PAPOILA
as notícias seguem as mesmas iguais repetidas
e sem palavras transparentes pintam de medo
todos os céus de quem acorda devagar.
anunciam números economias e turismos em série.
as notícias descobrem paraísos limpos indefesos
fáceis de invadir por dinheiros curiosos.
as notícias desconhecem aquilo que se passa
no coração da alma humana das pessoas arregaladas
e da sua casa grande que adoece triste.
as árvores uivam pedras antes de caírem ramos a doer
esganadas por decretos combustíveis e fortunas cinzentas.
os ponteiros murchos do relógio tentam em vão
furar o peito cardíaco dos algarismos.
o tempo é um andarilho sujo que se arrasta vendado
entre a névoa míope de governos com demências legais.
a cidade é um crânio farpado.
estranhos com línguas pálidas pisam as feridas inflamadas do alcatrão
enquanto arrotam a fumo e a cerveja barata.
as ruas são fêmeas encolhidas pelo ruído surdo que faísca noite.
velhos com dentaduras antigas cavalgam a insónia
e de madrugada tentam morder todos os guindastes.
marés plásticas depositam peixes nas velhas praias
onde tristes bandeiras negras sacodem o fóssil do vento limpo.
o ventre da montanha é um ninho em carne viva
onde máquinas doentes escavam lixos novos
sob um céu de estrelas moribundas.
alheio a catástrofes ou talvez não um gato preto e branco
observa com uma atenção divina a vida frágil de uma pequena papoila
emergindo solitária de um chão partido.
mas disto não há a mais pequena notícia.

