“Uma grande carruagem cerimonial de quatro rodas, com elementos de ferro, decorações de bronze e estanho, restos de madeira mineralizada e vestígios de elementos orgânicos, como cordas, foi encontrada quase intacta na área arqueológica de Pompeia (sul da Itália)”.
“Pompeia continua a surpreender com as suas descobertas e continuará a fazê-lo por muitos anos, com vinte hectares ainda por escavar. Mas acima de tudo mostra que é possível promovê-la, é possível atrair turistas de todo o mundo e ao mesmo tempo é possível realizar pesquisas e estudos”, afirmou o ministro da Cultura, Dario Franceschini.
Pompeia. Descoberta grande carruagem cerimonial enterrada pela erupção do Vesúvio – Expresso
Todo o processo de recuperação deste magnífico material pelos arqueólogos está registado no documentário Pompeia – O Segredo da Cidade Civita Giuliana, que recentemente foi passado na RTP2.
Não apenas objetos de uso diário, que ajudam a compreender como era a vida quotidiana dos seus habitantes, mas também as relações entre as diferentes classes sociais, senhores e escravos. Também o achado do esqueleto de um cavalo, que explica como e em que lugar os animais estavam guardados e descansavam, nesta aldeia suburbana de Civita Giuliana, ao norte de Pompeia, para além das muralhas da cidade antiga.
A cidade de Pompeia, que nunca tive oportunidade de visitar, é um mundo fabuloso sempre em descoberta. Pompeia era uma cidade altamente desenvolvida, habitada por ricos mercadores e comerciantes, e destacam-se nas descobertas as mansões (Domus romanas) e uma grande quantidade de monumentos. Os cerca de 15.000/20.000 habitantes precisavam de tudo aquilo que podemos imaginar numa grande cidade. A presença de um teatro e de um anfiteatro também indicam que Pompeia era uma cidade rica em atividades lúdicas, que precisava de espaços dedicados ao entretenimento dos seus moradores. Havia também muitas termas. Além disso, o centro da vida da cidade era o Fórum, onde acontecia grande parte da vida política, religiosa e comercial. Durante as escavações, os arqueólogos descobriram 25 bordeis espalhados por toda a cidade. De fato, existem numerosos afrescos/pinturas murais eróticos preservados dentro dos bordéis, que exibem os serviços em um menu ilustrativo. O maior e mais preservado bordel encontrado é o Lupanare. O nome de ‘Lupa/loba, seria na gíria sinónimo de prostituta(?) Por outro lado, não podemos esquecer as referências mitológicas à Loba na tradição romana, a Loba fundadora da cidade Roma, aquela que amamentou Rómulo e Remos, os seus fundadores!
O início da catástrofe foi uma forte explosão do vulcão Vesúvio, que atingiu a cidade com uma chuva de lapilli (pedras incandescentes emitidas pelo vulcão), e durou até o dia seguinte. Os cidadãos que permaneceram vivos tentaram abrigar-se nas casas ou refugiaram-se junto do mar, esperando escapar. Às 7h30 da manhã, uma nova descarga violenta de gás tóxico e cinzas devastou a cidade infiltrando-se em todos os lugares, queimando todos aqueles que não haviam conseguido escapar. Estima-se que 2.000 cidadãos de um total de 15.000 morreram na cidade devido à erupção. A cidade ficou soterrada por mais de 1500 anos.
Os Corpos expostos
Quem visita Pompeia pode ver expostos em vitrinas réplicas dos corpos dos cidadãos que foram soterrados pela lava e pelas cinzas, e ficaram como que petrificados no momento da morte. O calor acabou por destruir os corpos e a lava que os soterrou criou autênticas formas/moldes (cavidades) que permitiram reproduzir essas formas através do gesso. Foi o arqueólogo Giuseppe Fiorelli, em 1860, quem se encarregou das escavações de Pompeia. Durante as primeiras pesquisas arqueológicas, foram notados estes espaços vazios que continham restos humanos. Assim, em Pompeia, os mortos contam a história dos vivos. “Em nenhum outro lugar do mundo antigo apareceram tantos corpos de pessoas congeladas no tempo, preservados ao longo dos séculos no preciso momento do seu falecimento”.
No seu filme Viagem à Itália (1954), Roberto Rossellini evoca de uma forma documental (tão próxima das suas últimas realizações) a impressão que produz hoje o encontro com esses corpos, que falam do seu passado e do nosso presente. Um casal em crise interpretado pelos actores George Sanders e Ingrid Bergman (esposa de Rossellini) contempla o processo de esvaziamento de um daqueles gessos, em que aparecem uma mulher e um homem, que morreram juntos. A descoberta os faz refletir sobre suas próprias vidas.
E as Sombras dos Corpos em Hiroshima
Aurora de 6 de agosto de 1945. A primeira bomba atómica da história desatou a sua fúria sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Entre as muitas histórias que surgiram naquele dia, destaca-se a de um homem diante do banco Sumitomo, de bengala na mão, que em um instante deixou uma sombra perpétua nos degraus, testemunho mudo das vidas ceifadas por esse evento catastrófico. De acordo com Michael Hartshorne, professor emérito de radiologia e curador emérito do Museu Nacional de Ciência e História Nuclear, nos EUA, conforme citado pela Live Science, a luz e o calor intensos da bomba criaram um cenário em que as pessoas e os objetos agiam como escudos, protegendo o que estava atrás deles. Esse fenómeno resultou no branqueamento das superfícies ao redor, deixando as “sombras” contrastantes que conhecemos hoje. Como a bomba de Hiroshima deixou marcadas sombras das vítimas – DW – 25/03/2024
Se pensarmos em termos fotográficos, a luz forte funcionou como um agente que imprimiu no chão, nas escadas, imagens/sombras reais no momento da explosão atômica.
“Eu aprendi uma nova palavra hoje: bomba atómica. Era como uma luz branca no céu, parecida com Deus tirando uma fotografia.” A frase marca a perda da inocência do jovem protagonista do filme, O Império do Sol (*) de Steven Spielberg, e marca também a perda da inocência da humanidade na destruição mais maciça que significou o lançamento das bombas em Hiroshima e Nagazaki.(*)
Corpos, imagens, sombras, nomes que poderiam integrar uma lista enorme de seres humanos que, destruídos pela natureza ou pela fúria humana marcaram momentos da nossa história. Foram aproximadamente 34.000 as pessoas, entre judeus e outros perseguidos pelos regimes fascistas/nazistas europeus que Aristides Sousa Mendes, salvou com a emissão de vistos. Depois de uma série televisiva, de um filme e de uma peça de teatro, A Desobediência, de Luiz Francisco Rebello, de 2007, finalmente a inauguração do Museu que honra e perpetua a memória do ilustre Cônsul de Bordéus.
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Notas: (*) Império do Sol, é a adaptação cinematográfica da obra parcialmente autobiográfica de J. G. Ballard. Uma criança britânica, nascida numa família rica, acaba tendo de sobreviver sozinha no meio de uma guerra, separada dos seus pais, após os japoneses invadirem a China. Das ruas de Xangai aos campos de concentração japoneses, Império do Sol trata-se, de certa forma, de um coming-of-age; o crescimento de Jamie Graham, baseado nas extraordinárias experiências vividas por Ballard. Filme realizado por Spielberg em 1987.- Gabriel Carvalho – Crítica | Império do Sol – Plano Crítico (planocritico.com)

