Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Beirute do Sul: não um reduto do Hezbollah, mas um bairro habitado
Considerar o sul de Beirute, uma área conhecida como Dahiya, como um “reduto” do Hezbollah, dá a Israel a licença para usar força massiva, para visar a infraestrutura civil como algo inevitável no confronto em curso.
Por Davide Malacaria
Publicado por
em 27 de Setembro de 2024 (original aqui)
Continua o bombardeamento israelita contra a área sul de Beirute, uma área conhecida como Dahiya, e continuam a morrer civis. Na propaganda, repete-se o refrão do ataque direcionado ao “coração da fortaleza do Hezbollah em Beirute” como observa o Intercept. Uma narrativa que evoca “imagens de uma operação dirigida contra um complexo militar bem protegido, algo semelhante ao Pentágono”.
“[ … ] Quase sempre, ao reportarem notícias do Sul de Beirute, os meios de comunicação ocidentais repetem como papagaios a narrativa do exército israelita, como se a expressão ‘reduto do Hezbollah’ tivesse a ver com o nome do bairro. Aqueles que usam esta expressão podiam muito bem falar de “fortalezas” no que respeita aos apoiantes do Partido Democrático do Reino Unido ou do Partido Trabalhista”, mas não o fazem, é claro.
As bombas sobre o sul de Beirute
“[ … ] Considerar o sul de Beirute, coloquialmente conhecido em árabe como Dahiya, como um reduto militar, dá a Israel licença para usar uma força massiva, de visar a infraestrutura civil como algo indissociável do seu ataque, tal como ofaz quando tem como alvo os líderes do Hezbollah. O objetivo declarado é desencorajar futuros ataques, visando a área onde se concentram os apoiantes do Hezbollah. Israel faz com que os civis paguem o preço por qualquer ação do Hezbollah e, posteriormente, culpa o Hezbollah pelas mortes que causam”.
“A estratégia tem até um nome: a Doutrina Dahiya, cunhada depois de Israel ter quase destruído essa área na guerra de 2006 contra o Hezbollah. Tal doutrina ter-se-ia elevado ao modus operandi de Israel nas guerras subsequentes, elevando-se a um roteiro para a atual destruição total de Gaza”.
“Agora, à medida que se acelera a escalada israelita contra o Líbano, a Doutrina Dahiya regressa, justificada pela narrativa que aponta a área como um ‘reduto’ de militantes”.
Pelo contrário, escreve o Intercept. “Dahiya é um conjunto de bairros, principalmente muçulmanos xiitas, fora dos limites da cidade de Beirute, onde vivem centenas de milhares de pessoas. É muito mais densamente povoada do que a própria capital. “Dentro de Dahiya existem vários campos de refugiados palestinianos e outros grupos, e é muito mais densamente povoada do que os municípios que a rodeiam”.
“Nos anos 80, durante a guerra civil de 15 anos, a área foi submetida a massacres por paramilitares cristãos libaneses de direita apoiados por Israel. Dahiya depois sofreu outro grande massacre em 2006, quando foi sujeita a bombardeamentos maciços de Israel durante a guerra entre Israel e o Hezbollah”.
A Doutrina Dahiya
”[ … ] Embora o nome ‘Doutrina Dahiya’ tenha sido cunhado mais tarde, logo após a guerra, os oficiais militares israelitas falaram abertamente sobre a sua abordagem a Dahiya e declararam explicitamente que era sua intenção não fazer qualquer distinção entre infraestruturas civis e militares”.
“Numa entrevista de 2008, o General israelita Gadi Eisenkot, que ajudou a formular a doutrina, deixou claro que ataques desproporcionais contra a infraestrutura civil eram parte de uma estratégia, não um efeito indesejável”.
“’O que aconteceu no bairro Dahiya de Beirute em 2006, acontecerá em todas as aldeias que ataquem Israel’ disse ele. ‘Aplicaremos uma força desproporcionada [contra aquela aldeia] e causaremos imensos danos e destruição. Do nosso ponto de vista, estas não são aldeias civis, são bases militares’. E concluiu: ‘Esta não é uma recomendação. É um plano. E foi aprovado'”.
“A vida dos libaneses pode ser sacrificada na luta contra o Hezbollah, pura e simplesmente. As repercussões desta mudança explícita são agora ainda mais evidentes, como acontece na faixa de Gaza”, onde todas as infraestruturas – escolas, hospitais e até padarias (Reuters) – foram tratadas como alvos militares. “O renascimento do Doutrina Dahiya no Líbano usa a mesma lógica: tudo o que tem a ver com o Hezbollah torna-se automáticamente um objectivo militar no sentido mais lato possível”.
“Os meis de comunicação, no entanto, não toleram absolutamente este tipo de linguagem se usada contra os israeleitas. “Nenhuma agência de notícias americana jamais consideraria seriamente o argumento de que as forças de defesa de Israel [IDF] estão a usar ‘escudos humanos’ pelo facto de terem a sua sede no centro de Telavive”.
“As IDF, por sua vez, reagiram ao ataque de um drone iemenita em Telavive com uma imagem da área que mostrava a proximidade [do alvo militar] de importantes infraestruturas civis e condenaram a sua localização imprudente, sem captar qualquer ironia”.
“A lógica desta narrativa é clara: apagar a existência de lugares, cidades, vilas e bairros como Dahiya, não mais considerados como animados centros habitados, com complexidades políticas como tantos outros lugares, mas sobretudo como casas onde milhões de pessoas passam os seus dias.”
[ … ] Dahiy, com toda a sua gente, não deve ter que demonstrar ao mundo que pertence à humanidade. Deve ser um dado de facto”.
A trégua aceite e imediatamente rejeitada
De ontem, o plano americano, apoiado por muitas nações, de uma trégua de 21 dias para deixar espaço para a diplomacia. Netanyahu tinha aceitado, mas depois recuou por medo de que os seus aliados fizessem cair o seu governo (Haaretz).
A existência de uma negociação subjacente, que ainda não terminou completamente, explica por que razão o Hezbollah está a deter o seu potencial. Sobre essa atitude, escrevemos numa nota anterior, com confirmação posterior do Washington Post: “Por agora o Hezbollah parece pouco inclinado a lançar um ataque total, não obstante Nasrallah ter prometido uma resposta firme à recente escalada de Israel. O Hezbollah ‘está a jogar ainda segundo as regras’, disse Mohanad Hage Ali, um alto funcionário do Carnegie Middle East Center, em Beirute”.
“Eles estão ‘a minimizar’ os ataques, acrescentou Hage Ali, porque temem ‘represálias’, mas acima de tudo, acrescentamos, porque tal desenvolvimento queimaria qualquer possibilidade de trégua. ‘É uma linha tênue que eles estão a percorrer, o que está a dar a Israel uma grande margem de manobra para definir o campo de batalha’. Agora é, mas se as coisas mudarem … as autoridades israelitas parecem ser vítimas, entre outras coisas, da síndrome de Masada [1]. Voltaremos.
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[1] N.T. Síndrome de Masada: o maior suicídio coletivo da história, ponto final da revolta judaica levada a cabo nos anos 66 depois de Cristo pelo grupo mais extremista do judaísmo zelota, conhecidos como os sicários (ver aqui e aqui).
O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.”








