Nota prévia
Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje o décimo texto da série de textos sobre a Alemanha.
JM
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
7 min de leitura
Alemanha – Texto 10. Fabio de Masi: “A Alemanha está agora a sentir o gosto das políticas que infligiu ao Sul da Europa”
Entrevista de Fabio de Masi feita por Jérôme Chakryan Bachelier
Publicado por
em 8 de Abril de 2024 (original aqui)

Fraturada, a esquerda alemã parte desunida para as eleições europeias. De um lado, o Die Linke (“a esquerda”), o partido que encarnou a oposição à política de austeridade de Angela Merkel. Do outro, a Bündnis Sahra Wagenknecht (Aliança Sahra Wagenknecht, BSW), estruturada em torno da carismática dissidente do Die Linke. Ela critica o partido de esquerda por ter abandonado um discurso de classe em favor de uma retórica centrada nos “valores” e por ter abandonado os trabalhadores em favor da classe média. As suas críticas à imigração deram origem a numerosas polémicas, mesmo no seio da esquerda europeia. Encontramo-nos com Fabio de Masi, cabeça de lista do BSW para as eleições europeias. Especialista em questões financeiras e um dos primeiros críticos da moeda única, é uma das principais figuras de oposição à viragem austeritária da União Europeia nos anos 2010.
LVSL – Depois de importantes divergências no seio do Die Linke, Sahra Wagenknecht, a figura mais mediática do partido, abandonou o partido. Ela lançou o Bundnis Sahra Wagenknecht (BSW, Aliança Sahra Wagenknecht), movimento ao qual você pertence. Pode explicar-nos as razões desta cisão e as principais diferenças ideológicas entre o Die Linke e o BSW?
Fabio De Masi (FdM) – Há duas razões principais. A primeira é a viragem do Die Linke para aquilo a que Thomas Piketty chama a “esquerda brâmane“, centrada em questões de identidade. Isto não significa que o Die Linke tenha abandonado a sua retórica de redistribuição social, mas perdeu a sua posição no mundo do trabalho. Os seus representantes eleitos, por exemplo, votaram a favor de um rendimento básico incondicional. Será que não sabem que pagar um rendimento de subsistência a toda a gente – mesmo aos ricos – reduz os recursos disponíveis para aqueles que realmente precisam do apoio do Estado? Que esta perspetiva negligencia completamente a participação social possibilitada pelo trabalho? O controlo da economia – incluindo as decisões de investimento – só pode ser democratizado através das lutas no local de trabalho.
Esta atitude, combinada com a retórica irrealista do Die Linke sobre a abertura das fronteiras durante a crise dos refugiados, levou ao desencanto no seio da nossa base eleitoral, nos círculos eleitorais da classe trabalhadora e nas zonas rurais. A sua posição contribuiu para a ascensão da AfD [Alternative für Deutschland, o principal partido de extrema-direita da Alemanha, que tem uma relação bastante ambígua com o passado nazi do país, ndr]. Quando ainda era membro do Die Linke no Parlamento alemão, tive de impedir que este partido tomasse posição a favor do imposto sobre o carbono, a medida que levou à explosão dos Coletes Amarelos em França! No entanto, não é difícil compreender que o imposto sobre o consumo de combustível é um instrumento liberal de eficácia ambiental duvidosa, enquanto, ao mesmo tempo, o sistema ferroviário alemão sofre de um subinvestimento crónico há muitos anos.
“Perante o grande choque económico que estamos a viver, a coligação alemã anunciou despesas em armamento no valor de 100 mil milhões de euros, combinado com cortes nas despesas públicas e nos impostos sobre o carbono”.
A segunda linha divisória é a atitude a adotar em relação ao movimento pacifista. Sahra Wagenknecht organizou uma grande manifestação a favor da paz e de uma solução diplomática para a guerra na Ucrânia. O Die Linke tentou desacreditá-la e afirmou que a manifestação tinha sido iniciada pela direita. Não somos ingénuos em relação a Vladimir Putin. Eu próprio fui alvo de um presumível espião russo, “Egisto O.”, que trabalhava com Jan Marsalek, um antigo diretor da empresa de transações Wirecard, atualmente em fuga. Em várias ocasiões, denunciei as redes oligárquicas russas na Alemanha.
No entanto, pensamos que a guerra na Ucrânia é o produto de uma história complexa, ligada ao alargamento da NATO a Leste. Tem de haver garantias de segurança para a Ucrânia, tal como tem de haver um amortecedor de segurança para a Rússia, e, a longo prazo, serão sacrificadas demasiadas vidas ucranianas – no pressuposto de que a Rússia pode mobilizar mais soldados. Também não concordamos com as sanções, que prejudicaram a economia alemã, intensiva em energia, e a tornaram mais dependente do gás natural liquefeito (GNL) americano, altamente poluente. Tudo isto sem impedir a Rússia de intensificar as suas atividades. O nosso ponto de vista é apoiado por um estudo recente do economista keynesiano James Galbraith.
LVSL – A situação social na Alemanha deteriorou-se significativamente nos últimos anos devido à inflação e às políticas de austeridade. Em novembro passado, o Tribunal Constitucional alemão decidiu que a mobilização dos restantes 60 mil milhões de euros do fundo COVID para políticas ecológicas era ilegal. Como analisa esta obsessão pela disciplina orçamental e como é que o público alemão a encara?
FdM – Nos últimos anos, tenho sido um dos principais críticos da regra do travão da dívida na Alemanha. Propus alterações importantes. Mas a decisão do Tribunal é mais complexa. Se consagrarmos o travão da dívida na Constituição, não devemos ficar surpreendidos com esta decisão. Mesmo os principais políticos do partido Os Verdes em 2017 ainda queriam reforçar o travão da dívida – que restringe o crédito ao investimento. Para contornar este travão (por exemplo, para despesas militares), o Governo lançou orçamentos paralelos, os chamados orçamentos “especiais”, que não são controlados pelo Parlamento.
Durante a crise do coronavírus, foi ativada uma isenção ao travão da dívida, que se aplica em condições especiais – como um grande choque económico. O Governo podia simplesmente tê-la alargado com a crise energética e a guerra na Ucrânia, mas em vez disso tentou utilizar fundos de um orçamento-sombra anterior. Por que razão deveria o Tribunal Constitucional ajudar a estupidez económica do Governo?
LVSL – As sondagens para as eleições europeias mostram que os eleitores estão desencantados com o governo de coligação, composto pelo SPD (sociais-democratas), os Grünen (verdes) e o FDP (liberais). Quais são, na sua opinião, as razões desta impopularidade?
FdM – O facto de este governo ser provavelmente o mais impopular da história do pós-guerra não é surpreendente. É preciso ter em conta que, face a um grande choque económico, anunciou 100 mil milhões de euros de despesas com armamento, combinados com cortes na despesa pública em infra-estruturas, uma política energética caótica e impostos sobre o carbono. Um estudo com a participação de banqueiros centrais suecos, publicado sob o título “The Political Costs of Austerity“, mostra com grande clareza que estas políticas favorecem a extrema-direita. Acrescente-se que, para além da guerra na Ucrânia, existe uma grande preocupação quanto à capacidade dos nossos municípios para gerirem a migração de forma ordenada, ao mesmo tempo que nos faltam habitações e capacidades educativas…
LVSL – O partido de extrema-direita AfD está a liderar praticamente todas as sondagens na antiga Alemanha de Leste. Como explica este sucesso e como pode ser travado?
FdM – O Leste está particularmente exposto às consequências da guerra. Muitas pessoas encaram o ataque criminoso da Rússia – que é, sem dúvida, uma clara violação do direito internacional – de uma forma mais matizada do que no Ocidente. A ascensão da AfD também tem a ver com uma clivagem urbano-rural: muitas pessoas encaram as mudanças na sociedade alemã – a transformação digital, a resposta à crise do coronavírus ou a imigração – como uma ameaça à sua sociabilidade e modo de vida tradicionais.
LVSL – Sahra Wagenknecht tem sido descrita como representante de uma esquerda “anti-imigração” por alguns meios de comunicação social e criticada por alguns membros da esquerda europeia pela sua oposição à livre circulação de imigrantes. Que análise faz desta cobertura mediática e como descreve a posição do seu partido relativamente à questão da imigração?
FdM – Tradicionalmente, a “livre circulação de imigrantes” nunca foi uma posição de esquerda. Bernie Sanders sempre se opôs à abertura das fronteiras, por exemplo. Nenhuma destas pessoas é “livre”.
“Desde o início, fui um dos principais opositores à arquitetura do euro e um dos que iniciaram o “Plano B”, juntamente com Jean-Luc Mélenchon e outros na Europa.”
Uma grande parte dos “progressistas” alemães consentem com o que se passa atualmente em Gaza. A situação deu origem a dois milhões de refugiados. Serão eles livres? Claro que não. Preferiam viver no seu próprio país. Se todos os habitantes de Gaza fossem para a Alemanha, isso não resolveria a sua situação de pobreza e conduziria a mais tensão na sociedade alemã. Somos inequivocamente a favor da concessão do direito de asilo às vítimas de perseguição política, bem como aos refugiados de guerra (não apenas na Alemanha, mas em toda a Europa, porque a Alemanha não tem capacidade para fornecer habitação e escolas suficientes para todos).
No entanto, temos de ter em conta que os mais pobres dos pobres nem sequer chegam à Europa, porque nem sequer têm meios para atravessar o Mediterrâneo, e que quase metade dos requerentes de asilo são, na realidade, imigrantes económicos, embora oriundos de países que outrora estiveram em guerra. Isto é perfeitamente compreensível. No entanto, no sistema alemão, quem não tem passaporte ou não tem um acordo de repatriamento com o seu país de origem é tolerado sem perspetivas claras a longo prazo. Isto leva a que muitas pessoas tentem entrar na Alemanha, mas sem quaisquer perspectivas reais de vida.
Queremos uma mudança no sistema, para permitir que as pessoas peçam asilo em países terceiros (mesmo as que não têm meios financeiros) e para limitar a imigração económica legal no mercado de trabalho. Não podemos resolver a desigualdade global através da imigração. Em vez disso, queremos que a Alemanha invista na recuperação económica e levante as sanções contra países como a Síria, em vez de canalizar esses fundos para pessoas condenadas a uma vida sem futuro nas zonas mais pobres das nossas cidades.
LVSL – A União Europeia é repetidamente criticada pela esquerda francesa devido à sua estrutura institucional, que alegadamente favorece a Alemanha em detrimento dos países do Sul. Alguns sublinham que uma zona de comércio livre com uma moeda única impede os países do Sul de protegerem as suas economias dos excedentes comerciais alemães. Qual é a sua análise desta questão? Considera que existe uma fratura Norte/Sul na Europa e, em caso afirmativo, como pode um partido de esquerda alemão ultrapassá-la?
FdM – Sem dúvida. Fui, desde o início, um dos principais opositores à arquitetura do euro e um dos iniciadores do “Plano B”, juntamente com Jean-Luc Mélenchon e outros na Europa. Pessoalmente, levei o Banco Central Europeu (BCE) a tribunal com Yanis Varoufakis pela sua decisão de privar a Grécia de liquidez, quando esta se recusou a subscrever o plano de austeridade da “Troika” [BCE, FMI e Comissão Europeia. Estas três instituições impuseram uma série de planos de austeridade aos governos gregos durante a década de 2010. Em 2015, a Grécia teve de se opor brevemente a eles, antes de ceder ao BCE, ndr]. Apresentei uma série de propostas alternativas: financiamento do investimento público pelo banco central, reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento, etc. A Alemanha precisa de estimular a procura interna, aumentando o investimento público e os salários reais.
A Alemanha vive atualmente uma tripla crise. Devido à guerra económica com a Rússia, estamos a perder mercados de exportação – numa espécie de variante da “estratégia de choque”. Ao mesmo tempo, o Governo está a suprimir a procura interna. Por fim, a falta de investimento público está a levar a Alemanha a vender a sua capacidade industrial futura. Estamos a saborear as políticas que os nossos governos infligiram aos países do Sul da Europa no início da década de 2010.
LVSL – Agora que a guerra regressou ao continente europeu, os governos europeus adotaram uma abordagem de confronto em relação à Rússia e recusam-se a considerar a via da negociação. Que diplomacia alternativa propõe?
FdM – Como já expliquei, precisamos de um cessar-fogo – que, no entanto, se tornou mais irrealista com o avanço da Rússia – e de garantias de segurança que envolvam a China, a Alemanha e a França para a Ucrânia, bem como de um tampão de segurança em direção à NATO para a Rússia.
LVSL – O governo alemão apoia incondicionalmente Israel – uma posição parcialmente justificada por considerações históricas relacionadas com a responsabilidade central da Alemanha na Shoah. Qual é a sua posição sobre a questão palestiniana?
FdM – Opus-me à resposta de Netanyahu – a mais extrema possível – aos atentados de 7 de outubro. Fui um dos poucos a fazê-lo. Temos de ter em conta que Netanyahu apoiou deliberadamente os fundamentalistas do Hamas durante muitos anos, a fim de impedir uma solução de dois Estados.
Netanyahu está a instrumentalizar o horror de 7 de outubro e a situação das vítimas para alargar as fronteiras de Israel. Morreram 30.000 palestinianos, sobretudo crianças e mulheres. Precisamos de um embargo de armas contra este governo.
LVSL – Apesar da popularidade de Sahra Wagenknecht, o BSW continua a ser um novato na cena política alemã. Quais são os próximos passos do partido após as eleições europeias?
FdM – Temos de nos consolidar. As eleições mais importantes para nós não são as europeias, mas sim as eleições nos Estados de Leste, que se realizam este ano. Espero resultados positivos, mas modestos, nas eleições europeias, porque não são propícias à mobilização, já para não falar do facto de não termos o pessoal e os recursos que os outros partidos têm. Mas estou convencido de que vamos obter um resultado positivo que nos colocará firmemente no mapa político alemão.

