Espuma dos dias — O avanço do neofascismo e os desafios da esquerda na América Latina (2/3). Por Tricontinental

Nota de editor: devido à sua extensão, publicamos este texto em 3 partes, hoje a segunda.

Seleção e adaptação de Francisco Tavares

5 min de leitura

O avanço do neofascismo e os desafios da esquerda na América Latina (2/3)

Por Instituto de Pesquisa Social  em 13 de Agosto de 2024, dossier nº 79 (original aqui)

Este dossier traz um panorama geral sobre a política, a economia e o debate cultural da extrema-direita na América Latina.

Índice

Introdução

Neoliberalismo: da política institucional à ideologia

Progresso latino-americano e a indução de um monstro

Internacional neofascista?

Neofascismo, fundamentalismo e anticomunismo

Antifascismo e uma nova utopia de futuro

Notas

Referências

 

(continuação)

 

Progressismo latino-americano e a indução de um monstro

Esses novos elementos do neofascismo na América Latina, vinculados às transformações na organização do trabalho por conta da reestruturação produtiva implementada pelo neoliberalismo, demarcam mudanças estruturais nas formas organizativas e de ação da classe trabalhadora, como a fragmentação e o isolamento dos trabalhadores, que deixam de estar socializados enquanto classe no local de trabalho e no sindicato. O contexto também desestrutura os espaços de formação e debate, já que a identidade de classe forja uma visão de mundo coletivo capaz de contrariar as ideias neoliberais [9].

O Vale do Silício [Silicon Valley nos EUA], como veremos mais adiante, ocupa um papel estratégico nesse processo, ao fornecer o conteúdo ideológico e o aparato de estrutura necessário para o disparo massivo de mensagens, construindo bolhas de isolamento e aumentando a vigilância e a classificação dos “eleitores” e seus comportamentos. Como resultado destas mudanças, exemplos concretos de organização e atividade coletiva tornam-se menos comuns; a perspectiva de mudança, quando surge, parece opaca e vaga para a maioria das pessoas. Neste contexto, as forças progressistas, que em grande parte ainda dependem de formas históricas de luta que não respondem plenamente às atuais condições materiais e que também enfrentam o sentido fragmentado de identidade dos trabalhadores, têm encontrado dificuldade em criar novas formas de organização coletiva. As exigências, como jornadas de trabalho mais curtas, já não ressoam entre os trabalhadores num sistema em que, para muitos, quanto mais se trabalha, mais se recebe. Por outras palavras, muitos movimentos pelos direitos dos trabalhadores ainda não analisaram o novo mundo do trabalho, insistindo em táticas ultrapassadas. A persistência no trabalho de base é fundamental, mas deve levar em conta informações concretas sobre quem é o trabalhador atual, bem como as suas reivindicações subjetivas e objetivas, e fazer uso das novas tecnologias de comunicação.

Ao mesmo tempo, os governos latino-americanos da segunda onda progressista não foram capazes de enfrentar adequadamente o monstro neofascista. O equilíbrio de forças no mundo não permitiu que estes Estados avançassem em políticas estruturais que promovessem os interesses dos países da periferia capitalista, o que impede projetos e programas de grande escala que procuram transcender o sistema capitalista [10]. Soma-se a isto o facto de o ritmo da luta de classes nas sociedades da periferia não favorecer a classe trabalhadora e o campesinato, razão pela qual as forças progressistas são incapazes de conduzir uma agenda adequada quando chegam ao poder.

A transição de um governo neoliberal ou neofascista para um governo progressista capaz de promover transformações estruturais não é possível sem uma ampla base de apoio da classe trabalhadora e, neste momento, a conjuntura não favorece uma ampla transformação estrutural. Por essa razão, os projetos eleitorais progressistas têm tido dificuldade em construir um forte apoio popular para os seus programas limitados. A dificuldade de construir um projeto político de esquerda que possa superar problemas cotidianos do povo desvinculou muitos destes governos progressistas das necessidades das massas. Esta desancoragem levou setores da classe trabalhadora e do campesinato a procurar refúgio sob a bandeira do neofascismo.

O papel das drogas e do tráfico nas suas comunidades também influi na tendência dos setores da classe trabalhadora em direção ao neofascismo. O domínio de organizações criminosas nas comunidades começou a determinar a realidade da vida cotidiana daquela população, levando medo e violência a estes locais. A América do Sul é uma parte central da cadeia de produção, distribuição e consumo de drogas, além de ser um laboratório de políticas que criminalizam os pobres e a pobreza. Os principais países produtores de drogas da América do Sul (Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) estão integrados num sistema com os países distribuidores (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) num ciclo acelerado de políticas fracassadas de combate a esta atividade, centradas no encarceramento em massa, no policiamento e na fragmentação de bairros urbanos [11]. Esta violenta abordagem darwinista social entrelaça a América Latina com a globalização do capitalismo contemporâneo pela economia criminosa, uma vez que o tráfico de drogas está ligado ao mercado de armas, aos fabricantes de armas e ao sistema financeiro.

Salvo raras exceções, diversos governos na América Latina, incluindo muitos governos progressistas, têm aderido às diretrizes e políticas da guerra às drogas dos EUA para responder à crescente violência em diversos centros urbanos marcados pela ampliação das desigualdades, utilizando-se da força armada para exercer controle sobre os bairros da classe trabalhadora. Sem uma política que contraponha a guerra às drogas, o progressismo latino-americano tem o tema da segurança pública como a sua principal fragilidade, aproveitado pelo neofascismo para politizar e ampliar a sua base social, como o que ocorre com os governos de Nayib Bukele, em El Salvador, e agora com Daniel Noboa, no Equador. Temos, dessa maneira, um encontro necessário entre o neoliberalismo e um componente indispensável do neofascismo: o militarismo.

No caso brasileiro, a ampla permeabilidade no Estado e no tecido empresarial nacional fez com que essa máfia e as milícias se consolidassem e se expandissem por todo o Estado, com expressão política em partidos e lideranças neofascistas, com destaque da família Bolsonaro, que chegou à presidência da República em 2018 e hoje lidera o movimento neofascista no país – o chamado “bolsonarismo”. Foi também na década de 1970 que foram criadas, dentro do sistema carcerário da ditadura empresarial-militar, as duas maiores empresas criminais do Brasil – Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho. Atualmente, mais de 70 corporações da economia criminal atuam no país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, algumas delas com capacidade de atuação internacional e operando em rede com máfias de todo o mundo. Na última década, houve uma nacionalização das organizações que atuam como milícias, cuja maior parte dos seus membros estão ligados direta e indiretamente a instituições estatais de segurança pública e das Forças Armadas, além de empresas privadas de pequeno e médio porte que chegam a vencer licitações públicas para prestarem serviços básicos [12]. A guerra às drogas tem proliferado governos armados de amplos territórios urbanos, em que a classe trabalhadora sobrevive e se socializa. Exercido por tais empresas criminais, esse governo armado controla e explora as atividades económicas, regula a resolução de conflitos e, sobretudo no caso das milícias, cada vez mais têm produzido o controle do voto do eleitorado desses territórios pelo neofascismo. No Rio de Janeiro, praticamente 80% do território do estado está submetido a governos armados [13].

Os partidos progressistas tornaram-se reféns das mensagens eleitorais assumidas pela direita, que traz uma posição autoritária, punitiva e de encarceramento em massa em matéria de segurança pública, já que este discurso é cada vez mais popular entre os eleitores. Do ponto de vista ideológico, a pobreza – e, principalmente, os pobres – estão cada vez mais associados à imagem de um inimigo a ser combatido, como o jovem traficante de drogas dos bairros mais pobres. Todos os dias, as notícias bombardeiam o país com retratos do “mocinho” e do “criminoso”, legitimando este conceito de “inimigo”. Qualquer pessoa que se assemelhe a esse perfil construído (jovem, negro e pobre) pode ser eliminada sem grandes repercussões, sem que existam políticas sociais eficazes para as pessoas que se enquadram neste perfil. Em suma, isto significa que a polícia tem licença para exterminá-los.

 

Internacional neofascista?

Um dos fatores que podem contribuir para a ascensão do neofascismo é a tradição anticomunista, inclusive reativando velhas redes internacionais, em torno da unificação de um discurso ideológico de mobilização social e justificação política. Um outro ponto em debate é se há uma organização e ação coordenada a nível internacional do neofascismo. Ao contrário da Europa, em que estes grupos se reúnem em torno dos velhos partidos fascistas, na América Latina o neofascismo organiza-se por meio de “Grupos de reflexão” estimulados por organizações semelhantes aos EUA e à Espanha.

No Brasil, o neofascismo tem procurado articular-se internacionalmente sob a liderança de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e um dos filhos de Jair Bolsonaro. Nos últimos anos, Eduardo tem promovido uma versão brasileira da Conferência da Ação Política Conservadora dos EUA (CPAC – Conservative Political Action Conference, em inglês). Desde a derrota eleitoral em 2022, Eduardo já realizou cinco reuniões com 43 lideranças neofascistas latino-americanas e 82 estadunidenses [14]. Outro fator é a sua aliança com o Vale do Silício, que ocupa uma posição estratégica na tecnologia para a produção do consenso social em torno do neofascismo, como é o caso de Elon Musk, empresário da área de tecnologia e uma das pessoas mais ricas do mundo.

Na última década, as redes sociais representaram um poderoso instrumento na disputa por corações e mentes. Tornou-se possível reunir informações individualizadas sobre sentimentos, emoções e percepções sobre os mais diversificados assuntos de um grande contingente da população, sobretudo a classe trabalhadora. O Brasil é o país que mais consome redes sociais no continente e o terceiro no mundo [15].

Nessas redes, em que o modelo de negócio favorece o discurso de ódio, o conteúdo ideológico predominante tem expressado a ideologia hegemónica do nosso tempo, o neoliberalismo, em mais um encontro de águas entre fundamentalismo religioso, teologia da prosperidade e punição. As redes sociais têm sido um campo de batalha chave de uma guerra cultural levada a cabo pelo neofascismo. Longe de serem um produto espontâneo de indignação de grupos ressentidos pelas políticas neoliberais, essa guerra cultural tem organização, centralização e enorme financiamento. É a partir das redes sociais que se tem procurado produzir uma coesão entre os diversos grupos associados ao neofascismo no mundo.

Gabrielle Sodré (Brasil), Fake News e a Batalha das Ideias, 2020.

 

Por fim, se olharmos para o mapa de força político-eleitoral do continente, veremos que em três países o neofascismo está a governar e já se apresenta como a primeira força política; em outros quatro ele já é a segunda força e a principal oposição aos governos progressistas; e em outros seis está vivo com ao menos 10% do eleitorado.

 

(continua)

 


Notas

[9] Para saber mais sobre essas transformações no mundo do trabalho e seu impacto na organização e ação da classe trabalhadora, ver TRICONTINENTAL, Instituto de Pesquisa Social. Nas ruínas do presente. Março, 2018. Disponível em: https://thetricontinental.org/pt-pt/nas-ruinas-do-presente/.

[10] TRICONTINENTAL, Instituto de Pesquisa Social. O que esperar da nova onda progressista da América Latina? Nov. 2023. Disponível em: https://thetricontinental.org/pt-pt/dossie-70-nova-onda-progressista-latino-americana/.

[11] SHAHADEH, Haia A.; ANDRÉ, Luís A. Guerra às drogas na América do Sul. Le monde Diplomatique Brasil. São Paulo, 15 mar 24. Disponível em: https://diplomatique.org.br/guerra-as-drogas-america-do-sul/. Acesso em 31mai2024.

[12] ZYLBERCAN, Mariana. Justiça torna réus 19 acusados de integrar esquema do PCC com empresas de ônibus. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 abr 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/04/justica-torna-reus-19-acusados-de-integrar-esquema-do-pcc-com-empresas-de-onibus.shtml. Acesso em 31 mai 2024.

[13] FOGO CRUZADO E GRUPO DE ESTUDOS DOS NOVOS ILEGALISMOS. Mapa Histórico dos Grupos Armados no Rio de Janeiro. ONG Fogo Cruzado/Geni, Rio de Janeiro, 13set2022. Disponível em: https://br.boell.org/sites/default/files/2022-09/relatorio_mapa_grupos_armados_geni_fogo_cruzado.pdf. Acesso em 31mai2024.

[14] MACIEL, Alice; DAL PIVA, Juliana; SILVERSTEIN, Ken; MUNIZ, Bianca; VIANA, Natalia. Eduardo Bolsonaro teve 125 reuniões com membros da extrema direita do continente. Agência Pública. 7ago2023. Disponível em: https://apublica.org/2023/08/eduardo-bolsonaro-teve-125-reunioes-com-membros-da-extrema-direita-do-continente/. Acesso em 31 mai 2023.

[15] JIMENEZ, Camilo. Brasil é o terceiro país que mais usa as redes sociais no mundo. Propmark, 13 mar 2023. Disponível em:  https://propmark.com.br/brasil-e-o-terceiro-pais-que-mais-usa-redes-sociais-no-mundo/#:~:text=Levantamento%20realizado%20pela%20Comscore%20mostrou,Estados%20Unidos%2C%20M%C3%A9xico%20e%20Argentina. Disponível em 31 mai 2024.

 


O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social é uma instituição internacional orientada por movimentos e organizações populares do mundo, focada em ser um ponto de apoio e elo entre a produção acadêmica e os movimentos políticos e sociais para promover o pensamento crítico e estimular debates e pesquisas com uma perspectiva emancipatória ao serviço das aspirações do povo. (ver aqui)

O seu diretor executivo é Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano. É autor de 40 livros, incluindo As balas de Washington, Uma estrela vermelha sobre o terceiro mundo; Uma história popular do terceiro mundo; Nações pobres: uma história possível para o Sul Global; A Possible History of the Global South, e The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of U.S. Power, escrito com Noam Chomsky. É também correspondente chefe da Globetrotter e editor chefe da LeftWord Books (Nova Déli). Participou em dois filmes: Shadow World (2016) e Two Meetings (2017).

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