Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 5 – Da teoria da renda diferencial de Ricardo à violência da renda absoluta de Marx
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
5 min de leitura
Nota de editor:
Com este texto encerramos a parte B do Capítulo 5, dedicada aos acontecimentos ligados à reforma agrária e à extrema pobreza no sul da Itália do pós-guerra, enquanto testemunhos concretos da renda absoluta – um conceito exposto e analisado por Karl Marx -, designadamente o massacre de Melissa (entre outros) e os comboios da felicidade (testemunho comovente de solidariedade).
Aditamento à Nota de editor:
Hoje, ao rever mensagens antigas no meu correio eletrónico, deparei-me com esta mensagem do Júlio Mota, datada de 24 de março passado, mensagem essa que acompanhava o envio do texto que publicamos hoje e os dois textos anteriores que publicámos sobre “os comboios da felicidade”:
“Vivemos tempos amargos. Ao terminar a preparação de um artigo de Claudio Katz, um importante economista argentino, para a série As Democracias Minadas, lembrei-me de uma questão que tinha em aberto: procurava um artigo sobre as crianças sem destino de Itália, num tempo em que a carne humana, fosse ela de mulher, de rapariga ou de rapaz, era mais barata que a carne de borrego, como sublinhou Curzio Malaparte. Sabia que havia um artigo muito bom sobre estas crianças de destino incerto em La Repubblica escrito por Antonella Gaeta em 25 de Março de 2004, onde era referido o comportamento absurdo da Igreja face a estas mesmas crianças. Não o consegui arranjar, tendo chegado a inscrever-me a pagar o jornal citado, mas o meu cartão de pagamento era MBNET e este não foi aceite. Paciência.
Sob este tema e sobre o comportamento da Igreja que lhe esteve associado procurei outras fontes e pretendia sobretudo um jornal mainstream que nos falasse desta triste realidade. E encontrei um belo texto em La Stampa.
A partir daqui reuni três artigos sobre o tema na base de um filme, de um livro e mais recentemente de uma peça de teatro sobre estas crianças. Em vez de Claudio Katz a falar desse monstro que dá pelo nome de Javier Mlilei, aqui vos deixo três curtos mas belos textos, literariamente falando, sobre a enorme dimensão que a fraternidade humana pode alcançar. Não deixem de os ler. Uma lição para todos nós e dá-nos alguma dor ler neles e sobre a solidariedade o seguinte:
“Para compreender como surgiu esta extraordinária rede de solidariedade, é preciso voltar um pouco atrás, é preciso voltar ao tempo em que a ideia de que “fazer política” expressava ainda o resultado de um empenhamento pessoal que era movido pela ideia de bem comum, é preciso voltar a uma forma de política que hoje já não existe.”
Estes textos comoveram-me muito até porque também eles me levaram a recuar no tempo, ao tempo em que a fraternidade fazia parte do pão nosso de cada dia; fizeram-me lembrar o que significou para mim, eu que passeava nas ruas da miséria de Lisboa o livro dos fiados aos meus clientes, no final dos nanos 50, com 16 a 17 anos, a expressão de uma minha cliente: quando não gostar da comida do seu patrão toque à campainha, mas entre pela porta da frente [não pela escada de serviço] . Ainda hoje me lembro daquela cozinha, onde uma ou outra vez terei comido e onde várias vezes bebi café. Tratado como um igual entre iguais! Como se escreve no Il Manifesto:
“A hospitalidade não era apenas uma cama limpa e uma refeição quente, mas um tratamento entre iguais: sentiam-se acolhidos como crianças. Era importante que estas crianças, que muitas vezes vinham de um contexto de violência e privação, pudessem aprender um modelo diferente, que investíssemos na sua emotividade”.
Só mais tarde terei percebido significado de tudo isto e tanto assim que, enquanto o meu pai foi vivo e já comigo operário ou depois estudante universitário, todos os anos lhe levava uma lembrança, um par de perdizes caçadas na véspera!.
Compreenda-se, é pois natural que estes textos sobre as crianças italianas que se poderiam ver como crianças sem futuro me digam emocionalmente muito, mas mais ainda quando são lidos num tempo, o de agora, em que se sente a fraternidade no plano geral como uma realidade de outros tempos e a política como a negação do que era nessa altura: a afirmação de que estar na política é estar a servir o bem comum e não a servir-se dele, como se faz hoje.”
No dia seguinte, em resposta a um amigo, diz Júlio Mota:
Cheguei a este tema tão concreto, tão dramático, a partir do livro de Sraffa, produção de Mercadorias, a obra mais relevante e mais abstrata que na minha opinião foi publicada na segunda metade do século XX. Foi a releitura desta obra, já se si muito abstrata, e da sua segunda parte, sobre a produção conjunta, a parte mais difícil, que me forçou a estudar a renda absoluta, um conceito que Ricardo não tratou, que Marx terá tratado mas muito mal, a parte mais fraca da sua obra, e em que Sraffa não se terá desenrascado muito melhor a menos que o conceito de raridade da terra signifique em Sraffa não uma escassez em termos físicos da terra mas sim uma escassez em termos jurídicos, em termos de disponibilidae jurídica da terra, o direito de propriedade. É por aqui que se chega à renda absoluta. Nesta ótica colocamos assim, lado a lado, Adam Smith, Marx e Sraffa, excluindo neste tipo de renda David Ricardo. Mas quem se interessa hoje por isto?
E quando se chega ao direito de propriedade, chega-se ao direito de tudo, porque tudo passa a ser válido, mesmo a serem as autoridades a matar pelas costas aqueles que querem trabalhar essas terras contra os que depois de as terem usurpado ao domínio público reclamam depois que são suas e que são eles que decidem se são ou não são trabalháveis. Ora uma parte dos comboios da felicidade trata dos filhos dos camponeses que foram baleados, mortos ou presos, em Itália, em plena democracia, com um governo de unidade nacional e com Togliatti também no poder, às ordens do ministro do interior, Scelba. Mortes que antecedem de 5 anos a morte de Catarina Eufémia em Baleizão, o mesmo é dizer que a Itália, também ela, tem a sua catarina Eufémia (várias, talvez). “
FT, 14/08/2024
Parte B: Melissa – Texto 14. Os comboios da felicidade
Publicado por
em 15 de Dezembro de 2016 (original aqui)
Esta é uma história pouco conhecida, uma história pequena, mas que conta o grande desejo da Itália – provocado pela guerra – de sobreviver à miséria. O símbolo e a banda sonora desta história são os comboios em movimento, com o seu ruído metálico, os comboios “especiais”. Os mesmos comboios que tinham levado os soldados para a frente e os judeus para os campos de concentração, entre 1945 e 1947 transportaram cerca de 70.000 crianças do sul para o norte do país no confinamento das suas carruagens, retiraram-nas dos escombros dos bombardeamentos e depositaram-nas nas plataformas das estações da Emília-Romagna, da Ligúria e da Toscânia. Quando chegaram, essas crianças não encontraram, como se dizia na altura, comunistas a comer crianças, mas cerca de 70.000 famílias comunistas e não comunistas, dispostas a acolhê-las, a cuidar delas, a vesti-las e a mandá-las para a escola, a salvá-las da fome, do frio e da miséria durante alguns meses ou alguns anos, e depois a mandá-las de volta para casa, saudáveis, a troco de nada.
A libertação da Itália durou muito tempo (começou na Sicília em julho de 43 e terminou em abril de 45) e deixou um impasse económico, um rasto de destruição que marcou toda a população e, em particular, os estratos mais fracos. As crianças, como em todas as tragédias, como inocentes, foram as que mais sofreram. Quem leu “A Pele“, de Curzio Malaparte, sabe que, naqueles anos, a carne italiana era barata em Nápoles: quatro dólares por uma rapariga, três por uma menina, dois por um menino, cinco dólares e meio por quilo de borrego no mercado negro. Nascidas sob os bombardeamentos, reduzidas à vagabundagem, criadas no flagelo da prostituição e do mercado negro, sem comida, muitas vezes sem teto, essas crianças representavam um futuro já comprometido e constituíam uma emergência nacional.
Se os símbolos desta história são os comboios, os protagonistas são as crianças, a mão que a escreveu foi uma mão feminina. Foram as mulheres que acreditaram nesta aventura: um grupo de ativistas da UDI, Unione Donne Italiane (União das Mulheres Italianas), pediu às famílias de agricultores do Norte para acolherem as crianças mais pobres do Sul, apelando à atitude histórica de hospitalidade típica das famílias do campo, aquelas que têm muitos filhos e que se resume num ditado da Emília: in do’s magna in sé, as magna anch’in sètt (onde comem seis, também comem sete).
Assim, foram as mulheres que puseram em marcha esses comboios especiais, que carregaram as crianças, que as atribuíram a novas famílias, que puseram em marcha uma complexa máquina organizativa nacional que envolveu outras mulheres e as ligou para sempre: por um lado, as mães naturais, obrigadas pela fome a entregar os seus filhos ao destino, por outro, as mães adotivas, voluntárias e fiadoras, que se fizeram rosto, mão e coração desse mesmo destino.
O primeiro comboio partiu de Roma, da estação Termini, em 19 de janeiro de 1946. Levava 1200 crianças, sabe-se lá com que caras nas janelas! Pequenos, dos 4 aos 9 anos, com os seus nomes cosidos nas roupas para um dia regressarem a casa, vinham dos bairros mais pobres da capital, mas também de Latina, Terracina, Formia, Gaeta, Sperlonga. Muitos outros comboios se seguiram do centro e do sul, sobretudo de Nápoles. Vagões e vagões que embalavam nos carris uma infância raquítica, carente de vitamina C, subnutrida, provada por doenças reumáticas e respiratórias, com os olhos arruinados pelo tracoma devido às más condições de higiene. Chamaram-lhes os Comboios da Felicidade: comboios que roubavam crianças da pobreza e as transferiam para um mundo novo que nunca tinham visto.
“Quando chegámos a Modena, eu estava a dormir e fui acordado pelos gritos de espanto das outras crianças. Olha para este leite todo! Não, é açúcar! É requeijão!” Crianças que nunca tinham visto neve, que nunca tinham comido três vezes por dia, nem dormido numa cama com lençóis, vestidas com roupas limpas, entram em novas casas onde a vida não é rica (a guerra não poupou ninguém), mas digna. Recuperam as forças, comem, vão à escola. Depois regressaram a casa.
Desses laços afetivos destinados a diluirem-se, daquele esforço económico de tantas famílias, daquela sutura entre o Norte e o Sul costurada pelos comboios, de toda essa história quase não se falou mais. A ajuda às crianças movida pelas mulheres, guardada nos corações das famílias, talvez tenha permanecido deliberadamente na intimidade das casas, ou talvez a tenhamos esquecido porque queríamos esquecer em bloco toda a miséria daqueles anos. O que devemos lembrar em vez disso?
Primeiro as mulheres e crianças daquela época, o seu desejo de viver: as suas mãos, as suas saudações de cumprimento, os seus narizes a descansarem sobre os vidros, os seus olhos em diferentes paisagens numa jornada pela miséria e nobreza, o seu amor materno capaz de sacrifícios incríveis, o seu pão caseiro para partir e repartir, a solidariedade dos humildes que trabalham em silêncio, a capacidade de criar um filho que não é seu.
E depois os comboios. Nas suas idas e vindas para cima e para baixo da península, os comboios da felicidade pela primeira vez levaram as mulheres nas trilhas da vida política. A outra metade do céu mostrou que sabia administrar a emergência, que sabia lidar com questões puramente femininas, mas não menos importantes do que outras: infância e escola. Elas foram os protagonistas da reativação de um sistema escolar que havia desaparecido na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.




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