SINAIS DE FOGO – OS TAVEIRAS DO “CERCO” – por Soares Novais

 

O senhor Taveira exerceu a profissão de carteiro na segunda metade do século XX. Entregando cartas e encomendas a habitantes do Bairro da Sé do Porto, do “Bonfim” e das “Fontaínhas”. Em dias de canícula e em dias de bater o dente. Meão de altura e entroncado, o carteiro Taveira foi cidadão respeitado pelos proletários da Sé e pelos burgueses das casas apalaçadas da Avenida Camilo e da Avenida Rodrigues de Freitas.

A família do senhor Taveira vivia numa pequeníssima casa de uma “ilha” da Rua das Fontaínhas. Sem as minímas condições de habitabilidade. A humidade escorria pela suas paredes de saibro e apenas havia uma  “latrina” para todos os habitantes da “ilha”. Os “Taveiras”, tal como todos os outros habitantes das “ilhas” da cidade, eram gente pobre. Condenada a viver em condições precárias e insalubres.

Um dia a Câmara obrigou-os a deixar a sua “ilha”, os vizinhos e amigos de uma vida. E num abrir e fechar de olhos, viram-se num dos 804 fogos do recém construído Bairro do Cerco do Porto. Corria o ano de 1963. A senhora Ana e o senhor Taveira entristeceram de morte; e os miúdos deixaram de ter por perto as amigas e os amigos das “Fontainhas” com quem partilhavam brincadeiras e sonhos.

O Bairro do Cerco do Porto transformou-se, rapidamente, num gueto multiétnico. E os seus habitantes olhados como marginais. Os netos do senhor Taveira também foram vítimas desse preconceito. Ao longo das suas vidas, raros foram aqueles que lhes deram trabalho certo e com direitos. Tal qual aconteceu a muitos dos seus vizinhos. Lamentavelmente, 50 anos depois do “25 de Abril” há milhares cidadãos sem direito a ter uma vida justa. E sem justiça não há paz!

Nota final: A fracassada “manif” do Chega não foi para apoiar a Polícia. O seu objectivo foi outro: servir-se da Polícia. E para Ventura e o deputado Pinto dizerem-se ameçados pelas leis de um Estado que, fazendo tábua rasa da sua Constituição, lhes permite odiar migrantes, portugueses negros e de etnia cigana.

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