A Guerra na Ucrânia — Por que Putin deveria ignorar a patética provocação dos ATACMS de Biden. Por Finian Cunningham

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Por que Putin deveria ignorar a patética provocação dos ATACMS de Biden

 Por Finian Cunningham

Publicado por  em 18 de Novembro de 2024 (original aqui)

 

 

O gesto de provocação é mais simbólico do que uma ameaça substantiva. A Rússia deveria ignorá-lo e concentrar-se na demolição do regime por procuração da NATO em Kiev.

 

No que diz respeito às provocações, a mais recente do presidente Joe Biden ao permitir o uso de ataques de mísseis de longo alcance contra a Rússia é certamente audacioso. Mas, em última análise, na prática, é um gesto patético de um presidente incapaz que não terá qualquer impacto na vitória militar antecipada da Rússia contra o regime de Kiev armado pela NATO.

A relatada decisão de Biden é uma aposta desesperada de última hora para incitar uma escalada com a Rússia e sabotar os planos futuros do presidente eleito Trump para acabar com o conflito na Ucrânia. O movimento de Biden é imprudente, repreensível e odioso. Mas não lhe deve ser dada qualquer credibilidade como uma ameaça séria.

A Rússia seria melhor ignorá-lo. É claro que a Rússia tem de se defender contra qualquer crescente ameaça potencial ao seu território que tais armas possam representar. No entanto, Moscovo deve continuar a exercer a restrição estratégica pela qual o Presidente Putin é conhecido, e não retaliar à provocação.

Compreensivelmente, os políticos e os meios de comunicação russos reagiram furiosamente aos relatos dos meios de comunicação dos EUA de que Biden deu aos militares ucranianos luz verde para implantar ATACMS de fabricação americana para atacar profundamente o território russo. Os mísseis supersónicos Mach-3 lançados desde o solo têm um alcance de até 300 quilómetros.

A audácia e a arrogância da classe dominante americana não conhecem limites. Impuseram ao máximo sanções à Rússia (sem sucesso, lembre-se), armaram um regime neonazi em Kiev, mataram civis no território russo da Crimeia já com ATACMS, e assim por diante. Agora Biden está a aumentar a capacidade de assalto profundo à Rússia.

Há dois meses, o presidente russo, Vladimir Putin, advertiu que, se os EUA tomassem tal medida, isso alteraria drasticamente a própria essência do conflito na Ucrânia, passando Moscovo a ver os Estados Unidos e seus parceiros da NATO como “participantes diretos” numa guerra contra a Rússia.

O raciocínio de Putin estava correcto. A implantação de ATACMS e outros sofisticados mísseis de longo alcance contra a Rússia significaria, inevitavelmente, que o pessoal americano e da NATO estavam a tripular e manejar estes sistemas. Os militares ucranianos – destroçados com deserções, em desordem e sofrendo de moral pobre – não seriam capazes de atacar e operar tais sistemas. A utilização de ATACMS, ou JASSMS lançados por via aérea, e dos mísseis de cruzeiro Storm Shadow e Scalp britânicos e franceses para atingir a Rússia equivale ao envolvimento directo da NATO numa guerra contra a Rússia.

A implicação do que Putin disse foi grave e potencialmente catastrófica. Se os estados ocidentais deram esse passo, o resultado poderia significar uma guerra total entre potências nucleares.

Quando Putin emitiu o seu forte aviso em setembro, Biden e outros líderes ocidentais, nomeadamente o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, pareceram na altura prestar-lhe atenção e recuar nas intenções para permitir que o regime ucraniano usasse mísseis de longo alcance contra a Rússia.

Agora, no entanto, Biden mudou para finalmente dar a sua aprovação, de acordo com as notícias. O estilo de responsáveis anónimos dos EUA que informam o New York Times, o Washington Post e a Associated Press tem todas as características de uma operação psicológica orquestrada.

O que mudou?

Simples. Donald Trump venceu a eleição presidencial dos EUA em 5 de novembro com uma vitória retumbante em desafio ao establishment político que queria que Kamala Harris vencesse. O presidente Republicano eleito assume o cargo em dois meses, quando for empossado em 20 de Janeiro. Trump disse repetidamente que negociará o fim do conflito de quase três anos na Ucrânia, que viu os EUA e os seus aliados da NATO financiarem um regime corrupto na Ucrânia no valor de 200 mil milhões de dólares.

E, no entanto, depois de todo esse obsceno desperdício de dinheiro público ocidental para inflar a máquina de guerra, a Rússia vai derrotar o procurador da NATO. Os riscos para o futuro da NATO e para a máquina de guerra imperialista não poderiam ser maiores.

O impressionante mandato eleitoral de Trump sugere que o público americano quer que a belicosidade dos EUA pare e que seja dada prioridade às suas crescentes necessidades económicas e sociais.

Sob Trump, o esquema de guerra poderia muito bem ter acabado. A designação que fez na semana passada de Tulsi Gabbard – um aberto crítico da guerra por procuração da NATO na Ucrânia – como seu Diretor de Inteligência Nacional é um sinal importante das suas ousadas intenções de negociar uma solução diplomática para o conflito. Isso significa o fim do sangrento dinheiro que flui para os cofres do complexo militar-industrial ocidental e de Wall Street. Biden e a candidata democrata Kamala Harris eram os fantoches do esquema de guerra. Para serem bem comportados, eles expressaram uma russofobia sem fim, impossibilitando as negociações com Moscovo e juraram manter o conflito na Ucrânia “pelo tempo que fosse necessário”. Líderes europeus como Starmer, Macron e Scholz são igualmente desprezíveis.

Enquanto Biden faz as malas para a sua tardia aposentação, ele está a prestar serviços desesperados de última hora ao negócio da guerra que está no coração pútrido do capitalismo americano. Na semana passada, o seu secretário de Estado, Antony Blinken (outro fantoche desprezível), disse que a administração Biden libertaria mais 9 mil milhões de dólares em ajuda militar à Ucrânia para que pudesse continuar a travar a guerra até ao próximo ano.

Da mesma forma, a relatada luz verde dada por Biden ao uso de mísseis de longo alcance é outro estratagema para manter o negócio da guerra. Trump poderia reverter a decisão quando entrar na Casa Branca, mas nos próximos dois meses, o governo Biden parece estar a tentar sabotar as intenções de paz de Trump, escalando o conflito para um perigoso ponto sem retorno.

A Rússia não deveria morder o isco. Para começar, os Estados Unidos não têm um grande abastecimento de ATACMS para dar à Ucrânia. Qualquer utilização destes mísseis será limitada. O chamado presidente do regime de Kiev, Vladimir Zelensky – ele cancelou as eleições meses atrás e governa por decreto – não tem possibilidade de impedir o rápido avanço da vitória das forças russas, mesmo com alguns ATACMS.

Não, não se trata de defender a Ucrânia ou de permitir o ridículo “plano de vitória”de Zelensky. Trata-se sim do estado profundo imperialista Ocidental liderado pelos americanos que quer provocar a Rússia numa terrível escalada para manter em movimento os lucros da guerra.

O gesto de Biden é imprudente, mas é algo que deve ser tratado com desprezo. À medida que vai andando para o esquecimento da sua aposentação demente, as pessoas esquecerão em breve este político falido. A sua carreira de 50 anos foi um longo turno de prostituição para o imperialismo norte-americano.

Legalmente, a Rússia poderia responder à provocação de Biden com ataques recíprocos a locais dos EUA e da NATO. Mas essa escalada é exactamente aquilo em que o estado profundo imperialista dos EUA e dos seus lacaios da NATO estão a apostar.

O gesto provocatório é mais simbólico do que uma ameaça substantiva. A Rússia deveria ignorá-lo e concentrar-se na demolição do regime de procuração da NATO em Kiev e, com isso, dar um golpe fatal à credibilidade dos EUA e da NATO.

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O autor: Finian Cunningham é um antigo editor e escritor para as principais organizações noticiosas. Tem escrito extensivamente sobre assuntos internacionais, com artigos publicados em várias línguas. É licenciado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico para a Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir uma carreira no jornalismo. É também músico e compositor. Durante quase 20 anos, trabalhou como editor e escritor nas principais organizações de comunicação social, incluindo The Mirror, Irish Times e Independent. Vencedor do Prémio Serena Shim para a Integridade Incomprometida no Jornalismo (2019).

 

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