CARTA DE BRAGA – “duas perguntas” por António Oliveira

O parlamento da Austrália, aprovou a dois dias do fim do mês de Novembro, o que parece ser uma autêntica alegoria: a proibição de aceder às redes sociais, aos menores de 16 anos; as penalizações poderão chegar a mais de 30 milhões de euros, mas às companhias e não às famílias, por os pais não poderem permitir o uso dos telemóveis. Tal ditame entrará em vigor dentro de um ano, e até lá terão de descobrir um sistema eficaz para a verificação da idade do utilizador. FacebookInstagramTikTok e Snapchat, parecem ser as atingidas por esta norma, que o governo australiano considera absolutamente necessária, para proteger a saúde mental e bem-estar.

Mas uma alegoria, por delegarem nos ‘senhores’ dessas companhias, a competência de controlar os seus próprios produtos, ‘como se fosse possível, exigir aos ‘capos’ do narcotráfico que impedissem o consumo de drogas a menores de idade’, comenta o jornalista e comentador Enric González, que foi correspondente nas mais importantes capitais políticas do mundo ocidental.

E ao escrever que estas medidas servem apenas para que os políticos assumam uma posição moralmente correcta, também faz um pedido aos jovens, ‘Deixamos-vos uma natureza a apodrecer, uma sociedade cada vez mais injusta, uma economia fora de controlo, e um mundo castigado por guerras, um autêntico asco! Por isso vos peço que não olhem até serem um pouco mais velhos, e se possam sentir, como nós, responsáveis pelo desastre’.

Mas entre as críticas a nível mundial, salientam-se a celebração pela inveja, o cepticismo pela dificuldade e a intromissão na liberdade de cada um. Nos primeiros, estão os pais assustados pela dependência e, nos segundos, os políticos, por saberem como será difícil levar os jovens a cumprir tal norma. Essa é a diferença entre o TikTok, propriedade do governo chinês, e os tais ‘senhores’ das redes sociais, que têm nos jovens a maior fonte de rendimento.

Se andarmos na rua e falarmos com gente disponível para nos aturar, depois de desligar o ‘aparelho’ ou ‘o do outro lado’, e conversarmos um pouco sobre os problemas ao cimo da Terra, talvez não demoremos muito, a chegar a uma das apreciações do filósofo e ensaísta espanhol Ortega y Gasset, ‘Não sabemos o que se passa e, precisamente, é isso o que se passa’.

A terminar, transcrevo só um parágrafo da crónica do padre e professor de Filosofia Anselmo Borges, no DN do dia 1 de Dezembro: ‘Entre os primeiros sons que teremos ouvido, está o bater do coração da nossa mãe. Por isso é que há aquele brinquedo simples, dos japoneses, segundo creio, cuja única façanha é imitar o bater do coração humano. Quando o bebé chora, ao ouvir o bater desse brinquedo, que lhe recorda o coração materno, deixa de chorar, tranquiliza-se. Depois, deram-nos um nome, e, ainda hoje, ouvindo o nosso nome, sabemos que é a nós que chamam. Aprendemos a falar, ouvindo e imitando outros humanos que proferiam sons articulados…

Ah! Todos a ‘dedar’ nos smartphones… E quem fala? Quem ouve?

Duas perguntas a que só cada um poderá responder!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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