O Homem é um ser uno e indivisível, muito complexo. Ele é, no entanto, composto por uma infinidade de subunidades, todas elas intimamente ligadas entre si. A mais importante de todas, se assim podemos dizer, a unidade soberana, é o cérebro. Este órgão, bem guardado dentro da escuridão de uma caixa óssea, feita da substância mais dura do corpo humano, é constituído por cerca de oitenta e seis mil milhões de neurónios em permanente actividade, através dos quais se processam em cada momento, provavelmente, triliões de neurotransmissões. Cada neurónio tem cerca de cinco mil ligações com os neurónios vizinhos, uma verdadeira e intrincada floresta. Cada milímetro cúbico do nosso cérebro contém mais conexões do que seres humanos à superfície do planeta. O esquema cerebral da espécie humana é idêntico em todos nós, mas o padrão neural, ou seja, o conteúdo de cada cérebro é totalmente diferente.
A Humanidade não é um mero conjunto de homens e mulheres. A Humanidade é uma profunda e intrincada rede de relações, de relações humanas muito complexas. O cérebro de cada um de nós, apesar de encerrado num compartimento estanque, como disse atrás, não se encontra isolado. Relaciona-se, permanentemente e mais ou menos intimamente, com todos os outros, e todos os outros se relacionam com ele de forma mais ou menos profunda, através dos múltiplos canais de comunicação que vão desde a linguagem falada, escrita ou gestual, à mímica, à postura, às atitudes, aos comportamentos. Todo o homem se relaciona mais ou menos activamente com os inúmeros fenómenos que o rodeiam e com tudo o que vê e não vê, com tudo o que entende e não entende. O diálogo do Homem consigo mesmo, com os outros e com o mundo no seio da natureza e da Humanidade é permanente, profundo e inevitável. Assim, vai ele construindo, dia após dia, o seu emaranhado mundo relacional, o seu autêntico microcosmos regido por todas as inimagináveis forças da sua microgaláxia.
Deixemos um pouco de lado este homem-relação e vamos imaginar que um qualquer de nós, encontrando-se num qualquer ponto do macrocosmos, no seio do Universo, a milhões de anos-luz de distância, resolve vir por aí abaixo (ou por aí acima!) dar um passeio. Vamo-nos aproximando, aproximando, aproximando, passamos por triliões de estrelas e por outros tantos triliões de outros corpos celestes, e ao fim de triliões de quilómetros encontramos uma pequenina bola de berlinde a que chamam Terra. Paramos um pouco para pensar e chegamos à conclusão de que a Terra, afinal, é um pequeníssimo e quase desprezível grão de areia no meio do Universo, sem qualquer valor ou significado. Continuamos a viagem, aproximamo-nos, aproximamo-nos um pouco mais, e reparamos que sobre essa bolinha chamada Terra se mexe uma multidão de pequenos bichinhos chamados homens. Paramos novamente para pensar e definitivamente convencemo-nos de que o Homem, afinal, não é, rigorosamente, o centro de nada. Vamo-nos aproximando, aproximando ainda mais até penetrar dentro do próprio Homem, onde deparamos com o tal microcosmos que deixei atrás, na minha descrição. Concluímos, então, pelo que nos parece, que o Homem vive entre duas realidades. Uma força antropocêntrica, que o atrai e o arrasta para a sua pequeníssima natureza humana e para a sua esfera relacional, da qual não pode, de forma alguma libertar-se, e uma outra força de sentido oposto e centrífugo dentro da permanente expansão do Universo, que tende a projectá-lo em cada momento na dimensão universal a que pertence. Nesta zona de divergência, nesta interface, nesta fronteira entre as duas realidades, reside, a meu ver, a verdadeira vida, a vida que procura fugir e transitar da sua natureza biológica para um estado que, sem deixar de ser material, cada vez mais se integra na natureza cósmica da sua origem-destino. É nesta zona de divergência, nesta interface, que reside, em minha opinião, a Mente, esse admirável produto do nosso fascinante cérebro, a verdadeira Ponte entre a nossa insignificância e a incomensurável grandeza cósmica.


