Nota prévia:
Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise. Hoje publicamos o vigésimo quarto da série de textos sobre as Estados Unidos da América do Norte.
Júlio Mota
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
6 min de leitura
Estados Unidos – Texto 24. Kamala Harris: a nova Obama?
Por Politicoboy
Publicado por
em 12 de Agosto de 2024 (original aqui)

Desde a saída de Joe Biden, o campo democrata está em efervescência em torno da vice-presidente Kamala Harris, cuja candidatura galvaniza o partido. As sondagens mostram uma recuperação inegável, acompanhada de um entusiasmo palpável entre o eleitorado democrata. «Nunca visto desde Barack Obama», segundo muitos observadores. Se a comparação parece fácil, a sua relevância não se situa na candidatura e no «estilo» de Kamala Harris. A semelhança deve ser procurada na sua proximidade com os grandes gestores de fundos do Partido Democrata. E o programa político que ela poderia implementar uma vez eleita.
Segue-se a análise.
No seu boletim informativo de 29 de julho, o cineasta e militante Michael Moore enfatiza o fulgor inédito do entusiasmo suscitado pela candidatura de Kamala Harris. Ele fala dos 170.000 ativistas registados em poucos dias para fazer campanha, os 120.000 participantes na primeira reunião em videoconferência e as impressionantes captações de fundos – grande parte deles provenientes de pequenas doações dos cidadãos. São números que dão vertigens, quando a vice-presidente ainda não tinha sido investida oficialmente pelo Partido, nem tinha selecionado o colistierseu copiloto ou publicado um início de programa. O anúncio da seleção de Tim Walz como vice-presidente foi seguido por uma nova arrecadação espetacular junto dos americanos de classe média. E as multidões que se deslocam para assistir às primeiras reuniões de campanha preocupam Donald Trump.
Este entusiasmo também se reflete na cobertura decididamente positiva dos principais meios de comunicação próximos do Partido Democrata ou não-alinhados – os mesmos que cobriam depreciativamente a campanha de Joe Biden antes de multiplicarem as pressões em favor da sua desistência. Como muitas vezes nos EUA, a reviravolta da imprensa foi tão rápida quanto pronunciada. Isso foi acompanhado por uma inversão igualmente notável das sondagens. Cinco dias após a retirada de Joe Biden, o muito conservador Wall Street Journal publicou: «Kamala Harris apaga a vantagem de Trump, segundo a nossa sondagem sobre a intenção de voto». Agora, ela também recuperou o atraso de Biden nos estados-chave. Trump não parece beneficiar do «impulso» que normalmente se dá na sequência da Convenção do Partido Republicano, assim como não tinha beneficiado de um aumento das intenções de voto após a tentativa de assassinato contra ele.
Para os militantes que tinham feito campanha por Obama, os seus dois mandatos foram uma amarga deceção. Wall Street não teve que prestar quaisquer contas, mas dez milhões de americanos foram expulsos das suas casas
Por mais espetacular que possa parecer, esta reviravolta é compreensível. O ex-presidente republicano continua profundamente impopular e visto, pela maioria dos eleitores, como um perigoso extremista. Da mesma forma, o envelhecimento acelerado de Joe Biden tinha mergulhado todo o campo democrata numa forma de letargia fatalista. A começar pelos militantes e simpatizantes, a maioria dos quais é hostil à sua candidatura desde o seu anúncio no início de 2023. Qualquer outro candidato democrata com um perfil nacional teria provavelmente despertado algum entusiasmo. O projeto político de Kamala Harris ainda está por definir. Mas a perspetiva de uma vitória contra Trump é suficiente, por agora, para provocar esta «Kamalamania» que alguns se atrevem a comparar com a «Obamamania» de 2008.
Do Sim, nós podemos à eleição de Trump: O Espectro de Obama
O primeiro presidente afro-americano da história dos Estados Unidos não tinha despertado um interesse tão profundo só porque era jovem, mestiço e carismático. A sua eloquência foi acompanhada por tomadas de posição que anunciavam uma verdadeira viragem após oito anos de presidência Bush, iniciadas pelo fiasco da guerra no Iraque e terminadas pela crise dos subprime. Estas políticas seguiram oito anos de presidência Clinton, onde os democratas tinham pouco mais ou menos aplicado apenas o programa do Partido Republicano em matéria de política económica, social ou de política prisional.
Pelo contrário, Barack Obama tornou-se conhecido do público em geral pela sua oposição à guerra no Iraque e depois fez campanha com a promessa de uma reforma do seguro na doença e a tomada de posição quanto às mudanças climáticas – entre outros marcadores que podem explicar por que é que dois milhões de americanos tinham lutado pela sua vitória. Uma paixão que também tinha ganhado Wall Street e Silicon Valley. Os dois grandes centros do capitalismo americano tinham inundado a campanha de Obama com doações financeiras, assegurando-se da sua complacência uma vez eleito.
Do ponto de vista das forças militantes que tinham feito campanha por Obama, os dois mandatos do presidente democrata foram uma profunda deceção. Wall Street não teve que prestar contas a seguir à crise financeira, mas dez milhões de americanos foram expulsos das suas casas. O grande Plano Climático não foi submetido a votação no Congresso. A grande reforma do seguro de saúde «Obamacare» foi escrita pelos lobistas da indústria farmacêutica e não incluiu a promessa de uma opção pública.
Os soldados que voltaram do Iraque – onde o Estado Islâmico acabou por prosperar – foram reenviados para o Afeganistão. O relançamento económico votado no início do mandato foi demasiado tímido, precipitando oito anos de lenta recuperação que culminaram numa explosão das desigualdades, nos encerramentos de fábricas e na eleição de Donald Trump. A vitória de Obama não só não marcou um ponto de viragem nos problemas de racismo que os Estados Unidos enfrentam, mas também depois de ter elogiado a sua investidura como «o dia em que o nível dos oceanos começará a parar de subir e o planeta a curar-se» na Convenção Democrata de 2008, ele vai terminar o seu mandato orgulhando-se de ter presidido ao maior aumento da produção de petróleo na história recente…
Finalmente, a nível político, os anos de Obama foram marcados por um declínio dramático da presença do partido democrata em todos os níveis do poder: perda de maioria nas duas câmaras do Congresso, em muitos parlamentos de estados e perda de muitos cargos de governador. Será esta realidade que depois irá contribuir para uma ultra-maioria conservadora no Supremo Tribunal.
O balanço contrastado de Joe Biden e a responsabilidade de Kamala Harris
Duas figuras importantes do Partido Democrata demoraram a apoiar oficialmente Kamala Harris: Barack Obama e Bernie Sanders. O primeiro, por razões puramente estratégicas: como muitos quadros do partido, Obama provavelmente não acreditava que Harris seria a melhor candidata. Os governadores de estados federais hesitantes em que a situação financeira é sólida teriam sido melhores opções. No seu comunicado inicial, o antigo presidente evitou mencionar Harris e implicitamente pediu um processo de nomeação tão aberto e democrático quanto possível. Mas o facto de Joe Biden ter apoiado a candidatura de Harris desencadeou uma dinâmica inultrapassável.
Bernie Sanders, por sua vez, recusou-se durante mais tempo a apoiar oficialmente Harris. Ele esperava dar o seu apoio oficial en troca do mesmo tipo de compromisso programático que ele tinha obtido de Biden. Promessas que se seguiram a uma colaboração mais frutuosa do que se esperava.
Em matéria de política interna, Biden fez muito mais em três anos do que o seu antigo chefe em oito. Sobretudo, tentou virar a página do neoliberalismo, para voltar a uma forma de keynesianismo e dirigismo económico em rutura com quarenta anos de políticas económicas. Pense-se tão só na grande lei «Chips Act», concebida para repatriar a produção de componentes eletrónicos no território, no plano de investimentos em infraestruturas e na lei climática que favorece, através de diferentes mecanismos protecionistas, o desenvolvimento de uma indústria verde nos EUA – para grande desgosto dos europeus.
Desde o anúncio da sua candidatura, Harris recebeu o apoio de grandes nomes de Silicon Valley. Em troca: a exoneração de Lina Khan, presidente da Comissão Federal de Comércio, que iniciou ações judiciais contra as práticas monopolistas dos gigantes da tecnologia
Não só Joe Biden assume uma forma de protecionismo, mas também se pode vangloriar de algumas vitórias não negligenciáveis contra as classes dominantes, através da aplicação de impostos sobre as grandes empresas e os mais ricos, ao mesmo tempo que se limitaram os lucros da indústria farmacêutica através do limite máximo de preços de certos medicamentos. A sua política pró-sindical foi marcada por um símbolo forte: Joe Biden foi o primeiro presidente americano a visitar um piquete de greve. Um gesto que se inscreve numa política de aumento dos salários e do poder de compra, refletido na nomeação de Lina Khan para a chefia da Federal Trade Commission (FTC, a agência federal encarregada de proteger os consumidores pela aplicação de leis anti-trust).
No entanto, esses sucessos incontestáveis não levaram a uma melhoria significativa do nível de vida da maioria dos americanos. Estas medidas, cujos limites são evidentes, permanecem demasiado tímidas face às fraturas abismais que atravessam a sociedade americana. E os efeitos são contrabalançados pela inflação, pelo aumento dos preços da energia, pela estagnação da produtividade e por uma crise habitacional cada vez mais intensa.
Levanta-se, portanto, a questão de saber se Kamala Harris vai tentar continuar o caminho traçado por Joe Biden ou se, mais cativa dos interesses financeiros à semelhança de Barack Obama, voltará às políticas neoliberais tradicionais.
A candidata que os grandes financeiros democratas apreciavam
Em 2020, os círculos financeiros saudaram a nomeação de Kamala Harris para a vice-presidência dos EUA. O Wall Street Journal intitulava «O entusiasmo de Wall Street indica que ela considera que as reformas financeiras não serão uma prioridade desta administração» e notava que «Biden parece ter conseguido conter a ala esquerda do seu partido». A senadora da Califórnia vinha de longe. Candidata infeliz nas primárias democratas de 2020, ela havia abandonado a corrida após sondagens desastrosas, que lhe davam menos de 3%. Este fracasso esmagador, apesar de uma campanha confortavelmente financiada, que contou com muitos ex-membros da equipa de Clinton, e apoiada por muitos meios de comunicação, foi explicado pelos problemas inerentes à própria Harris. As suas infelizes tentativas de triangulação, as suas dificuldades em tomar uma posição e manter-se nela, a sua incompetência patente em liderar uma equipa e o seu histórico muito à direita quando era Procuradora-Geral da Califórnia, contribuíram para alimentar a perceção de uma política oportunista e sem coluna vertebral ideológica.
Foi Joe Biden que salvou a sua carreira política escolhendo-a como vice. Uma decisão um pouco forçada pelo compromisso – para colocar em dificuldade o seu concorrente Bernie Sanders – de ter uma mulher como vice-presidente. Harris encarnou um compromisso entre os perfis considerados demasiado de direita e a progressista Elizabeth Warren. A senadora da Califórnia também tinha a seu favor a sua proximidade com as redes financeiras, especialmente no Silicon Valley .
Também foi Biden que de certa maneira a impôs como sendo a sua sucessora quando ele desistiu. Segundo informações publicadas pela imprensa americana, esta decisão teria sido parcialmente motivada por um desejo de vingança contra os quadros do Partido Democrata (Obama, Pelosi, Schummer) que o haviam levado a renunciar, mas preferindo um processo de nomeação mais aberto, potencialmente na Convenção do partido. O próprio Biden deve a sua entrada na Casa Branca a uma série de eventos fortuitos: o encontro de última hora dos quadros do partido em apoio da sua candidatura para vencer Bernie Sanders (apesar de Obama o ter aconselhado a não concorrer e ter apoiado outros candidatos em particular) e a crise d Covid, que levaram à derrota por um fio de Donald Trump enquanto lhe forneceram um álibi para fazer campanha a partir de sua casa.
A carreira de Kamala Harris deve-se mais ao acaso do que ao talento – ao contrário de Barack Obama, que venceu a máquina Clinton nas primárias antes de ganhar duas presidenciais seguidas. Harris é mais dependente dos grandes doadores do Partido Democrata e das negociações internas com os executivos do que da base eleitoral do partido. Desde o anúncio da sua candidatura, ela recebeu o apoio de bilionários californianos que são alguns dos mais importantes do Silicon Valley. Reid Hoffman não só contribuiu com 17 milhões de dólares, como também exigiu que Harris demita Lina Khan, a presidente da FTC que iniciou numerosas ações judiciais contra as práticas monopolistas dos GAFAM e deseja regular o setor da tecnologia…
Kamala Harris também está ligada, através da sua comitiva, à empresa Uber. O cunhado dela é membro do conselho de administração e a campanha dela recrutou David Plouffe, ex-estratega de Obama e principal lobista da Uber. A este registo deve-se adicionar o seu histórico mitigado como Procuradora-geral da Califórnia, onde ela se recusou a processar as instituições financeiras que tiveram comportamentos fraudulentos durante a crise dos subprimes.
Mas desde que foi prometida para um papel nacional, Harris renunciou a muitas promessas e compromissos. Quando era senadora e depois candidata às primárias democratas de 2020, ela defendeu o projeto de lei de nacionalização do seguro-saúde (Medicare for all), apoiou a ideia de uma garantia federal de emprego (Federal job guarantee) e tinha-se pronunciado contra a fracturação hidráulica [fracking]. Estas renúncias podem ser interpretadas como cálculos políticos para recentrar a sua imagem, ou o abandono de promessas que não contava cumprir, apesar dos argumentos convincentes que tinha apresentado na época para defendê-las.
Sobre a questão espinhosa do apoio a Israel, Harris distancia-se de Biden em matéria de retórica mas não põe de modo algum em causa a sua linha diplomática. Por isso, excluiu a suspensão da ajuda militar, aceitando apoiar o que a ONU considera ser um genocídio em curso. Isto no contexto em que a ONG israelita Bet’selem apresentou provas da existência de centros de tortura onde os prisioneiros palestinianos são regularmente violentados…
Ausência de coluna vertebral ideológica e proximidade aos interesses financeiros: Harris parece estar em boa posição para seguir o mesmo caminho desastroso que Barack Obama seguiu.
Tim Walz, a encarnação da esperança progressista no «bilhete» democrata
A seleção do vice foi a primeira (e única) grande escolha a ser feita até à eleição. Como Obama, para «equilibrar o bilhete», Harris quis fazer equipa com um homem branco de um estado rural. O Partido Democrata pode orgulhar-se de ter vários governadores populares eleitos em estados do centro-oeste. Seria lógico que Harris escolhesse Josh Shapiro, o carismático governador do estado decisivo da Pensilvânia.
Os patrões e a imprensa estavam a favor. No entanto, Harris criou a surpresa ao selecionar o governador de Minnesota, Tim Walz, muito mais progressista. A esquerda democrata, os grandes sindicatos operários e de professores conduziram uma campanha relâmpago em favor da sua candidatura. A decisão foi curta, mas Harris surpreendeu todos ao optar por Walz.
O governador Tim Walz, não é apenas um arquétipo de pai de família do Centro-Oeste: ele é um dos raros políticos que não tem diploma em direito e vem da classe trabalhadora. Além da sua empatia demonstrada pelo mundo rural e o seu perfil atípico (adepto da pesca, é um antigo treinador de futebol, professor e reservista), ele pode gabar-se de ter um dos registos mais à esquerda do país como governador. Por exemplo, ele criou a licença parental e uma cantina escolar gratuita em Minnesota. Um balanço que ele defende com deleite quando a direita trumpista o acusa de ser um perigoso comunista…
Em caso de vitória em novembro, o que está longe de ser garantido, poderia ser um elemento determinante para evitar que Kamala Harris caia nos mesmos erros de Barack Obama. Pelo menos é a esperança alimentada pela esquerda democrata, agora ligada à candidatura de Harris…
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O autor: Politicoboy, pseudónimo de Christophe Le Boucher, é um jornalista independente, engenheiro economista, viveu no Texas de 2015 a 2020. Ele cobre a política americana para vários meios de comunicação e é co-autor da coleção History begins again (Le Cerf, 2020). Autor de Les Illusions perdues de l’Amérique démocrate, em co-autoria com Clément Pairot.

