(A nossa amiga e grande pianista Nelly Santos Leite, é madrinha do Manel Cruz que ontem festejou o seu 50º aniversário. Ao remexer num velho gavetão de sua casa, deu com um texto de Manuel Cruz, muito antigo, da sua juventude, escrito muitos anos antes de ele ser o Manel Cruz. Emocionada com a beleza do texto e com a coincidência deste achado e do aniversário, correu até nós dizendo que tinha encontrado um tesouro. Na realidade, trata-se de um belíssimo texto que eu li a toda a família na festa de anos, como prenda surpresa.. O Manel mal se lembrava. Como me parece ser muito bonito e de um elevado estilo metafórico-literário para um rapazinho tão jovem, resolvi publicá-lo. Espero que me deem razão).
AMARO
Amaro era amargo como a amêndoa que nos mente até à boca. Os habitantes do bagaço diziam que era um velho com corpo de criança. Era mudo de afagos, não tinha presente. As velhas, pecando de ternura, debruçavam o útero vazio nas janelas do domingo e adotavam Amaro em pensamento. Filho da praça, do sol poente, dos carnavais remendados e da taberna dorida, nasceu sem dia e sem mãe, nos lábios do rio em Portovento.
Era um sítio triste, desistido da vida. A história do local afogara-se numa qualquer cerveja, sem luta, sem bracejo. À noite espalhavam-se as vidas coçadas por cima das mesas, em jeito de anedota, e ali se vomitava o riso horas a fio. Imitavam a alegria, paginavam o nada e a desgraça, e com o lençol da noite aconchegavam os ossos da memória. Todos eles eram ocos de esperança, mas só o Amaro era amargo, amargo como casca de laranja.
Portovento já é cidade! Gritava o povo grávido de orgulho. O Presidente da Câmara desceu à praça e à terra com o comovente discurso encaixado na língua. Com o seu fato limpo, de bigode colado ao buço, a ilustre figura pisou o degrau que fica entre o céu e a ralé, e na comoção da cebola brava besuntou o povo de promessas. Falou de progresso como quem põe um morango em cima de um bolo seco. Era o futuro a adivinhar-se, era Portovento a deixar de ser presente, era Deus a dar vida a uma pedra.
As manhãs em Portovento tinham mordaça, e o rio comia as falas às gaivotas. De madrugada, Amaro descia ao cais, embrulhado numa manta de lixo. Sentava-se a um palmo da água e ali ficava, benzendo os barcos com o baloiçar das pernas. Quem lhe dava de comer era a rosa Pada, Rosa da parte da mãe, Pada da parte do pão. Era gorda como um porco e esganava a cintura com uma fita de cabedal, presente de um amante marroquino. Era escancarada de boca, mas tinha um coração de carne. Às onze horas em ponto escorregava-lhe um prato para a soleira, silencioso de aveia, apetitoso de fome.
Chegou o Outono das tardes grisalhas, dos dias rasteiros, suicidam-se as folhas, enroscam-se os amantes. O vento traz com ele retratos mudos. A tarde soltou um suspiro que se alojou em Portovento por debaixo da sua blusa de nevoeiro. Com o soltar do tempo, a cidade enchera-se de prédios, carros e homens fardados de princípios. Amaro observou os feiticeiros da desdita, no orgulho coxo de quebrar os ossos à saudade. Assistiu, impotente, ao apagar das marcas, ao desatar dos laços, ao desbotar do sangue. Certa manhã, sem dia e sem mãe, entregou-se ao rio como um barco, dançou uma valsa à superfície e desnasceu docemente.
Manuel Cruz


