Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Estados Unidos – Texto 10. Joe Biden deve desistir.  Por Nate Silver

 

Nota prévia:

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje publicamos o décimo da série de textos sobre as Estados Unidos da América do Norte.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

7 min de leitura

Estados Unidos – Texto 10. Joe Biden deve desistir

Negar o declínio de Joe Biden colocou os democratas numa posição terrível.

 Por Nate Silver

Publicado por  em 28 de Junho de 2024 (original aqui)

 

Talvez seja por ser um fã de desporto com inclinação para as estatísticas que reconheço a inevitabilidade do declínio relacionado com a idade. Construir um sistema de projeção como o RAPTOR ou o PECOTA, e a espinha dorsal é aquilo a que se chama a “curva de envelhecimento“. Os atletas da liga principal melhoram rapidamente até cerca dos 22 anos, melhoram mais lentamente dos 23 aos 25 anos, atingem o pico entre os 26 e os 28 anos e depois entram numa fase de declínio. Existe alguma variabilidade nesta última parte, especialmente com a medicina moderna, os regimes de treino e a ciência do desporto. Alguns jogadores conseguem prolongar o seu auge até aos 30 e poucos anos ou mesmo acima de meados dos 30 anos. E há alguma variação por posição e por desporto. As posições que realçam a liderança e as capacidades cognitivas, como a de guarda-redes ou de defesa, envelhecem normalmente de forma mais graciosa do que as posições como as de avançado que dependem do talento físico em bruto.

Mas o declínio chega para todos, mais cedo ou mais tarde – e, por vezes, chega de modo repentino. Pensemos em Michael Jordan com os Wizards. Peyton Manning com os Broncos [1]. Babe Ruth com um aproveitamento de 181 pontos em 72 rebatidas na sua última época na liga principal. Tiger Woods a falhar repetidamente o cut. Uma das minhas recordações desportivas favoritas foi ver Serena Williams do alto do piso 300, numa noite elétrica de fim de verão no Estádio Arthur Ashe em 2022. Claramente sem a mobilidade que outrora possuía, ela deu tudo o que tinha para conseguir uma vitória sobre Anett Kontaveit, a segunda cabeça de série do torneio, numa emocionante vitória em três sets. Em seguida, perdeu na ronda seguinte para uma jogadora croata-australiana não-favorita chamada Ajla Tomljanovic. A vitória sobre Kontaveit foi a última da sua carreira.

O declínio cognitivo é mais difícil de medir e varia muito em função das competências exatas exigidas pelo cargo. Os físicos e os matemáticos parecem atingir o pico mais cedo do que os economistas, por exemplo. As tarefas que beneficiam da experiência de vida e da capacidade de estabelecer relações sociais podem atingir o pico mais tarde ainda; a média de idade no cargo de diretor-geral médio da revista Fortune 500 é de 58 anos. Mas quase nenhum diretor executivo, à exceção de Warren Buffet, tem a idade de Joe Biden, 81 anos.

Para além, talvez, de algumas coisas relacionadas com a COVID, nada fez com que um certo tipo de democrata politicamente empenhado ficasse mais zangado comigo do que a minha insistência em que os democratas tinham de levar a sério as preocupações do eleitorado sobre a idade de Joe Biden. Para ser justo, eu nem sequer estava tão adiantado no caso; a primeira vez que escrevi sobre as minhas preocupações foi em setembro passado. Nessa altura, tinha-se tornado claro que Donald Trump iria provavelmente ser novamente o candidato do Partido Republicano. E tinha-se tornado igualmente claro que uma esmagadora maioria dos eleitores achava que Biden era demasiado velho para ser presidente. Nessa altura, Biden ainda tinha, pelo menos, uma pequena vantagem nas sondagens em relação a Trump – mas perdeu-a no final desse mês e nunca mais a recuperou, pelo menos durante um período prolongado.

Não foi apenas o facto de os eleitores terem sido incrivelmente consistentes ao mencionar a idade de Biden nas sondagens: foram também duas outras coisas. Em primeiro lugar, o facto de os eleitores terem um bom argumento. Como qualquer pessoa que tenha tido um amigo ou familiar idoso sabe – ou seja, quase toda a gente – o final dos anos 70 e o início dos anos 80 são muitas vezes um triste ponto de declínio. São frequentemente um ponto de inflexão a partir do qual as pessoas têm dias bons e dias maus, mas não conseguem realizar as tarefas do dia a dia com o mesmo grau de consistência e fluência que tinham anteriormente. É também a idade em que o risco de morte começa a aumentar exponencialmente:

E não é só o facto de Joe Biden ter 81 anos – é que ele está a tentar um segundo mandato e quer continuar a ser presidente até aos 86 anos! Michael Jordan não era péssimo com os Wizards, mas também não estava prestes a pedir uma extensão de contrato de quatro anos. Um presidente com 86 anos é uma proposta ridícula e insustentável. Poucos líderes mundiais estão perto dessa idade, exceto em países autoritários – e nenhum deles é o presidente americano, o trabalho mais difícil do mundo.

Será que um Biden com 86 anos é tão ridículo e insustentável como um Trump com 82 anos? (Trump acabou de fazer 78 anos e terá 82 no final do seu segundo mandato.) Para mim, a resposta continua a ser não. De facto, embora esta seja uma opinião cada vez mais impopular, penso que Biden teve um primeiro mandato bastante bom. E se vivesse num estado politicamente não definido, oscilante [2], votaria em Biden na mesma – quanto mais não seja porque acho que o dia 6 de janeiro é tão desqualificante que se sobrepõe a tudo o resto.

Mas um presidente de 86 anos seria desqualificante em qualquer outra circunstância. E não posso censurar nenhum eleitor por pensar de maneira diferente.  Num ambiente político cheio de desinformação e desconfiança, o facto de Biden ter 81 anos e pretender ser presidente até aos 86 é algo raro: isto é objetivamente uma realidade e é enquanto tal inatacável. Se eu fosse um pai solteiro a sustentar três filhos com um emprego de salário mínimo, que mal tivesse tempo para acompanhar as notícias, será que me podiam culpar por pensar que a única coisa que sei é que este tipo é demasiado velho para ser presidente?

A segunda coisa de que me apercebi em setembro foi que este não era o tipo de situação que os democratas conseguiriam ultrapassar. Não quando ainda faltavam 15 meses para a campanha. Não iam conseguir fugir à questão culpando a discriminação etária  ou culpando os media – não durante 15 meses.

Havia duas coisas que poderiam salvar Biden. Primeiro, o facto de Trump também ser muito impopular – e também muito velho. Mesmo agora, acho que Biden tem algumas hipóteses se continuar na corrida – mas certamente são mais baixas agora, provavelmente muito mais, do que os já baixos 35% de hipóteses com que Biden acordou na nossa previsão desta manhã.

Não me apetece criticar o desempenho de Trump no debate, que foi mais forte do que eu esperava, mas que também incluiu muitas tangentes selvagens e divagantes que só pareciam coerentes em comparação com Biden. Trump nunca ganhou uma sondagem pós-debate em nenhum dos seus três debates contra Hillary Clinton ou nos seus dois contra Biden em 2020. Mas esmagou Biden, por 67-33, na sondagem da CNN aos espectadores do debate. Até que ponto é preciso fazer asneira para perder um debate por 34 pontos para Donald Trump num país tão dividido como este? E sim, estas sondagens têm historicamente algum poder preditivo na antecipação de movimentos na corrida à presidência, especialmente com um resultado tão desequilibrado como este.

A outra saída é se Biden tivesse sido capaz de apresentar consistentemente desempenhos vigorosos e nítidos nas suas aparições públicas. Não obstante as suas outras responsabilidades eleitorais, Bernie Sanders – também com 82 anos – pelo menos parece estar tão acutilante  como sempre esteve. Mas Biden é uma sombra de si próprio. Isto é a coisa mais óbvia do mundo – e já era óbvio antes desta noite. A sério, vejam clips que comparam o desempenho de Biden no debate de 2012 contra Paul Ryan ou mesmo num dos debates de 2020 contra Trump com praticamente qualquer uma das suas recentes e prolongadas aparições públicas. Os republicanos, como era de esperar, começaram a usar a questão como arma e, se Biden continuar a concorrer, os democratas devem estar muito preocupados com uma “surpresa de outubro”, em que os republicanos simplesmente passem clips de Biden na altura em comparação com Biden agora.

Em vez disso, Biden tem sido avaliado numa curva incrivelmente generosa, como depois do seu discurso sobre o Estado da União, substantivamente bom mas mal proferido. E a Casa Branca tem andado a jogar às escondidas, desde a recusa de Biden em dar uma entrevista na Super Bowl, passando pela redução do número de debates de três para dois, até à utilização do privilégio executivo para bloquear a divulgação do áudio da entrevista de Biden com o conselheiro especial Robert Hur – que concluiu que Biden era um “homem idoso com uma memória fraca” e foi criticado por isso, apesar de Hur ter sido nomeado pelo próprio Procurador-Geral da Casa Branca, o herói da resistência Merrick Garland.

Funcionários da Casa Branca que desvirtuaram as sondagens que mostravam Biden a perder, charlatães que vendiam “hopium”, colunistas que previram (!) que Trump ia desistir do debate (!!) – se é democrata, devia estar zangado com estas pessoas por o terem colocado nesta situação. O mesmo se aplica aos grupos de interesses especiais que insistiram que Kamala Harris devia ser vice-presidente – contra os instintos iniciais de Biden – apesar de ela ter acabado de fazer uma das campanhas com pior desempenho na história das primárias. Sem isso, os democratas teriam um conjunto melhor de opções, ou Biden poderia não ter concorrido novamente.

E devia estar zangado com Joe Biden, tanto quanto devia estar zangado com Ruth Bader Ginsburg.

Talvez Biden ainda possa ganhar. Há certamente um ponto acima de zero em que eu compraria as suas ações, embora ele tenha caído para apenas 23% no Polymarket. Mas ele já estava atrás, é muito provável que fique ainda mais atrás como resultado do debate, e – não negligencie isto – ainda tem mais de quatro meses de campanha (e mais um debate) pela frente, e terá de sobreviver ao que será uma cobertura implacável dos media e ataques republicanos implacáveis contra a sua idade em todos os dias de notícias lentas até novembro.

Talvez Biden pudesse sobreviver jogando na defesa e por cautela – embora a Casa Branca tenha tentado isso e não tenha funcionado – se estivesse a liderar. Mas, em vez disso, está atrás. E quando as sondagens tiverem em conta os efeitos do debate, dentro de algumas semanas, é provável que esteja tão atrás como sempre esteve, com menos tempo do que alguma vez teve. Como é que o homem que se viu no palco esta noite vai mudar as coisas? Ou mesmo uma versão 30 por cento melhor do homem que viu esta noite? Claro, é possível. Mas será essa realmente a aposta que se quer fazer se se é um democrata que pensa que Trump é uma ameaça existencial à democracia e a tudo o resto?

Nos próximos dias, poderei ter mais algumas ideias sobre como começar a avaliar as hipóteses de um substituto contra Trump. Em circunstâncias ideais – se Biden se tivesse afastado há um ano e meio e aberto caminho para umas primárias competitivas – pensaria que esse democrata poderia ser um favorito contra Trump, que, repito, continua a ser bastante impopular. Os democratas estão a ganhar por pouco na votação genérica para o Congresso. E os seus candidatos ao Senado estão geralmente a ter boas sondagens – quase sempre muito melhores do que Biden nas mesmas sondagens – outro ponto que os desvirtuadores de sondagens têm convenientemente negligenciado.

Mas estas não são as circunstâncias ideais. Escolher um novo candidato através dos superdelegados na convenção seria como assistir a um espetáculo de merda numa convenção de canalizadores. E Harris também continua a ser bastante impopular, embora os seus índices de desaprovação sejam agora notavelmente melhores do que os de Biden. Qualquer um destes candidatos está provavelmente abaixo dos 50 por cento para ganhar a Trump.  Mas o que importa é que são provavelmente melhores apostas do que Biden. Nesta altura, prefiro Harris, que, pelo menos, é mais do tipo “folha em branco”. Não sou fã de Gavin Newsom, mas dêem-me Newsom, que pelo menos já teve projetos para o cargo e governa um estado com a quinta maior economia do mundo. Harris e Newsom não são de todo as minhas opções preferidas – mas prefiro-os a Biden.

Mas não me venham com mais tretas sobre como a idade é apenas um número ou uma fixação dos meios de comunicação social – ou como mudar de candidato não é assim que se faz. Estamos a jogar o jogo de póquer mais arriscado que se possa imaginar e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para melhorar as nossas probabilidades, mesmo que seja apenas saltar de 25% para 35%.

Como escrevi na altura, o único ponto positivo que salvava a realização do debate tão cedo era o facto de dar aos democratas a opção de puxar a alavanca de emergência e instar Biden a desistir antes da convenção, se o debate corresse realmente mal. Bem, as alavancas de emergência existem por alguma razão. Correu pior do que eu alguma vez imaginei – e eu estava à espera que corresse mal. É altura de Biden considerar o que é melhor para o seu partido, o que é melhor para o país e o que é melhor para o seu legado – e isso é não procurar a presidência até aos 86 anos.

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Notas

[1] Sim, ele ganhou a Super Bowl – com uma das piores classificações de quarterback da liga. Se quiserem argumentar que isto é uma espécie de metáfora para o facto de Joe Biden ainda poder ganhar as eleições – uma proposta que não nego – força então.

[2] Mas como não vivo num estado indeciso: depois do debate desta noite, vou votar no terceiro partido se Biden continuar no boletim de voto, como forma de protesto contra a irresponsabilidade de Biden ao tentar um segundo mandato e também contra a irresponsabilidade do Partido Democrata ao nomeá-lo sem uma disputa séria nas primárias.

 


O autor: Nate Silver [1978-] é um estatístico norte-americano, escritor e jogador de poker, analista de beisebol, basquetebol e eleições. Foi o fundador de Five Thirty Eight. Desde a sua saída tem publicado no seu blog Silver Bulletin. (para mais info ver aqui)

 

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