As razões que permitiram a Hitler ascender ao poder não são as mesmas de agora, nem a actual extrema-direita se sustenta no mesmo discurso. De facto, não estamos nos anos 20/30 do século passado. Porém, se há convergências, também há diferenças sobre que meditar. Desde logo o falhanço social da República de Weimar, há 100 anos, e o falhanço da ‘Globalização’, hoje, cria(ra)m um exército de desempregados, marginalizados, desiludidos. É por aí que, parece-me, devemos começar. O nó górdio do problema que separa Weimar de hoje é, do ponto de vista político ‘tout court’, a completa abdicação dos partidos social-democratas de programa próprio para se entregarem ao modelo do neoliberalismo, vagamente temperado de pequeninas faúlhas sociais. Convém não esquecer que a primeira experiência socio-económica do neoliberalismo aconteceu no Chile, no regime ditatorial de extrema-direita do general Pinochet, com os gurus da ‘Escola de Chicago’ (os discípulos do sr. Milton Friedman) a conselheiros económicos.
Hitler, de forma perspicaz (baseada no horror da indústria de guerra) insuflou milhões e milhões de Reichmarke do Estado na criação de postos de trabalho, o que lhe valeu o grande apoio popular. Hoje, a extrema-direita substituiu o discurso de ódio aos judeus pelo medo dos imigrantes, mas não pensa, em termos económicos, expulsá-los ou dizimá-los, mas antes aumentar a sobrexploração dos mesmos, ilegalizados e atemorizados, com um falso discurso contra a sua permanência ilegal. Antes usa tal discurso para exercer uma maior pressão sobre a falta de condições de trabalho que lhes oferece. É um jogo maquiavélico deplorável e que importava denunciar, muito mais do que criar defesas abstractas de todos os imigrantes. Isso pode bem tornar-se numa facilitação para o populismo da extrema-direita e a manutenção da miséria em que vivem esses imigrantes. De par, a extrema-direita prossegue a mesma (nem é mais, é a mesma) delapidação dos mercados emergentes do 3º Mundo, garantindo não só as mercadorias (sobretudo a extracção de matérias-primas) a custo baixíssimo, como garante o fluxo migratório de novos escravos para o ‘1º Mundo’.
Por muito que doa ter de dizer que Hitler (um criminoso sem remissão – digo para que não fiquem dúvidas) encontrou uma resposta (evidente) para se substituir economicamente ao desastre da República de Weimar. Esta extrema-direita não tem nenhum modelo económico-social diferenciado do actual, apenas o quer extremar. Acho que basta olhar para Trump e para o louco da Argentina para perceber, no que é, de facto, essencial no padrão económico-social, o quão pouco se distinguem de Biden ou da senhora Ursula de Bruxelas. Assim, do meu ponto de vista, esta mesma extrema-direita não é (ainda) uma mudança de paradigma. Representa um agravamento, mas não uma ruptura. Enquanto Hitler se movia em antagonismo com uma direita clássica, como a (patriótica) de De Gaulle, a actual é farinha do mesmo saco com que se faz um Macron.
Só um modelo económico-social antagónico ao actualmente dominante mundialmente travará enormes convulsões sociais do mais variado tipo. A exponenciação desta extrema-direita populista ou de outra (ou em que a de agora se converta) de bota cardada, por muito que uma cultura de elite saiba nada resolverem, será muitíssimo atractiva para uma massa de excluídos, que vai ainda aumentar, e muito, com a dita ‘inteligência artificial’, proletarizando mesmo camadas populacionais que ocupavam um espaço de classe média-alta. Com a terrível diferença de que não há lugar para greves ou o que seja, porque a robótica e a cibernética substituem o humano trabalhador explorado. Por isso, talvez seja mesmo o tempo de levar muito a sério as análises (não as propostas, datadas e contraditórias) do internacional-situacionismo (sobretudo sobre a ‘sociedade do espectáculo’) e as de Ted Kadzinsky (sobretudo a falência da civilização tecnoindustrial), e de rever conceitos e concepções, aproveitando o mais importante e arquetipal, quer da “Rerus Novarum”, quer do marxismo (neste caso, diria do neomarxismo de Picketty e meios académicos norte-americanos). Não tenho, ninguém pode ter, por garantida a construção de uma teoria, menos ainda de uma praxis salvífica, mas tenho por certa a falência dos actuais modelos, tenham que declinações tenham. O verdadeiro combate ao totalitarismo reside nisso: eles já são, por natureza, totalitários, quando se apresentam como único caminho e fim da História e nos tentam convencer de que são o mal menor.
Estas tensões sociais que existem e a agudização delas, existem, e existirão cada vez mais, submetidas a uma ‘super-mega-vigilância’ orwelliana, tendendo a ser revertidas em confrontos multipolares, como o é visivelmente o eixo de guerra Kiev-Telavive, que os Estados Unidos suportam, usando retóricas contraditórias. E coloca-nos a todos num quadro de real possibilidade de, pela primeira vez na História da Humanidade, embalarmos numa situação irreversível, que provocará a auto-destruição da espécie ou algo muito próximo disso. Ou seja, como alguém já disse: o capitalismo, antes de ser destruído pode destruir a própria Humanidade (cito de memória). É verdade que também podemos estar na véspera de uma reacção e reunião de valores que compatibilizem o que até hoje, nos diversos domínios, se configurou como inalcançável, quer no plano das praxis, quer das ideias. Como me afastei da doutrina marxista em tudo quanto ela tem de determinista, acho que a História aguarda-nos sempre com surpresas ao dobrar da esquina. Mas o prognóstico para a catástrofe (multifacetada) já está em marcha e em progressão geométrica. De factores naturais, provocados ou potenciados pela intervenção humana na própria Natureza, ao perigo de um conflito termonuclear, tudo está já em cima da mesa num jogo de poker à espera de que alguém pague a parada ‘para ver’ e as cartas sejam mostradas em todo o seu esplendor de horror. Eu, pessoalmente, tendo a acreditar que só após essa(s) gigantesca(s) catástrofe(s), há a possibilidade de, restando alguém, se aprender com os erros que até aqui nos trouxeram e recomeçar, eventualmente, um percurso sociológico (diria mesmo antropológico) a partir do escombro em que se ficará, para surgir um resto de Humanidade, que possa reconstruir um caminho sociológico (atrever-me-ia a dizer antropológico) muito diverso do ponto em que estamos.
Todavia, neste ínterim, não é absurdo pensar numa distopia em que uma guerra de dimensão planetária não envolva Nações, ideologias, etnias, religiões, classes sociais, mas que seja dirimida entre grandes grupos económicos com exércitos de mercenários. Pode bem passar-se das ‘guerras financeiras’ a ‘vias de facto’ pela conquista, por exemplo, de reservas de lítio ou do domínio de alguma órbita planetária importante para sinais de transmissão cibernética, num confronto em que, simbolicamente, diria dar-se entre Musk e Zuckerman, por exemplo. Como distópico será também, mas não descartável, pensar na cotação em Bolsa das próprias guerras, hoje, em muitos casos, convertidas em finalidade em si mesmas (como elemento de lucros abissais na indústria do armamento, primeiro, e no da construção civil, depois) e já não de confrontos que se diziam ser o prolongamento da diplomacia, quando esta falhava.
Neste quadro, olhar a extrema-direita como um agravamento da miséria que este sistema provoca será o mais correcto. Incorrecto, do meu ponto de vista, seria combatê-la numa ‘aliança’ com os responsáveis da fabricação da base de apoio dela, extrema-direita actual, fundada em multidões de excluídos, ‘inalfabetizados’ premeditadamente para aceitarem este sistema apresentado como único. Mas que querem, sem saber como, escapar-se-lhe. É assim e por isso que esta extrema-direita cresce. Proclamada como a única alternativa, por si mesma e pelo stablishment que a gerou no seu ventre de malfeitorias, parece que só resta escolher entre uma das duas ‘mesma coisa’. É preciso assumir a coragem de um discurso independente para denunciar isto e dizer que a Globalização mercantilista, só por si – no plano das mortes provocadas pela falência e ultra-exploração do modelo e do exaurir de recursos naturais -, consegue matar diariamente mais gente do que a média de mortes diárias que se atribuem estatisticamente às ditaduras encarniçadas de Hitler a Staline, para escolher campos diferentes como exemplo(s).
Na minha opinião era o que mais faltava que, em nome do combate a mais do mesmo com outras roupagens, vir defender esse mesmo travestido de ‘democracia’. Aceito e acho necessário – como acima digo explicitamente – uma procura de respostas que conglomerem campos políticos e ideologias antes opostas, na procura de respostas verdadeiramente alternativas ao neoliberalismo. Respostas de carácter humano, seja na base do conceito de classe social ou de raiz personalista. Recuso liminarmente qualquer compromisso com o neoliberalismo em nome do combate à extrema-direita… neoliberal. A homeopatia política será um desastre. O combate a esta extrema-direita não se faz com pêlo do mesmo gato, neoliberal. Faz-se com outro gato e outros gatos. De muitas pelagens, pois sim, mas não com estas que são a mesma que nos oferecem.