Sobre a Albânia – I
por António Gomes Marques
Introdução
Percorrer parte da República da Albânia — a partir de Tirana, visitando algumas das principais cidades, primeiro Krujë, a Norte da capital, e depois em direcção ao Sul, até Gjirokaster, seguindo depois para o Norte da Grécia —, por um período de seis dias, não dá um conhecimento do país tão profundo como eu gostaria; no entanto, julgo ter visto o suficiente para, pelo menos, poder transmitir algumas das impressões com que fiquei e que poderão contribuir para despertar o interesse de alguns leitores.
A minha primeira intenção era, de facto, dar a conhecer as impressões com que fiquei da Albânia de hoje; no entanto, comecei à procura de referências sobre o país para fazer algum enquadramento, mas em tudo quanto li vinham referências a Enver Hoxha, o que me levou a mudar o conteúdo e, naturalmente, a falar de Enver Hoxha de forma um pouco longa, o que acabou por ser importante para mim pelo desconhecimento que eu tinha desta figura da história contemporânea.
Depois de muito ler, procurei compreendê-lo, o que não significa aceitar toda a sua acção.
Vou, então, começar.
Sobre a Albânia e Enver Hoxha no seu tempo
A Albânia é um país com uma costa de 476 km banhada pelos mares Adriático e Jónico, com grande beleza natural e excelentes praias, situando-se na Península Balcânica, no Sudeste da Europa. Tem uma área total de 28.748 Km², sendo 70% montanhoso. A população é de 3 milhões (dados de 2011), com 53% a viver em zonas urbanas e 47% em zonas rurais.
Tirana, a capital, é a cidade mais povoada, com cerca de 25% dos habitantes dos 53% das zonas urbanas.
Tem fronteira a Norte com Montenegro, a Nordeste com o Kosovo e a Leste com a Macedónia do Norte, a Sudeste com a Grécia e a Oeste tem os mares já referidos.
Diariamente, ouve-se o guia albanês falar do terrível período em que o país era apelidado de comunista (filosoficamente falando, houve na história algum país comunista?), com particular ênfase em Enver Hoxha, o homem que gostava de considerar a Albânia como o único país ateu —em 1967 designou-se a Albânia como país ateu—, o que, vendo o que se passa hoje na Albânia em relação à religião, faz-nos pensar, ou seja, torna-se evidente que a fé nas várias religiões é ancestral. É verdade que a Constituição afirma que a Albânia é um país laico, como o é também Portugal e muitos outros países, mas a consagração da laicidade do Estado na Constituição não impede que a população tenha fé numa ou outra religião, como acontece na Albânia. Como é sabido, sob o regime de Enver Hoxha, as religiões foram perseguidas e muitos religiosos e religiosas foram mesmo passados pelas armas. O que é que isto tem a ver com o marxismo, uma filosofia humanista?
No primeiro Estado ateu do Mundo, “A gazeta Nendori anunciava com orgulho que todas as mesquitas e igrejas do país haviam sido demolidas ou se encontravam encerradas ao culto — 2169 no total, das quais 327 santuários católicos.” (1)
Veja-se o resultado do censo de 2011: (2)
Albanian census 2011 |
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Islamismo |
56,70% |
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Catolicismo |
10,03% |
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Ortodoxos |
6,75% |
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Bektashis (3) |
2,09% |
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Outros Cristãos |
0,14% |
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Outras religiões |
5,49% |
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Não declararam |
13,79% |
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Sem religião |
2,5% |
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Existirão, para além das quatro religiões tradicionais, mais de 240 grupos religiosos; no entanto, 63% dos albaneses consideram que a religião não tem um papel importante nas suas vidas. Mas daí até ao ateísmo declarado por Enver Hoxha vai uma grande diferença. Nesta pouca importância atribuída à religião por parte dos albaneses, terá tido importância a proibição das actividades religiosas nos anos 60 do século passado? (4)
Todos os males que a Albânia passou, ao que parece, podem ser atribuídos ao tempo do domínio do Partido Comunista; o guia albanês que nos acompanhou até ao penúltimo dia, sendo, portanto, ainda o guia no primeiro dia na Grécia, lembrava-nos isto a todo o momento, provavelmente por ter sido o período de limitação de liberdade mais próximo e por ser esta a propaganda que o governo quer ver difundida.
De facto, se atendermos aos Direitos Humanos, o governo de Enver Hoxha fez aprovar na Constituição de 1976 algumas cláusulas que limitavam o exercício das liberdades políticas e, quem ousasse pretender fazer uso dessas liberdades, logo seria considerado como sendo contrário à ordem estabelecida.
Apenas era aceite a informação divulgada pelo governo e nos órgãos que este controlava. A polícia secreta albanesa, Sigurimi, não respeitava a privacidade das pessoas, violava os seus lares e também os órgãos de comunicação, prendendo arbitrariamente quem entendesse.
Quando navegamos na internet e procuramos este tipo de informações, logo se lê um constante acrescento: os métodos utilizados nada ficam a dever aos métodos das polícias secretas da URSS ou da RDA. Não ponho em dúvida esta afirmação, mas será que os métodos da CIA, da Mossad e outras polícias secretas são diferentes? Claro, a CIA actua em nome do Bem e assim pode intervir para defesa do mundo ocidental, a única civilização que tem a benção de Deus —o que para mim é um problema dado ser ateu—, decidindo o assassínio de Allende e contribuir, a mando do defensor da civilização ocidental, o governo (seja ele qual for) dos USA, e impor o regime de Pinochet; a Mossad actua também em nome do Bem e em defesa do porta-aviões fixo que é o estado de Israel, suportado pelos USA. As polícias secretas da ex-URSS, agora Federação Russa, e da ex-RDA são (eram, neste último caso) o braço direito executor do Mal. Não estou, com isto, a querer defender estas últimas polícias secretas, mas apenas a dizer que são todas semelhantes nos objectivos e nos métodos utilizados.
Voltando à República da Albânia, no tempo de governo Enver Hoxha, os dissidentes albaneses eram colocados em campos de trabalhos forçados ou condenados à morte quando acusados de traição ou de sabotar a ditadura do proletariado. Foram milhares os assim condenados.
A paranóia do regime foi ao ponto de meter na prisão cidadãos que liam literatura ocidental, não autorizada na Albânia; a arte consentida era apenas a que, nos critérios governamentais, reflectia o chamado realismo socialista (as definições de arte de Estaline e de Andrei Jdanov, comissário de Estaline para a produção cultural e propaganda). Até as barbas foram proibidas, com o argumento de que eram anti-higiénicas, mas, na realidade, pretendia atingir os islamitas e os ortodoxos, mais uma forma de combater as religiões e fazer da Albânia um país ateu.
A justiça era uma farsa, o réu, sobretudo o acusado de crimes políticos, não tinha quaisquer direitos. Os familiares dos presos políticos, muitas vezes, também não escapavam a uma condenação.
Para se ter um carro, tinha de se obter prévia autorização, carro esse que nunca era considerado como propriedade privada.
Segundo as estatísticas referidas na internet, mais de 35.000 albaneses foram aprisionados ou enviados para campos de concentração, naturalmente para receberem a adequada edução definida pelo governo, e 6.000 foram executados entre 1944 e 1990 (Enver Hoxha faleceu em 1985 e o Partido Comunista ganhou ainda umas eleições após a sua morte), sendo estes números da responsabilidade do Instituto para a Integração de Ex-Presos Políticos da Albânia.
Numa colina de onde se tem uma vista sobre Tirana construíram o túmulo de Enver Hoxha. Mais tarde, já com o Partido Comunista apeado do poder, o governo do restabelecido capitalismo, o cemitério onde estava o seu túmulo passou a designar-se «Cemitério dos Mártires» —leia-se dos mártires de Enver Hoxha— após de ali retirarem os seus restos mortais, trasladando-os para um outro cemitério. No local onde era o seu túmulo, estão agora restos mortais de alguns desses mártires, túmulos estes que se estendem pelo cemitério conjuntamente com os restos mortais de combatentes que «deram a sua vida em defesa da pátria», a maioria deles na recente guerra do Kosovo.
Na cidade de Gjirokaster (antiga Ergiri), onde nasceu Enver Hoxha, o belíssimo castelo foi transformado no Museu do Armamento, dedicado à resistência albanesa durante a II Guerra Mundial, integrando muito armamento utilizado desde a independência do país em 1912, que até aí e durante 400 anos fazia parte do Império Otomano, assim como armamento utilizado até ao fim desta Guerra Mundial.
Neste Museu, chamou-me a atenção uma estátua gigante em homenagem aos partisans (guerrilheiros), ou seja, aos resistentes ao nazismo alemão e ao fascismo italiano.
Fotografia de AGM
Junto à estátua estão informações preciosas, que traduzo.
“Monumento do Poder Popular
(Bronze, 1964)
Odhise Paskali
(1903-1985)
Esta estátua de um guerrilheiro representa os combatentes da resistência que se opuseram à ocupação fascista italiana e nazista alemã da Albânia durante a Segunda Guerra Mundial. Os guerrilheiros foram homenageados por libertarem a Albânia das forças invasoras.
A ditadura comunista da Albânia encomendou muitas estátuas nacionalistas, como esta. Desta forma, o regime procurou identificar os seus objectivos e motivações com os dos guerrilheiros e obter apoio popular para o seu controlo do país.
Odise Paskali, conhecido como o fundador da escultura albanesa, produziu centenas de obras. Entre elas estão a estátua do lutador pela independência Çerçir Topulli na praça principal de Gjirokastra e a estátua-monumento de George Skanderberg que fica no centro de Tirana.
Fotografia: A estátua aqui no castelo é uma cópia. A versão original, denominada Monumento ao Poder Popular, foi colocada em Përmet em 1964 (Galeria de Artes Figurativas de Tirana)”
Fotografia de AGM
Também me chamou a atenção uma outra informação exposta no Museu, onde a fotografia de Enver Hoxha está danificada, que reproduzo abaixo. Ali se diz:
Fotografia de AGM
(Fotografei apenas o texto em inglês)
“e
Enver Hoxha
Enver Hoxha, o ditador comunista da Albânia de 1946 até à sua morte em 1985, é o filho mais famoso de Gjirokastra.
Nascido em Gjirokastra em 1908, Hoxha descobriu o marxismo ainda jovem estudante em Korça. Em 1930, foi estudar em França, onde se envolveu cada vez mais no Partido Comunista Francês. Rapidamente abandonou os estudos e voltou para a Albânia, ensinando em Korça até a invasão italiana em 1939.
Hoxha foi membro fundador do Partido Comunista Albanês em 1941 e tornou-se no seu Secretário-Geral em 1943. Durante a guerra, foi um dos líderes mais influentes dos guerrilheiros do Sul da Albânia, que lutavam contra os fascistas.
Depois da guerra, Hoxha tornou-se o líder indiscutível da Albânia e modelou o seu governo segundo as linhas estalinistas. Ele financiou o desenvolvimento industrial e agrícola do país através de uma série de alianças com a Iugoslávia, a União Soviética e a China. Foi o tipo de comunismo radical de Hoxha que acabou por colocá-lo em conflito com outros países comunistas; em 1961, ele cortou relações com a União Soviética e aliou o país à China até 1978. Seguiu-se uma “revolução cultural” ao estilo albanês, com a destruição de locais de culto e a colectivização generalizada da propriedade privada.
A oposição foi implacavelmente reprimida pelo regime comunista, cuja liderança detinha o poder cultivando uma atmosfera de medo e incerteza constantes, mesmo entre aqueles que lhe eram leais.
Milhares de pessoas foram mortas, presas, enviadas para o exílio interno ou para campos de trabalhos forçados pelos mais ligeiros “delitos”, mesmo aqueles cometidos por um membro da sua família ou conhecido.
A liderança política comunista usou o teatro da agressão externa – um medo muito exagerado – como uma força para a unidade interna e para justificar a repressão. O culto à personalidade de Enver Hoxha cresceu à medida que o país se tornou mais isolado e a sua liderança mais paranóica em relação às ameaças internas e externas. Hoxha publicou quase 50 volumes das suas obras e o seu nome adornou encostas, edifícios estatais, ruas e fábricas por toda a Albânia.”
Da leitura deste texto uma dúvida se instalou em mim: Afinal, o governo da Albânia, sob Enver Hoxha, foi todo negativo?
Hoxha como «partisan» em 1944
in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Enver_Hoxha
Lord Acton é muitas vezes invocado por uma frase que terá pronunciado: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus”.
Atentando na acção de Enver Hoxha, será que estamos perante dois homens contraditórios na sua acção? Será que ele foi um grande homem ou um homem mau?
Tácito disse: “A ambição de poder é a mais forte de todas as paixões”. E não posso deixar de invocar um dos «meus» filósofos, Maquiavel, que escreveu: “Dê poder a um homem e descobrirá quem realmente ele é”.
Uma outra questão se me impõe: não serão as pessoas que abusam do seu poder que ficam corrompidas? A forma como o poder se exerce é que determina se esse poder é positivo ou corrupto.
Analisemos.
Os países que tenham um poder político mais concentrado, como era o caso da Albânia sob a direcção de Enver Hoxha, tenderá a ser mais corrupto —e não estou aqui necessariamente a referir-me à concepção habitual de corrupção, ou seja, à apropriação de meios que tornem o político financeiramente mais rico—, pois este político, um ditador, está fora de qualquer escrutínio por parte da justiça, justiça essa que lhe está subjugada.
No entanto, da leitura daquele último texto recolhido no Museu do Armamento na sua cidade natal, uma dúvida se instalou em mim: foi tudo negativo na governação de Enver Hoxha? Há exemplos de boas lideranças que, ao permanecerem no poder por longo tempo sem oposição que os trave, deslumbram-se e passam a considerar-se omnipotentes, as regras aplicam-se aos outros e não a eles. Terá sido este o caso de Enver Hoxha?
Vejamos, voltando um pouco atrás, ou seja, à resistência albanesa:
Os nazis, no princípio de 1944, iniciaram uma ofensiva que teve pela frente os guerrilheiros comunistas albaneses, os quais se reagruparam e conseguiram ganhar o controlo do Sul da Albânia em Abril de 1944. No mês seguinte, a Frente de Libertação Nacional, num congresso em Përmet, elegeu um Conselho Antifascista de Libertação Nacional, que tinha a incumbência de actuar como governo provisório da Albânia, sendo Enver Hoxha escolhido para presidente do respectivo comité executivo e comandante supremo do Exército de Libertação Nacional.
Em 29 de Novembro de 1944, as forças da resistência albanesa libertaram Escodra, ficando esta a ser a data oficial de libertação do país.
Foi constituído um governo provisório comunista em Outubro de 1944, com Enver Hoxha como primeiro-ministro até à realização de eleições, o que aconteceu em Dezembro de 1945. A Frente Democrática, que sucedeu à Frente de Libertação Nacional, conseguiu 93% dos votos. (5)
Convocaram-se os Tribunais para julgar os criminosos de guerra, considerados inimigos do povo. Presidiu aos julgamentos Koçi Xoxe.
Como acima foi referido, em Novembro de 1941 foi fundado o Partido Comunista, designado em 1948 Partido do Trabalho da Albânia, sendo Hoxha um dos sete membros do Comité Central. Em Setembro de 1942, fundou-se a Frente de Libertação Nacional, pois havia que unir todos os antifascistas e antinazistas para uma luta unida em defesa da Albânia, devendo aqui ser lembrado que a Albânia, país ocupado pelas potências ocidentais do Eixo, foi a única nação que se libertou da ocupação sem o auxílio de qualquer das grandes potências que constituíam os Aliados.
Enver Hoxha, em Março de 1943, é nomeado primeiro secretário na primeira Conferência Nacional do Partido Comunista.
Em Julho de 1943 os guerrilheiros albaneses organizaram-se em unidades regulares constituindo o Exército Albanês de Libertação Nacional, tendo como comandante Spiro Moisiu e Enver Hoxha como comissário político.
Havia cooperação com os guerrilheiros iugoslavos, mas a comunicação entre eles limitou-se a cartas onde os iugoslavos tentavam ajudar a planear ataques ao invasor, mas os albaneses, quando chegavam as cartas, já tinham elaborado os seus planos, que eram submetidos à aprovação do Exército de Libertação Nacional, sem que os iugoslavos fossem consultados.
Havia uma Frente Nacional, anticomunista e antifascista, a Balli Kombëtar, com quem o Partido Comunista se reuniu para unirem forças contra os fascistas italianos. Para que o acordo fosse concretizado, foi aprovado um plano para a constituição da Grande Albânia, nela se incluindo o Kosovo, que fazia parte da Iugoslávia, e a Camëria, que era território grego. As dificuldades para o cumprimento de tal plano são evidentes.
Evidentemente, Josip Broz Tito tinha de aparecer e marcar uma posição, com a capacidade que lhe foi sempre reconhecida e de que Estaline nunca terá gostado: segundo Hoxha, Tito concordava que o Kosovo era albanês, mas a Sérvia, em cujo território o Kosovo estava incluído, não estava de acordo, o que tornou inviável o plano e, consequentemente, os comunistas albaneses recusaram a ideia da Grande Albânia, o que colocou o Balli Kombëtar contra eles, ao ponto de passarem a apoiar os nazis, o que teve como consequência ficarem, junto dos albaneses, entre eles muitos membros do Balli Kombëtar, completamente fora de qualquer apoio, passando a considerar-se os comunistas, juntamente com muitos outros patriotas, como os únicos que, de facto, lutavam pela libertação da Albânia.
Como me parece evidente, todos estes acontecimentos jogaram a favor de Enver Hoxha.
Expulsos os ocupantes, muitos guerrilheiros albaneses, naturalmente imbuídos de internacionalismo, passaram a fronteira com a Iugoslávia e foram lutar com os guerrilheiros de Tito e com o exército vermelho soviético contra a ocupação alemã, o que levou Tito, mais tarde, a agradecer a Hoxha o auxílio dos albaneses durante a guerra pela libertação nacional da Iugoslávia. Mais um ponto a favor de Enver Hoxha, ou seja, os apoios para a liderança eram fortes.
Começo da Liderança de Enver Hoxha
Hoxha, para além da admiração por Estaline, considerava-se um marxista-leninista, mas o tempo da sua governação mostrou que tinha do marxismo-leninismo, assim como do revisionismo, uma concepção muito própria, à qual se manteve fiel, mostrando-se sempre coerente com essa concepção.
Vejamos algumas das medidas positivas tomadas pela governação de Enver Hoxha:
Em Agosto de 1945 fez aprovar a Lei da Reforma Agrária, o que reduziu a posse da terra por parte dos latifundiários de 52% para 16%;
A modernização da economia que empreendeu teve resultados muito positivos na industrialização do país;
A educação, as artes e a cultura mereceram a sua atenção, dando o seu necessário contributo ao aumento do nível de vida dos albaneses;
A taxa de analfabetismo caiu de 90-95% para 30% nas áreas rurais entre 1939 e 1950; em 1985 era já igual à dos USA;
Em 1957 é restabelecida a Universidade Estatal de Tirana, a primeira deste tipo na Albânia;
O costume medieval «rixa de sangue» (giakmarria) foi proibido;
A malária, uma doença grave na Albânia, ao ponto de ser o país com maior número de casos na Europa, foi combatida pelos planos de saúde implantados e pela drenagem dos pântanos, concluindo-se em 1985 que, nos últimos 20 anos, nenhum caso havia sido registado;
O mesmo êxito foi conseguido no combate à sífilis.
Outra das acções positivas de Enver Hoxha tem a ver com o direito das mulheres.
A Albânia era uma sociedade patriarcal, com um código, o Código de Lekë, que determinava o que deveria ser o comportamento das mulheres. Este código dizia, a dado passo: «Uma mulher é conhecida como uma saca, feita para durar apenas enquanto viver na casa do seu marido»
As mulheres não tinham direito a herdar dos seus pais, como não tinham direito a obter divórcio. Se a mulher fugisse ao marido, os pais dela eram obrigados a devolver a filha fugida, pois, se o não fizessem, era a desonra seguida, normalmente, de uma rixa de sangue por gerações.
Os empregos que conseguiam nos vários sectores da economia ─apenas 4% das mulheres─ não passavam de trabalho servil, dado que não tinham habilitações académicas que lhes permitissem ocupar postos de nível superior.
As referências que acabo de fazer são já bastantes para se aquilatar da situação da mulher na Albânia antes do governo de Enver Hoxha.
Em 1970, já 38% das mulheres tinham ocupação nos vários sectores da economia e, em 1982, essa percentagem subiu para 46%.
Durante a Revolução Cultural e Ideológica, as mulheres já tinham capacidade para todos os tipos de trabalho, incluindo postos governamentais, de tal modo que, em 1985, o Conselho do Povo tinha, entre os seus membros, 40,7% das vagas ocupadas por mulheres e 30,4% da Assembleia Popular, sendo resultado do acesso ao ensino que as mulheres tiveram, informando as estatísticas de que, em 1978, o número de mulheres a frequentar a instrução primária era 15,1 vezes maior do que em 1938 e, no ensino secundário, esse número era 175,7 vezes maior.
Disse Enver Hoxha em 1967: «O Partido e o país inteiro deveria arremessar ao fogo e quebrar o pescoço de qualquer pessoa que ousasse violar o sagrado decreto do Partido em defesa dos direitos das mulheres.»
Quem não concorda com tais palavras? Como foi possível mudar tanto? Mais à frente, talvez eu consiga encontrar algumas explicações, tentarei, pelo menos, mas nunca uma justificação.
Volto a mais acções positivas do governo comunista.
Em 1960 deu-se início à electrificação do país, planeada para terminar em 1985; no entanto, no dia 25 de Outubro de 1970, a Albânia tornou-se no primeiro país totalmente electrificado.
O sistema de saúde teve melhorias significativas, com serviços gratuitos estendidos a todo o país. Em 1960 havia um médico por cada 3.360 habitantes; em 1978, havia já um médico por cada 687 habitantes, apesar do aumento da população, 3,5 vezes maior do que a média da população europeia. A mortalidade, neste mesmo ano, era 37% mais baixa do que a média europeia e a esperança de vida passou de 38 anos em 1938 para 69 anos em 1978. (6)
O aumento da taxa de natalidade foi outra das suas preocupações, recompensando as mães que dessem à luz um número de filhos superior à média com um prémio monetário e o título de «Mãe Heroína» (Nënë Heroinë, em albanês). O aborto não era proibido, tendo uma comissão médica de se pronunciar, mas também não era incentivado, a não ser que a mãe corresse perigo de vida. Com tal política, a população da Albânia passou de 1 milhão de habitantes em 1944 para quase 3 milhões em 1985.
A ferrovia albanesa nasceu também de uma decisão de Enver Hoxha, o qual ambicionava ter uma rede de ferrovia, iniciando-se a sua construção 1947, o que não era nada fácil, para além de ser uma construção bem dispendiosa, dado que a Albânia é um país de montanhas.
Hoje, a Albânia tem a funcionar uma curta linha entre Durrës e Elbasan, na qual a velocidade que se consegue não ultrapassa os 40 km/hora, embora haja planos para a recuperação de algumas linhas com apoio da União Europeia. (7)
Entretanto, os que já se julgavam (ou almejavam ser) senhores do mundo, USA e Reino Unido, estavam a treinar refugiados e emigrantes albaneses em Chipre, em Malta e na República Federal da Alemanha, em favor do ex-rei Zog —mais à frente falarei desta personagem—, acabando por formar algumas unidades que se infiltraram na Albânia em 1950 e 1952, os quais acabaram mortos ou capturados pela segurança albanesa, graças às informações do célebre agente duplo Kim Philby, que denunciou o plano a Moscovo.
Esta tentativa de derrubar o governo comunista albanês foi concebida após a reivindicação, por parte da Albânia, da jurisdição do canal entre a ilha de Corfu, pertencente à Grécia, e o continente albanês, a que se seguiu um grave incidente, quando a Grã-Bretanha fez navegar quatro dos seus contratorpedeiros neste canal e dois deles embateram em minas colocadas pela Albânia, o que provocou a morte a 44 tripulantes (22 de Outubro de 1946).
Mas o conflito com o Ocidente já vinha acontecendo desde que o governo comunista da Albânia não permitiu eleições livres em Dezembro de 1945. Os USA e a Grã-Bretanha opuseram-se à entrada da Albânia na ONU.
Enver Hoxha tinha outras preocupações. Os USA e a Grã-Bretanha apoiavam as forças anticomunistas na guerra civil na Grécia e os USA apoiavam as pretensões da Grécia em anexar parte do território Sul da Albânia.
Lembre-se, já agora, que nem os USA nem a Grã-Bretanha ou outros países ocidentais exigiram eleições livres em Portugal e Espanha, bem pelo contrário, acabando por proteger o nacional-salazarismo e o fascismo franquista.
Da amizade com a Iugoslávia ao corte de relações
As relações com a Iugoslávia pareciam boas, até com este país a reconhecer a sua dívida pelo auxílio dado pelos albaneses na luta contra os ocupantes, mas as ambições de Tito, para deixar os pormenores e ir ao fundo da questão, passavam por integrar a Albânia na Iugoslávia, justificando que a Albânia era um país fraco e, portanto, incapaz de se manter independente. O Tratado de Amizade, Cooperação e Ajuda Mútua, acordado em 1946, resultava altamente favorável para a Iugoslávia.
Nós [Albânia] tínhamos que produzir para os iugoslavos toda a matéria prima de que eles necessitavam. Essa matéria prima deveria ser exportada para as metrópoles da Iugoslávia, para lá ser processada em fábricas iugoslavas. O mesmo se aplicava à produção de algodão e outros produtos industriais, assim como óleo, betume, asfalto, cromo, etc. A Iugoslávia abasteceria sua ‘colônia’, a Albânia, com bens de consumo exorbitantemente caros, incluindo até mesmo itens como agulhas e filamentos, e nos forneceria óleo e petróleo, bem como vidro para as lâmpadas nas quais nós queimamos o combustível extraído do nosso subsolo, processado na Iugoslávia e revendido para nós em altos preços… O objetivo dos iugoslavos era, dessa maneira, impedir que o nosso país desenvolvesse sua indústria ou sua classe trabalhadora e fazer dele dependente para sempre da Iugoslávia.
— Enver Hoxha (5)
Os albaneses começaram a pensar, no que se referia à economia albanesa, que tudo era decidido na Iugoslávia e os economistas albaneses afirmavam que a relação entre a Albânia e a Iugoslávia era de exploração por parte desta. O primeiro problema já havia surgido quando a moeda albanesa, o lek, teve a sua reavaliação nos termos do dinar iugoslavo. O que ia sendo verificado na relação entre os dois países levou a que os albaneses pensassem que a Iugoslávia pretendia arruinar a economia albanesa e criar dissensões dentro da Albânia. Em meados de 1947, o partido de Tito, senhor do poder na Iugoslávia, iniciou uma campanha para fazer de Hoxha um político individualista e antimarxista.
A agravar a situação, Estaline avisou Enver Hoxha de que a Iugoslávia pretendia anexar a Albânia. Depois, quando a Albânia acordou adquirir maquinaria agrícola à União Soviética, a Iugoslávia afirmou que a Albânia necessitava do acordo prévio da Iugoslávia para fazer acordos com outros países.
Convém não esquecer que a posição de Estaline nem sempre foi esta, dado que, antes, terá dito a um alto dirigente comunista da Iugoslávia, Milovan Djilas, que a Iugoslávia deveria «engolir» a Albânia.
Claro que a Iugoslávia tinha apoio entre alguns dirigentes albaneses, sendo Koçi Xoxe um deles, mas os apoios de Hoxha eram superiores e, quando a Iugoslávia cortou relações com a Iugoslávia, Hoxha ficou ainda mais forte, seguindo-se a expulsão dos conselheiros técnicos iugoslavos da Albânia, no dia 1 de Julho de 1948.
Koçi Xoxe foi expulso do partido e, em 13 de Junho de 1949, foi fuzilado. Há uma outra referência a informar de que ele se suicidou.
Da amizade com a União Soviética ao corte de relações
O corte de relações com a Iugoslávia aproximou ainda mais a Albânia da União Soviética.
Enver Hoxha queria desenvolver a indústria da Albânia e o auxílio da União Soviética, no montante de 200 milhões de dólares entre 1948 e 1960, para expandir tecnicamente a Albânia e aumentar a sua infra-estrutura, surgiram no melhor momento.
Em Fevereiro de 1949, a Albânia foi admitida no COMECON, tornando-se numa força pró-soviética no Mar Adriático, culminando com a construção de uma base submarina na ilha de Sazan (ou Sazanit) situada à entrada da baía de Vlorë, no Mar Jónico, ilha esta que foi devolvida pela Itália à Albânia, em 10 de Fevereiro de 1947, de acordo com os tratados assinados no fim da II Guerra Mundial, o que não deixou de ser uma resposta à presença da Sexta Frota dos USA, que actua principalmente no Mar Mediterrâneo, mas também opera no Oceano Atlântico ocidental e nos mares que circundam a África (no Oceano Índico até ao Quénia) e nos mares do Norte da Europa.
Estaline, que para Enver Hoxha era o «amado pai» e o «grande libertador» a quem o povo tudo devia, morreu no dia 5 de Março de 1953. Houve, naturalmente, luto nacional por Estaline na Albânia.
Com o sucessor de Estaline, Nikita Khrushchev, o auxílio soviético começou a diminuir, para além do governo deste querer que a Albânia passasse a desenvolver o sector agrícola, o que ia contra as pretensões de Enver Hoxha de desenvolver o sector industrial.
Outra das decisões soviéticas foi não expulsar a Iugoslávia do bloco comunista, o começar a aceitar em várias declarações o policentrismo de Palmiro Togliatti, ou seja, que o socialismo só funcionaria se cada partido pudesse desenvolver-se de forma autónoma, respeitando as tradições e aspirações de cada povo, o que obrigava à criação de vários centros autónomos de direcção, o que não poderia ser aceite por um estalinista como Enver Hoxha e que, para agravar a situação, nem sequer foi ouvido para estas directrizes.
Não entrando eu em mais pormenores das divergências, refiro o mais grave para Hoxha do rumo empreendido por Khrushchev, que é a condenação do culto de personalidade à volta de Estaline no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, a que acrescenta vários erros de Estaline e, gravíssimo para Hoxha, o anúncio da nova teoria da coexistência pacífica. Como é que um marxista-leninista, estalinista, poderia aceitar tais directrizes? Para Enver Hoxha isto significava o abandono do que era fundamental para um socialista, ou seja, do internacionalismo proletário, significava para ele a aprovação do revisionismo do que até aí era tido como fundamental, isto é, do marxismo-leninismo, uma verdadeira traição ao movimento comunista.
A Albânia não era considerada importante entre as nações comunistas, ao ponto de nem sequer ter sido convidada para a reunião que acabaria com a fundação do Cominform em 1947, o que Enver Hoxha não terá esquecido.
Num discurso que viria a proferir em 16 de Novembro de 1960, na Conferência dos 81 Partidos Comunistas e Operários em Moscovo, disse Enver Hoxha a dado passo: «Até ao presente momento, nenhum proletariado e nenhum Partido Comunista ou Operário tomou o poder abstendo-se do derramamento de sangue ou do uso da violência. Alguns camaradas parecem encontrar-se divorciados da realidade, quando alegam que a tomada do poder se deu sem o necessário derramamento de sangue, esquecendo-se de que, também por eles, o glorioso Exército Vermelho derramou rios de sangue, durante a Segunda Grande Guerra. No que diz respeito a esta questão, o nosso Partido é da opinião de que devemos preparar-nos para todas as possibilidades e fazê-lo bem, especialmente no tocante à tomada do poder mediante a violência, posto que, se bem nos prepararmos neste sentido, também há possibilidades de termos maior probabilidade de sucesso em diversas conjunturas.»
Um homem que assim fala não pode aceitar a coexistência pacífica proposta por Nikita Khrushchev.
A unidade no Partido do Trabalho da Albânia começou a perder-se já a partir de um encontro das suas delegações realizado em Abril de 1956, verificando-se que as propostas vindas da URSS começavam a ter audição entre os seus membros.
Hoxha conseguiu a aprovação de uma resolução que lhe foi favorável e os que contra a sua concepção se pronunciaram foram expulsos do partido.
É então que Enver Hoxha visita a China e encontra-se com Mao Tsé-Tung, portanto no início da ruptura sino-soviética, aumentando assim as relações entre os dois países e, consequentemente, o aumento do auxílio da China à Albânia.
As relações Albânia-União Soviética foram-se deteriorando, ao ponto de Nikita Khrushchev ter utilizado palavras de Dolores Ibarrúri, quando esta afirmou «que Hoxha era como um cão que morde a mão que o alimenta.»
Há depois um plano soviético para derrubar o governo albanês, que foi descoberto.
No IV Congresso do Partido do Trabalho da Albânia, acontecido entre 13 e 20 de Fevereiro de 1961, a União Soviética foi severamente criticada e a China louvada. No mês seguinte, a Albânia não foi convidada para o encontro entre os países do Pacto de Varsóvia ─deve aqui lembrar-se que a Albânia tinha sido um dos fundadores do Pacto em 1955─, em Abril deu-se início à retirada dos técnicos soviéticos da Albânia e, em Maio, também dos militares, embora a URSS tenha deixado na Albânia vários equipamentos militares, incluindo 4 submarinos.
Em 7 de Novembro desse mesmo ano, Hoxha classifica Khrushchev como revisionista e antimarxista, o que Mao também havia feito, e, quatro dias depois, a União Soviética e os outros membros do Pacto de Varsóvia cortaram relações com a Albânia, escusando-me eu aqui a referir todas as peripécias. A ruptura seria agora inevitável e a Albânia caminhava para o isolamento total; por enquanto, ainda tinha o apoio da China.
As semelhanças com as práticas estalinistas acentuaram-se, incluindo o culto da personalidade, com Hoxha a ter opiniões sobre tudo e mais alguma coisa e até com os manuais escolares a terem citações suas sobre a matéria tratada no manual, fosse ela qual fosse.
(continua)
Lagos, 10 a 19 de Setembro de 2024
Revisão, Portela (de Sacavém), 17 a 20 de Outubro de 2024
NOTAS
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in: Ronsac (Direcção), Charles, O Livro Negro do Comunismo, Quetzal Editores, Lisboa, 1998, pg. 463;
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Dados sobre a religião in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Religião_na_Albânia;
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A Ordem Bektashi ou Bektashismo é uma ordem mística sufi islâmica originada no Império Otomano do século XIII. É nomeada em homenagem ao santo Haji Bektash Veli. A comunidade Bektashian é atualmente liderada por Baba Mondi, seu oitavo Bektashi Dedebaba e sediada em Tirana, Albânia (in: https://en.wikipedia.org/wiki/Bektashi_Order);
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ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_de_Libertação_Nacional_da_Albânia;
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in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Enver_Hoxha;
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Estes dados sobre a saúde são retirados de um discurso, em 28 de Novembro de 1979, de Mehmet Ismail Shehu Dompieri, membro do Partido Comunista da Albânia, na sua qualidade de primeiro-ministro albanês, cargo que exerceu de 1954 a 1981;
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Veja-se https:// http://www.publico.pt/2024/09/15/mundo/reportagem/ultimo-comboio-albania-2103447.
Bibliografia
Brown, Archie, Ascensão e Queda do Comunismo, Publicações D. Quixote, Alfragide, Novembro de 2010;
https://pt.wikipedia.org/wiki/Enver_Hoxha;
https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento_de_Libertação_Nacional_da_Albânia;
https://pt.wikipedia.org/wiki/Albânia;
https://pt.wikipedia.org/wiki/Religião_na_Albânia;
https://pt.wikipedia.org/wiki/República_Popular_Socialista_da_Albânia;
https://brasilescola.uol.com.br/geografia/albania.htm
https://www.esquerda.net/artigo/albania-socialistas-obtem-terceira-vitoria-consecutiva/74139.





