Numa perspectiva global, formar e educar pressupõe que as pessoas vêm em primeiro lugar e não podem ser sacrificadas em nome de uma qualquer reestruturação produtiva. É por isso que as relações capitalistas são incapazes, pela sua natureza intrínseca, de prover o conjunto de direitos fundamentais de todos os seres humanos, a começar pelo direito à vida digna, à educação livre e aos cuidados de saúde, à habitação, ao emprego, à cultura, ao lazer e à aposentação. Não se podem criar escolas e seguir processos de formação de qualidade dentro de um industrialismo e de um sistema social excludente, desigual e antidemocrático.
A pobreza, ou o holocausto da pobreza como alguém lhe chamou, é a maior e mais cruel das violências, a mais descarnada evidência do fracasso social do capitalismo, o resultado exponencial de todas as ganâncias, o flagelo da consciência dos ricos se não estivesse dominada pela iniquidade económica e pela insensibilidade ao sofrimento e ao drama de cada um. A pobreza é um fenómeno que não só não deve ser indiferente à educação como deve ocupar um lugar de preferência em todas as áreas educativas. Não só a pobreza do sul do planeta, do terceiro mundo, mas a pobreza dos excluídos do primeiro mundo, onde o abismo entre pobreza e riqueza é cada vez maior por força de um sistema altamente injusto, corrupto, explorador dos fracos, que não se coíbe de matar, massacrar e praticar genocídios, para aumentar os super-lucros e as mais-valias que já não sabe como utilizar, mas que entram no ciclo vicioso da especulação, da indústria militar e da guerra. Degradam-se as condições de vida porque as necessidades humanas são geridas pela política das sobras. Destrói-se a natureza pela proliferação de indústrias que nada produzem além de lixo. Envenenam-se as relações entre pessoas e países pela luta de interesses e pela invenção das guerras. Sob a mais descarada hipocrisia, nesta floresta de enganos e desvios, as grandes nações fazem da venda de armas e da morte dos filhos da humanidade o seu grande negócio. Mata-se programadamente por excesso de armas e falta de comida. Combate-se a cultura em todas as frentes. Impõe-se uma pretensa e soberana eficácia de todas as panaceias que originam fabulosos lucros, através da intoxicação televisiva. Toda esta religião do mercado, todos estes rituais dos sacerdotes do poder espalhados pelos cultos reverenciais do dinheiro são consagrados em cimeiras onde um profundo défice de moralidade define a repartição do que ainda resta para roubar. Toda esta lógica neoliberalizante, tão cara ao primarismo de tantos chefes de estado e seus correligionários, insensível à exclusão social e à generalização da pobreza, tende à anulação do homem, à minimização da presença do estado, à privatização de tudo o que é rentável e à promoção de uma cultura de gestão cuja meta não é outra senão a mecanização da sociedade, em que os homens tendem a não ser mais do que peças.
( Continua )

