Nota prévia:
Pensava ter-me já despedido na ida para férias quando um antigo aluno e meu amigo pessoal desde então, e já lá vão décadas, possivelmente como reação ao meu texto de despedida envia-me um texto com a seguinte informação no corpo do email:
“Sobre as tuas queixas sobre o ensino da economia e sobre a prova de que o mal é geral, [aqui] vai um texto muito interessante”.
Um texto que serve de confirmação-ratificação ao que disse sobre o ensino no texto de despedida para férias.
Aqui vos deixo esse texto, com uma nota de pé-de-página minha sobre um dos capítulos da série dedicada ao Joaquim Feio.
JM
Coimbra, 25 de Julho de 2024
Seleção e tradução por Júlio Marques Mota
3 min de leitura
O ensino da economia – capturado por uma pequena e perigosa seita
Publicado por
em 22 de julho de 2024 (original aqui)

A falácia da composição consiste basicamente na falsa crença de que o todo nada mais é do que a soma das suas partes. Na sociedade e na economia, este não é, sem dúvida, o caso. Uma análise adequada da sociedade e da economia a fortiori não pode prosseguir apenas somando os atos e as decisões dos indivíduos. O todo é mais do que uma soma de partes.
Este facto manifesta–se quando a teoria económica dita ortodoxa/mainstream/neoclássica tenta defender a existência da lei da procura – quando o preço de uma mercadoria cai, a procura por ela aumenta – em termos agregados. Embora se possa dizer que se consegue estabelecer a lei para indivíduos considerados isoladamente, logo se descobriu — no teorema de Sonnenschein-Mantel-Debreu firmemente estabelecido já em 1976 — que não era possível estender a lei da procura para ser aplicada ao nível do mercado, a menos que se fizessem hipóteses ridiculamente irrealistas, tais como terem todos os indivíduos preferências homotéticas – o que na verdade implica que todos os indivíduos têm preferências idênticas.
Isso só poderia ser concebível se todos os agentes forem idênticos (isto é, há, em essência, apenas um ator) — o famigerado ator representativo [de Marshall]. Então, sim, seria possível generalizar a lei da procura — desde que assumíssemos que, no nível agregado, havia apenas uma só mercadoria e um só agente. Que generalização! Isto parece razoável? Claro que não. Isso é pura e simplesmente disparatado!
Como reagiu a economia dominante a esta descoberta devastadora? Basicamente, passando a olhar para o outro lado, ignorando-a e esperando que ninguém veja que o rei vai nu.
Tendo passado por um punhado dos livros didáticos de economia mais frequentemente usados no nível de pós-graduações hoje, só posso concluir que os modelos que são apresentados nesses manuais neoclássicos modernos tentam descrever e analisar economias reais complexas e heterogéneas tendo como base um único agente- representativo -de imitação – robô – de expectativas – racionais.
Isto é, trata-se de modelos que não têm absolutamente nada a ver com a realidade. E – pior ainda – é algo que nem sequer é passível do tipo de análise de equilíbrio geral para a qual se pensa que eles servem de base, uma vez que Hugo Sonnenschein (1972), Rolf Mantel (1976) e Gerard Debreu (1974) mostraram inequivocamente que não existia qualquer condição pela qual os pressupostos sobre os indivíduos pudessem garantir a estabilidade e a unicidade da solução de equilíbrio.
Assim, o que os manuais de economia modernos apresentam aos estudantes são realmente modelos construídos com base no pressuposto de que toda uma economia pode ser modelizada como um ator representativo e que este é um procedimento válido. Mas isso não é verdadeiro — como o teorema de Sonnenschein-Mantel-Debreu demonstrou irrevogavelmente.
Naturalmente, poder-se-ia dizer que é demasiado difícil, a nível da licenciatura, mostrar por que razão o procedimento é correto e transferi-lo para os cursos de mestrado e de doutoramento. Poderia justificadamente ser fundamentado dessa forma – se o que se ensina aos seus alunos fosse verdade, se a lei da procura é generalizável para o nível do mercado e se o ator representativo é uma abstração de modelização válida! Mas, neste caso, é comprovadamente conhecido por ser falso e, portanto, não passa de um caso de escandalosa desonestidade intelectual. É como dizer aos seus alunos que 2 + 2 = 5 e esperar que eles nunca se deparem com os axiomas da aritmética de Peano.
A economia de Chicago é uma ideologia zombie pseudocientífica perigosa que, em última análise, depende de os pobres terem de pagar pelos erros dos ricos. Tentar explicar os ciclos económicos em termos de expectativas racionais falhou descaradamente. Talvez fosse pedir demasiado aos economistas da água doce [1] que admitissem isso, mas ainda é um facto que deveria ser embaraçoso.
Uma vez que a poeira baixou, há um forte argumento para uma investigação sobre se o ensino da economia foi capturado por uma seita pequena, mas perigosa.
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[1] Nota de tradutor. Na série editada em memória do Joaquim Feio, veja-se, por exemplo, no capítulo III, já publicado, o artigo de Krugman intitulado Como é que os economistas se enganaram tanto?, onde este autor aborda o que são os economistas de água doce. (ver aqui, aqui e aqui)
O autor: Lars Syll [1957-], doutorado em Economia, é professor na Universidade de Malmö, na Suécia, que se concentra na filosofia e metodologia da economia, nas teorias da justiça distributiva e nas ciências sociais realistas críticas. Crítico declarado do neoliberalismo e do fundamentalismo de mercado, o seu blogue cobre uma vasta gama de tópicos em inglês, francês, alemão e sueco.


