, que, embora autoritária, lhe deu uma liberdade incrível: sozinha, criou a criança durante cerca de dois anos. Muitas, depois de regressarem a casa, trocaram cartas com as suas famílias de acolhimento durante algum tempo. Esta obra é também uma oportunidade para retomar esse fio condutor na atualidade.

Sicignano conta que, na estreia, estavam na plateia dois descendentes de Anna Berio e Maria Maddalena Di Vicino, emocionados e cheios de lágrimas. “Foi muito forte juntá-las, é uma forma de consertar a Itália, hoje tão dividida por especiosos contrastes regionais. Estas histórias pertencem a tantos italianos e italianas, permaneceram na construção da identidade dos indivíduos e do país. Agora têm de ser contadas. Pensou-se que, após a pandemia, o teatro deveria recomeçar das suas próprias cinzas. Um teatro não autorreferencial e complacente que conta histórias emblemáticas de grandes e pequenos heroísmos quotidianos que nos dão coordenadas. Estamos à deriva, sem aterragem: estas são coordenadas muito concretas. Elas salvam-nos”.

 


A autora: Francesca Saturnino [1987], jornalista italiana, professora, crítica de teatro, trabalha no Il Manifesto. Estudou no Instituto Universitário Oriental de Nápoles.

 

Leave a Reply