As sílabas marginais/PAPOILA/Nelson Ferraz

 

PAPOILA

as notícias seguem as mesmas iguais repetidas

e sem palavras transparentes pintam de medo

todos os céus de quem acorda devagar.

anunciam números economias e turismos em série.

as notícias descobrem paraísos limpos indefesos

fáceis de invadir por dinheiros curiosos.

as notícias desconhecem aquilo que se passa

no coração da alma humana das pessoas arregaladas

e da sua casa grande que adoece triste.

as árvores uivam pedras antes de caírem ramos a doer

esganadas por decretos combustíveis e fortunas cinzentas.

os ponteiros murchos do relógio tentam em vão

furar o peito cardíaco dos algarismos.

o tempo é um andarilho sujo que se arrasta vendado

entre a névoa míope de governos com demências legais.

a cidade é um crânio farpado.

estranhos com línguas pálidas pisam as feridas inflamadas do alcatrão

enquanto arrotam a fumo e a cerveja barata.

as ruas são fêmeas encolhidas pelo ruído surdo que faísca noite.

velhos com dentaduras antigas cavalgam a insónia

e de madrugada tentam morder todos os guindastes.

marés plásticas depositam peixes nas velhas praias

onde tristes bandeiras negras sacodem o fóssil do vento limpo.

o ventre da montanha é um ninho em carne viva

onde máquinas doentes escavam lixos novos

sob um céu de estrelas moribundas.

alheio a catástrofes ou talvez não um gato preto e branco

observa com uma atenção divina a vida frágil de uma pequena papoila

emergindo solitária de um chão partido.

mas disto não há a mais pequena notícia.

 

 

 

 

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