Nota prévia
Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje o décimo sétimo texto da série de textos sobre a Alemanha.
Houve eleições na Alemanha, hoje. Deixemos os comentários para depois. Sugiro-vos a leitura do texto de Michael Roberts que, de certa maneira, antecipa os resultados eleitorais e procura explicá-los.
Deste texto sublinho um excerto até para vos contar uma pequeníssima história. Diz-nos Michael Roberts:
“Assim, parece que a imigração e o racismo são os motores da ascensão da extrema-direita AfD. Mas a ironia é que os votos da AfD aumentaram principalmente nas zonas da Alemanha de Leste, onde a imigração era relativamente baixa – é o medo, e não a realidade, que impulsiona tais preconceitos e reações. “
Estou em faro. Na sexta-feira fui às compras ao Pingo Doce. Na volta até chegar à Avenida do Liceu, cerca de 50 metros, o passeio é estreito e vou atrás de duas senhoras, na casa dos 50 anos. No passeio está um pedinte paquistanês, suponho, a pedir uma esmola com um copo de plástico na mão. As senhoras param junto ao pedinte, o passeio é estreito, sou obrigado a parar. Uma das senhoras diz-lhe com um tom de brincadeira: qualquer dia também venho para aqui com um copo na mão e faço-lhe companhia. Aguçou-se-me a curiosidade em saber o que é que aquilo queria dizer, ou melhor, em perceber que sentimentos estavam por detrás daquela ironia. Estou parado, atrás, à espera de poder passar e digo: eu também venho e faço-lhe companhia. A segunda mulher segue-se e diz: eu também. Reagi já em ironia e a começar a andar disse: seremos demais para conseguir alguma coisa pois anda tudo de bolsos vazios.
Este curtíssimo diálogo deu origem a que no cruzamento com a Avenida do Liceu ficasse a saber que eram ambas residentes em Faro e foram ambas emigrantes na Suíça. Falam-me do flagelo da Suíça onde, no seu tempo, não havia pedintes. Agora, acrescenta uma delas, depois de abertas as fronteiras às gentes de Leste aquilo é uma desgraça.
Desviei o tema para a emigração em Faro e imediatamente foi claro o sentimento de insegurança. Há zonas onde já não vou sozinha, mesmo de dia. A amiga confirma o mesmo discurso. Estavam a falar da segurança física apenas.
Comentei esta situação com uma amiga minha, antiga emigrante num paraíso fiscal, formada em filosofia. Esta diz-me que para além da insegurança física, há a insegurança económica, com as pessoas algarvias do fundo da escala de rendimentos profissionais a sentirem-se ameaçadas na sua precariedade, há os problemas escolares criados num ensino público sobre o qual se tem o sentimento que começa a estar disfuncional, há dizia-me ela um sentimento de medo e de raiva contra a imigração.
No fundo tem-se a ideia de que o excerto do texto de Michael Roberts se começa a aplicar também a Portugal. A proposta de referendo do Ventura não surge por acaso, e nós, gentes de esquerda, temos de estar conscientes dos perigos que vindos de tudo isto nos espreitam.
Não podemos ser como Rangel que num discurso sobre imigração nos diz que não podemos viver nem de portas escancaradas nem de portas fechadas. Repetiu isto cinco ou seis vezes e em poucos minutos sem dizer nada de substantivo como se não tivesse nada para dizer. E possivelmente não tinha.
Sublinho a terminar que Roberts tal como Meyerson dão muita importância ao quadro legislativo do trabalho, às condições de formação da força de trabalho nacional e às condições em que esta força de trabalho nacional opera. Procurar resolver qualquer questão em torno de imigração que não entre em conta com isto e com a necessária dignificação de todos aqueles, no respeito dos seus direitos e na exigência dos seus deveres, que contribuem para a formação da riqueza nacional, será uma política de direita e condenada ao fracasso. Nestes termos abrangentes que acabamos de referir, Rangel não poderia falar e, por isso, apenas repetiu palavas sem conteúdo.
Júlio Mota
Faro, 1 de setembro de 2024
Seleção e tradução de Francisco Tavares
9 min de leitura
Alemanha – Texto 17. Alemanha: o fim da hegemonia da UE?
Publicado por Next Recession
em 1 de Setembro de 2024 (original aqui)
Hoje, as eleições têm lugar em dois grandes estados provinciais (Lander) no leste da Alemanha. Todas as sondagens de opinião mostram que os partidos eurocépticos, anti-imigrantes e amigos da Rússia, tanto da extrema-direita como da nova esquerda, estão à frente. Os partidos da actual coligação federal dos Social-Democratas, dos Verdes e dos chamados Democratas livres estão a ser dizimados a ponto de não existirem nestes estados da antiga Alemanha do Leste. Os três estados do leste juntos abrigam cerca de 8,5 milhões de pessoas, representando 10% da população da Alemanha. Mas não é só nestes estados que o ‘centro’ da política alemã está a colapsar. Os três partidos do governo de coligação do Chanceler Scholz viram a sua quota combinada dos votos cair de mais de 50% no final de 2021, para menos de um terço hoje.
Nestas eleições regionais, espera-se que o partido de direita islamofóbico Alternativa para a Alemanha (AfD) obtenha mais de 30% da votação na Turíngia e na Saxónia, com a perspectiva de ganhar o poder na primeira. Björn Höcke, que já foi condenado duas vezes por usar slogans nazis proibidos, é o líder da AfD na Turíngia. Mas também um novo partido de esquerda, com o seu nome homónimo Sahra Wagenknecht Alliance (BSW), deverá ter até 15-20% dos votos.
A Alemanha está a enfrentar um aumento da imigração, uma vez que o número de pedidos de asilo atingiu 334.000 em 2023. Uma pesquisa recente constatou que 56% dos alemães disseram temer serem oprimidos pela imigração. Assim, parece que a imigração e o racismo são os motores da ascensão da extrema-direita AfD. Mas a ironia é que a votação da AfD melhorou principalmente em áreas do leste da Alemanha onde a imigração era relativamente baixa – é o medo e não a realidade que impulsiona esse preconceito e reação.
Afinal, os alemães estão acostumados com os imigrantes. A Alemanha é o segundo destino migratório mais popular do mundo, depois dos EUA. Mais de um em cada cinco alemães tem pelo menos raízes parciais fora do país, ou cerca de 18,6 milhões. Mas a questão da imigração tornou-se um grande problema na Alemanha devido ao desastre no Médio Oriente e na Ucrânia que levou a um afluxo maciço e rápido de refugiados, cerca de 2 milhões nos últimos dois anos para a Alemanha. A maioria destes refugiados foi colocada nas zonas mais pobres da Alemanha de Leste, já sob a pressão da habitação, da educação e dos serviços sociais mais pobres.
A outra ironia é que a co-líder da AfD não é um populista pobre do povo, mas, em vez disso, Alice Weidel é uma ex–economista da Goldman Sachs e consultora financeira – tons do líder ‘populista’ reformista do Reino Unido, Nigel Farage, que é corretor da Bolsa. Estes representantes do capital não têm qualquer ligação com os seus eleitores de base, mas tentam chegar ao poder com base no preconceito e na falsidade. O fenómeno dos partidos nacionalistas de direita ‘populistas’ não se limita à Alemanha. Em França há o Rassemblement National, no Reino Unido o Partido Reformista e em Itália temos os Fratelli de Itália atualmente no poder. De facto, em quase todos os estados da UE, existem partidos de reacção que rondam em torno de 10-15% dos votos, como confirmaram as recentes eleições para a Assembleia da UE.
Para mim, tudo isto é um produto da longa Depressão nas grandes economias capitalistas desde o fim da Grande Recessão de 2008-9, que atingiu os mais pobres e menos organizados da classe trabalhadora, juntamente com as pequenas empresas e os trabalhadores independentes. Recorreram ao ‘nacionalismo’ em busca de uma resposta, pensando que as causas do seu desaparecimento são os imigrantes, as ajudas a outros países da UE e as grandes empresas – por essa ordem.
A situação piorou mais na Alemanha devido aos efeitos posteriores da crise pandémica e da guerra na Ucrânia. A grande potência industrial da Europa, a Alemanha, bloqueou desde a pandemia. E os votos nos partidos tradicionais afundaram com isso.
O desaparecimento da economia alemã expôs a questão subjacente de um mercado de trabalho duplo com toda uma camada de trabalhadores temporários a tempo parcial para empresas alemãs com salários muito baixos. Cerca de um quarto da força de trabalho alemã recebe agora um salário de “baixo rendimento”, utilizando uma definição comum de um salário inferior a dois terços da mediana, que é uma proporção superior à dos 17 países europeus, excepto a Lituânia. Esta mão-de-obra barata, concentrada na parte oriental da Alemanha, está em concorrência directa com o grande número de refugiados que chegaram nos últimos dois anos. Muitos eleitores da Alemanha Oriental pensam que o problema é a imigração.
Mas por debaixo disso está a deterioração da economia alemã, afectando particularmente o leste. A Alemanha é o estado mais populoso da UE e a sua potência económica, representando mais de 20% do PIB do bloco. A indústria transformadora ainda representa 23% da economia alemã, em comparação com 12% nos EUA e 10% no Reino Unido. E a indústria transformadora emprega 19% da mão-de-obra alemã, contra 10% nos EUA e 9% no Reino Unido.
Mas esta maior economia da Europa está em recessão. O PIB real no segundo trimestre de 2024 caiu 0,1% em relação ao primeiro trimestre de 2024 e caiu o mesmo montante em relação ao T2 de 2023. Com efeito, o PIB real alemão não registou qualquer crescimento durante cinco trimestres consecutivos e estagnou efectivamente nos últimos quatro anos.
O governo alemão seguiu servilmente as políticas da aliança ocidental da NATO e acabou com a sua dependência de energia barata da Rússia – na verdade, até concordou com a explosão do vital gasoduto Nordstream. Os custos de energia dispararam para as famílias alemãs.
Com efeito, os salários reais na Alemanha continuam a ser inferiores aos níveis anteriores à pandemia, tal como em muitos países da UE.
Mas mais importante para o capital alemão são os custos crescentes de energia para os fabricantes. A câmara Alemã de Indústria e Comércio (DIHK) comenta: “os elevados preços da energia afectam também as actividades de investimento das empresas e, por conseguinte, a sua capacidade de inovar. Mais de um terço das empresas industriais afirma que actualmente podem investir menos em processos operacionais essenciais devido aos elevados preços da energia. Um quarto diz que pode empenhar-se na protecção do clima com menos recursos e um quinto das empresas industriais tem de adiar os investimentos em investigação e inovação”. “Além da deslocalização prevista da produção, isso representa outra ameaça aguda para a Alemanha como localização industrial“, alerta Achim Dercks (DIHK). “Se as próprias empresas deixarem de investir nos seus processos essenciais, isso equivalerá a um desmantelamento gradual.”
No verão passado, o FMI calculou que estes custos crescentes reduziriam o potencial de crescimento económico da Alemanha em até 1,25% ao ano, “dependendo da magnitude final do choque dos preços da energia e do grau em que o aumento da eficiência energética pode atenuá-lo.”
Nos últimos 3 anos a atividade da indústria transformadora colapsou.
Além disso, a recuperação da rendibilidade do capital alemão desde o início do euro, a deslocalização da capacidade industrial para o leste da UE e os baixos salários de grande parte da mão-de-obra, todos estes fatores acabaram. A rendibilidade do capital alemão começou a diminuir durante a Grande Recessão e durante a longa Depressão da década de 2010. Mas a maior queda ocorreu na pandemia e a rendibilidade encontra-se agora numa baixa histórica.
Pior ainda, a massa de lucros também começou a diminuir à medida que os custos crescentes de produção (energia, transportes, componentes) consomem as receitas. E quando os lucros totais caírem, seguir-se-á o colapso do investimento e a recessão.
A formação bruta de capital (um substituto para o investimento) está a contrair-se.
Isto leva-me aos argumentos apresentados pelos economistas keynesianos de que a queda da Alemanha se deve à falta de procura dos consumidores e ao excesso de capacidade de produção. Argumenta-se que o grande excedente comercial da Alemanha (exportações sobre importações) mostra um ‘desequilíbrio’ na economia que deveria ser corrigido pelo aumento do consumo.
Mas isso é um disparate. Se olharmos para as componentes do PIB real alemão desde o início da crise pandémica em 2020, podemos ver que a crise da Alemanha não foi o resultado de uma queda no consumo (aumento de 1%), mas sim do investimento. A queda da rendibilidade e dos lucros levou à queda do investimento (queda de 7%).
Também consequentemente, a Alemanha não está a inundar o mundo com as suas exportações. O excedente comercial com o resto do mundo mantém-se praticamente inalterado em 20 mil milhões por ano, tal como nos anos de 2010.
As exportações de bens estão mais ou menos estagnadas; são as importações que caíram após a pandemia, à medida que os fabricantes alemães reduzem a produção e o uso de matérias-primas e componentes.
Durante a pandemia, os gastos do governo aumentaram acentuadamente para tentar melhorar o impacto das perdas de emprego e salários. Mas quando isso terminou, o governo de coligação aplicou medidas de austeridade fiscal, supostamente para se manter em linha com as restrições da Comissão da UE e a Constituição alemã que estipula que o estado ‘só pode gastar tanto dinheiro quanto ganha’.
O governo congelou os seus planos de financiamento para o clima e a modernização e tapou um buraco de 17 mil milhões no seu orçamento com medidas de austeridade. Isso incluiu o corte do subsídio de diesel para veículos agrícolas que desencadeou protestos furiosos por parte dos agricultores. Tratores invadiram cidades e bloquearam vários cruzamentos de autoestradas. A perturbação de milhões de passageiros foi exacerbada por uma greve dos maquinistas contra um sistema ferroviário privatizado em desintegração.
Para completar, o ministro das Finanças, Christian Lindner, que é o líder do pequeno partido neoliberal do ‘livre mercado’ do FDP, insiste em reduzir as despesas sociais (em particular as da Alemanha Oriental). Lindner quer cortar os gastos do governo em até 50 mil milhões de euros!
O que tudo isto mostra é que mesmo o capitalismo alemão, a economia capitalista avançada e mais bem sucedida da Europa, não pode escapar às forças divisórias da longa depressão. Mas mostra também que o governo de coligação alemão que segue servilmente em nome da ‘democracia ocidental’ os interesses do imperialismo norte-americano na Ucrânia e em Israel está a destruir a hegemonia do capital alemão e o nível de vida dos seus cidadãos mais pobres. Não admira que as vozes do nacionalismo e da reacção estejam a ganhar força.
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O autor: Michael Roberts [1938-], economista britânico marxista. Trabalhou durante mais de 30 anos como analista económico na City de Londres. É editor do blog The next recession. Publicou, entre outros ensaios, Marx200: a Review of Marx’s economics 200 years after his birth (2018), The long Depression: Marxism and The Global Crisis of Capitalism (2016), The Great recession: a Marxist view (2009).













