Nota de editor: em virtude da extensão do texto o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
19 min de leitura
Texto 20. Poderá a intervenção comercial conduzir a uma maior liberalização do comércio internacional? (2/2)
Publicado por Carnegie Endowment
em 23 de Fevereiro de 2024 (original aqui)
(conclusão)
O que acontece a uma economia quando as famílias não conseguem comprar o que produzem?
Quando as famílias ganham muito pouco para poderem comprar os bens e serviços que produzem, ou quando a poupança interna excede o montante de investimento produtivo necessário para a economia (o que é a mesma coisa), isso significa apenas que o montante total de bens e serviços produzidos excede o montante que pode ser absorvido sob a forma de consumo ou investimento. Nesse caso, uma economia tem seis opções.
A melhor opção é geralmente aumentar o rendimento das famílias, direta ou indiretamente, para que o consumo e a produção possam voltar a estar alinhados. Quando isso acontece, a economia poupa apenas o que é necessário para o investimento produtivo e pode consumir o resto. Não há “excesso” de produção ou de poupança.
No entanto, a redistribuição do rendimento às famílias, quer diretamente quer sob a forma de transferências sociais, é frequentemente muito difícil do ponto de vista político e exige que os subsídios que geraram um rápido crescimento da produção sejam revertidos. Isto prejudicaria a competitividade das indústrias que dependem desses subsídios. A ironia é que quanto mais o crescimento depende desses subsídios, mais importantes são essas indústrias subsidiadas para a economia e, portanto, mais doloroso é revertê-los. O Japão tem estado a tentar, sem sucesso, fazer isso desde 1986 e a China desde 2007 [6].
Uma segunda opção é aumentar o investimento interno em propriedades, infraestruturas e/ou capacidade de produção, mesmo que não seja necessário. Este investimento permite que a economia continue a absorver poupanças elevadas e é o que a União Soviética e o Brasil fizeram no final da década de 1960 e na década de 1970, o que o Japão fez na década de 1980 e o que a China tem vindo a fazer nos últimos dez a quinze anos. O problema é que, como esta atividade é improdutiva, cria montantes crescentes de perdas não reconhecidas e um aumento do peso da dívida – e é, em última análise, insustentável [7].
Uma terceira opção consiste em reduzir a poupança, cortando o excesso de produção e despedindo trabalhadores. Neste caso, embora o consumo diminua, a produção diminui ainda mais rapidamente até que os dois estejam de novo em equilíbrio. Esta pode ser uma forma extremamente dolorosa de ajustamento e é a forma como os Estados Unidos se ajustaram no início da década de 1930 e o Brasil em meados da década de 1980. Implica um ajustamento sob a forma de crescimento negativo e de desemprego mais elevado.
Não é surpreendente que a maioria dos governos tente evitar a segunda e a terceira opções se puder, o que normalmente significa recorrer a aumentos da dívida. Nesse caso, a quarta opção envolve a redução das taxas de juro e a expansão da oferta de moeda, numa tentativa de levar as famílias a aumentar o seu consumo através do endividamento, contraindo empréstimos. Isto permite que o consumo total volte a subir para os níveis necessários para suportar a produção existente, mas em vez de ser financiado pelo rendimento das famílias, será financiado pela dívida das famílias. Uma vez que isto cria tensões crescentes no sector das famílias, acaba por ser insustentável.
A quinta opção é semelhante à terceira opção, exceto que são os governos que contraem empréstimos, em vez das famílias. Para compensar o consumo mais fraco, o governo expandirá a procura interna através da criação de défices orçamentais. .
Finalmente, a sexta opção é externalizar o desequilíbrio. Em vez de se reequilibrar internamente aumentando os salários, permitindo que o desemprego aumente ou aumentando a dívida das famílias ou orçamental, a economia pode ter excedentes comerciais que lhe permitam efetivamente exportar poupanças excedentárias – ou exportar a sua fraca procura interna, que é a mesma coisa – para os seus parceiros comerciais.
Tudo isto são simplesmente formas de um país resolver o excesso de poupança. As cinco primeiras formas envolvem o aumento do investimento interno ou a redução da poupança interna, quer através da redistribuição do rendimento, do aumento do desemprego, do aumento da dívida das famílias ou do aumento do défice orçamental. A sexta forma consiste em transferir as poupanças excedentárias para os parceiros comerciais, exportando-as.
Como é que um país excedentário externaliza o custo do excesso de poupança?
Fá-lo através de um excedente comercial [8]. Quando o excesso de poupança é exportado para outra economia, a economia do lado beneficiário deve ajustar-se a esses fluxos através de défices comerciais correntes. Tal como a poupança excedeu o investimento no país (excedentário) que está a exportar o seu excesso de poupança, também o investimento deve exceder a poupança no país (deficitário) que está a receber poupança externa.
Esta é apenas mais uma forma de dizer que, quando a poupança flui para um país, ou o seu investimento interno tem de aumentar ou a sua poupança interna tem de diminuir. De uma forma ou de outra, a economia beneficiária deve ajustar-se à entrada líquida de poupança externa, e deve ajustar-se da mesma forma que o país em que a poupança excedentária foi criada teria de se ajustar se não tivesse a opção de externalizar a poupança excedentária. Num sistema fechado, a poupança não pode exceder o investimento.
A entrada de capital estrangeiro não leva a um aumento do investimento?
Não necessariamente. O capital estrangeiro não fará com que o investimento aumente se fluir para economias avançadas nas quais o investimento empresarial não é limitado por capital escasso. De facto, pode fazer com que o investimento empresarial diminua se o investimento empresarial for limitado principalmente pela procura, como é o caso na maioria das economias avançadas. Nesse caso, na medida em que o défice comercial que o acompanha reduz a procura de produtores locais, os produtores locais podem efetivamente reduzir o investimento.
Este parece ser claramente o caso dos fluxos estrangeiros para os Estados Unidos. Tem sido uma característica muito discutida (e criticada) da economia dos EUA que as empresas americanas fiquem com enormes valores de caixa e equivalentes de caixa (US$ 6,9 milhões de milhões, ou 12% do total de ativos, de acordo com um estudo recente), mesmo depois de se envolverem em níveis recordes de aquisições e recompras de ações. Nesse caso, é improvável que disponibilizar ainda mais poupanças (externas) para as empresas americanas aumente o investimento, especialmente se o aumento dos fluxos estrangeiros for o contraponto de um aumento do défice comercial dos EUA.
No entanto, a diferença entre o investimento e a poupança deve ainda refletir as entradas líquidas de fluxos estrangeiros. Embora à primeira vista possa parecer muito contraintuitivo que os fluxos de entrada possam fazer com que a poupança diminua, especialmente numa grande economia como a dos Estados Unidos, na verdade, enquanto os Estados Unidos não controlarem a sua conta de capital, por definição não podem controlar a diferença entre a poupança dos EUA e o investimento dos EUA, caso em que se as entradas de capital estrangeiro não provocam aumento de investimento interno então têm de fazer diminuir a poupança interna.
Dado o seu alto nível de desigualdade de rendimento, os Estados Unidos não deveriam ter uma alta taxa de poupança e, com isso, um excedente comercial?
Se os Estados Unidos fossem um país normal, os seus altos níveis de desigualdade de rendimento resultariam numa alta taxa de poupança (porque os ricos poupam mais do seu rendimento do que os pobres), e isso excederia o investimento interno limitado pela correspondente fraca procura interna. Nestas condições, os Estados Unidos teriam muito provavelmente um excedente comercial. Foi assim no final do século XIX e início do século XX.
Os Estados Unidos, no entanto, não são um país normal quando se trata de seu papel na balança de pagamentos global. É o principal destino mundial para o excesso de poupança global porque, em troca dos seus excedentes comerciais, os estrangeiros preferem adquirir ativos americanos, como fábricas, terras agrícolas, apartamentos, ações e títulos, do que os de qualquer outra economia. E porque os Estados Unidos abdicaram do controlo da sua conta de capital, não têm outra alternativa senão ser um importador líquido persistente de capital estrangeiro.
É importante compreender que isto não é porque os Estados Unidos precisam de capital estrangeiro, mas sim porque os estrangeiros querem usufruir de um lugar seguro para absorver as suas poupanças excedentárias. Enquanto os estrangeiros preferirem adquirir ativos dos EUA em troca dos seus excedentes e puderem forçar os Estados Unidos a um excedente líquido da conta de capital, os Estados Unidos terão de apresentar um défice em conta corrente. Como explico a seguir, fá-lo principalmente porque, em vez de financiar investimentos adicionais, as entradas de capital estrangeiro obrigam a baixar a taxa de poupança dos EUA.
Como podem as entradas estrangeiras forçar a baixa da taxa de poupança dos EUA?
A maneira mais óbvia é através do aumento do desemprego nos EUA. A mecânica é simples. Como a economia dos EUA vê as suas importações aumentarem em relação às suas exportações, parte da procura anteriormente direcionada para fábricas a produzirem internamente é agora desviada para fábricas estrangeiras, sem aumento compensatório na procura externa por bens e serviços produzidos nos EUA, e assim as fábricas respondem despedindo trabalhadores.
Como os trabalhadores desempregados ainda têm de consumir, a produção diminuirá mais rapidamente do que o consumo, o que reduz automaticamente a taxa de poupança. Os trabalhadores assalariados tendem a ter taxas de poupança positivas, enquanto os trabalhadores desempregados têm taxas de poupança negativas. Nesse caso, os Estados Unidos ajustam-se através de um aumento do desemprego.
Mas, na medida em que Washington intervém para evitar que o desemprego aumente, geralmente fá-lo de duas maneiras. Em primeiro lugar, Washington pode expandir o défice orçamental e utilizar o aumento da despesa para impulsionar a procura na economia. Esta expansão da dívida equilibra automaticamente o aumento da poupança externa que flui para a economia através da redução da poupança interna. (A dívida é uma poupança negativa.)
Em segundo lugar, o Federal Reserve pode baixar as taxas de juros e expandir a oferta monetária para incentivar os bancos a expandir a dívida das famílias, que as famílias, por sua vez, usam para expandir o consumo. Isso permite que o consumo volte aos níveis necessários para apoiar a produção existente, mas em vez de ser financiado pelo rendimento das famílias, será financiado pela dívida das famílias [9]. Este processo é frequentemente exacerbado por bolhas imobiliárias ou bolsistas desencadeadas pela combinação de taxas de juro mais baixas dos EUA e compras externas de ativos dos EUA (ver apêndice 2). Nesse caso, o aumento temporário dos preços dos ativos pode incentivar ainda mais o aumento da dívida das famílias e a redução da poupança das famílias [10].
A questão é que as entradas líquidas externas devem fazer com que o investimento aumente ou a poupança diminua, e as formas utilizadas que fazem com que a poupança diminua geralmente envolve alguma combinação de maior desemprego, maior dívida das famílias ou maiores défices orçamentais [11]. As entradas de capital estrangeiro que reduzem a taxa de poupança de um país, por outras palavras, são sempre más para a economia.
No entanto, a maioria dos estudos sobre o impacto dos défices comerciais na economia dos EUA não consegue demonstrar isso, porque assumem que o único impacto negativo possível é o aumento do desemprego. Quando não encontram este aumento, concluem que o défice não tem impacto negativo. Mas se o impacto sobre o desemprego for atenuado por um aumento da dívida das famílias ou pelo défice orçamental, como é normalmente o caso nos Estados Unidos, o impacto adverso do défice na economia não será visto nos números do desemprego. Será visto no aumento da dívida e na erosão da proporção do setor industrial no PIB dos EUA.
Quais são as opções para os países deficitários? Será que se podem proteger da absorção de poupanças externas e da manutenção de défices comerciais?
Existem basicamente três maneiras pelas quais os países deficitários podem responder às políticas de tentar colocar nas costas dos outros os seus problemas – as ditas políticas beggar-thy-neighbor. Podem subsidiar agressivamente os seus próprios sectores industriais e tentar repassar os custos para as costas dos seus parceiros comerciais (por outras palavras, retaliar com as suas próprias políticas beggar-thy-neighbor); podem optar por sair do regime comercial global existente, quer de forma não literal, quer com outros países afins; ou podem aceitar o aumento da dívida ou do desemprego e uma maior erosão do papel da indústria transformadora nas suas economias. A primeira opção levaria a uma crise global de superprodução (ou subconsumo) como a da década de 1930, a segunda opção perturbaria o regime comercial global e a terceira opção seria provavelmente uma opção politicamente inaceitável.
Provavelmente, a melhor resposta para os Estados Unidos e para o mundo a médio e longo prazo seria que os Estados Unidos interviessem para reverter as políticas beggar-thy-neighbor dos países excedentários – a segunda opção. Nesse caso, os Estados Unidos, unilateralmente ou com outros países afins, implementariam políticas comerciais para evitar que os países excedentários externalizassem os custos das suas políticas industriais (por outras palavras, de manterem excedentes comerciais persistentes). Isso poderia ser feito com restrições à capacidade dos países excedentes de despejar mercadorias na economia americana. ou com restrições à capacidade dos países excedentários de despejar o excesso de poupança no sistema financeiro dos EUA. A mais óbvia das primeiras políticas são as tarifas, e a mais óbvia das últimas são os impostos sobre as entradas de capital.
Como é que as tarifas afetam os desequilíbrios comerciais?
Embora muitos assumam que o principal efeito comercial das tarifas é reduzir a importação de mercadorias sujeitas a aplicação de tarifas, na verdade é um processo mais complexo, especialmente para os Estados Unidos devido ao seu papel especial na economia global. Enquanto os Estados Unidos atuarem como o grande absorvedor dos desequilíbrios da poupança na economia global, não terão outra escolha senão gerir défices comerciais. É por isso que o papel de “absorvedor de último recurso do excesso de poupança global” é simplesmente o contraponto do papel de “consumidor de último recurso”—ambos significam a mesma coisa.
Mas isso tem uma implicação importante para a política comercial. Enquanto os Estados Unidos permitirem aos estrangeiros o acesso irrestrito aos ativos dos EUA, as tarifas dos EUA só podem reduzir o défice da balança corrente dos EUA na medida em que forcem uma mudança no excesso de poupança sobre o investimento no resto do mundo. Para tal, é necessário tornar as tarifas suficientemente elevadas para forçar uma contração da produção estrangeira a curto prazo, seguida, eventualmente, de uma expansão da procura externa.
As tarifas nem sempre fazem isso. Por exemplo, quando os Estados Unidos impuseram tarifas sobre as importações chinesas em 2018, isso não fez nada para reduzir o défice comercial geral dos EUA, porque a poupança chinesa ainda excedia o investimento chinês mais do que nunca e a China ainda exportava a maior parte de seu excesso de poupança para os Estados Unidos.
Nesse caso, embora o défice bilateral dos EUA com a China possa ter diminuído, nem o défice global dos EUA nem o excedente global da China diminuíram. Tanto quanto a posição interna da China se mantiver inalterada, e desde que resolvesse esse desequilíbrio interno exportando capital para os Estados Unidos, as tarifas bilaterais só poderiam alterar os desequilíbrios comerciais bilaterais de qualquer um dos países. Sem alterar o desequilíbrio entre poupança e investimento da China, as tarifas dos EUA sobre as importações chinesas não poderiam alterar o défice comercial geral dos EUA (ou o excedente comercial global chinês).
Quais são os custos associados às tarifas de importação para reequilibrar a economia dos EUA e para a economia mundial?
As tarifas só funcionam para um país como os Estados Unidos na medida em que podem forçar o resto do mundo a reduzir a oferta em relação à procura. Infelizmente, uma tarifa única sobre todas as importações não discrimina entre países que têm excedentes e países que não têm. Como uma tarifa só funciona na medida em que força uma redução do excesso de poupança para o resto do mundo em termos agregados, esta basicamente garante que as economias que são mais agressivamente mercantilistas arcarão com uma parcela menor dos custos do que os países menos mercantilistas.
Este problema pode ser resolvido tornando isentos de tarifas os países que fizerem parte de um acordo comercial entre um grupo de países que implementam tarifas “antimercantilistas” semelhantes. Isso sugere que, se os Estados Unidos quiserem impor grandes tarifas de importação de forma generalizada, isso deve fazer parte de uma reorganização mais ampla do comércio, na qual novos acordos comerciais sejam criados entre países que se comprometam a manter um comércio amplamente equilibrado. Para os países cujas contas comerciais estão globalmente equilibradas, não há nenhuma razão para implementar tarifas.
Existe uma alternativa significativa às tarifas de importação?
Os analistas esquecem frequentemente que, no actual ambiente global, enquanto os investidores estrangeiros preferirem equilibrar os excedentes comerciais com os activos dos EUA e enquanto os Estados Unidos lhes permitirem acesso irrestrito aos activos dos EUA, os Estados Unidos não têm escolha a não ser gerir um excedente da conta de capital (por outras palavras, receber entradas líquidas de capital estrangeiro). Isso significa que também não tem escolha a não ser gerir um défice em conta corrente.
Dito de uma forma um pouco mais técnica, se os Estados Unidos não controlam a sua conta de capital, não podem controlar a diferença entre o investimento dos EUA e a poupança dos EUA, o que, por sua vez, significa que não podem controlar nem a sua balança comercial nem as suas taxas de poupança globais. Se o resto do mundo quiser aplicar políticas industriais que suprimam a procura interna e aumentem a sua poupança em relação ao seu investimento, e se eles podem livremente exportar essas poupanças excedentárias para os Estados Unidos comprando ativos americanos, a balança comercial dos EUA e as taxas de poupança dos EUA devem ajustar-se a esses fluxos.
Isto sugere que uma alternativa mais direta e focalizada às tarifas é o controlo de capitais. Se os Estados Unidos tributassem as entradas de capital, ou restringissem de outra forma as entradas de capital das economias excedentárias, não haveria necessidade de a balança comercial dos EUA e das suas taxas de poupança interna se ajustarem às entradas externas líquidas. Também não haveria necessidade de tarifas de importação.
Como é que as restrições de capital afetariam o uso global do dólar americano?
O dólar americano é a moeda mais utilizada a nível global, principalmente por causa da profundidade, liquidez e flexibilidade dos mercados financeiros dos EUA, juntamente com a proteção relativamente forte do investimento estrangeiro. Esta é outra maneira de dizer que é o papel dos EUA como absorvedor de último recurso do excesso global de poupança (“consumidor de último recurso”) que explica o domínio esmagador do dólar americano no comércio global e nos fluxos de capitais [12].
Restringir as entradas líquidas de capital reduziria o uso global do dólar e levaria o mundo a uma viver numa situação em que nenhuma moeda desempenharia o papel que o dólar americano desempenha atualmente. Mas, embora isso beneficiasse agricultores, trabalhadores, classe média e produtores domésticos americanos, prejudicaria três eleitorados americanos muito poderosos.
O primeiro deles é Wall Street, cujo domínio global é sustentado pelo domínio global do dólar americano no comércio e nos fluxos de capitais. O segundo é o establishment dos negócios estrangeiros, que pode usar o domínio do dólar americano para impor sanções a países que se opõem aos interesses geopolíticos dos EUA. E o terceiro consiste em grandes empresas que beneficiam da fácil transferência de investimentos para fora dos Estados Unidos. Isso significa que Washington deve equilibrar os interesses de longo prazo da economia dos EUA em geral com os interesses de curto prazo de três eleitorados muito poderosos.
Os Estados Unidos não beneficiam eles da compra de produtos estrangeiros subsidiados?
Os economistas do pensamento dominante costumam argumentar que, se um país estrangeiro quiser subsidiar as suas exportações para os Estados Unidos, os consumidores americanos devem ficar felizes em comprá-las porque não há custo, e um benefício claro (o preço mais baixo), com o bem subsidiado. O argumento padrão é que, se alguém lhe oferecer algo a um preço artificialmente baixo, seria tolice não o comprar.
Esta falácia consumista, bastante comum na economia americana, parte do princípio de que, se algo se aplica ao nível do consumidor individual, também deve aplicar-se sistemicamente ao nível da economia. Mostra que os economistas estão frequentemente confusos sobre as questões comerciais e da balança de pagamentos que lhes estão associadas.
O custo de um produto importado para os consumidores não é a única coisa que importa para uma economia. O custo para os produtores também é importante. O que é barato para as famílias, enquanto consumidores, só é barato se o custo dos subsídios implícitos for absorvido pelo país exportador. Se for absorvido pelo país importador, não é “barato” para as famílias, porque as famílias não são apenas consumidores, são também produtores.
Este argumento só faria sentido se as receitas de exportação geradas pelo país exportador fossem convertidas num montante igual de importações. Nesse caso, os Estados Unidos poderiam comprar mais importações para o mesmo nível de exportações. Seria, de facto, melhor.
Mas este não é o caso quando as receitas geradas pelo país que subsidia as exportações não são convertidas em igual quantidade de importações, mas sim convertidas em créditos sobre ativos dos EUA. Nesse caso, o que beneficia temporariamente os americanos como consumidores é mais do que totalmente pago pelos americanos como produtores na forma da exportação de créditos sobre ativos.
A recente polémica dos veículos elétricos (EV) é um excelente exemplo desta confusão. Um lado argumenta que o forte subsídio da China à produção de veículos elétricos é bom para o mundo porque resultará numa transição mais rápida de veículos que grandes consumidores de combustível para veículos elétricos, e tornará mais barato para os americanos comprar veículos elétricos. O outro lado argumenta que os subsídios chineses para a indústria de veículos elétricos impossibilitam a sobrevivência dos produtores estrangeiros.
Ambos os lados têm razão, mas o problema não é que a China possa ou não dominar indústrias específicas, como os veículos elétricos. Trata-se de uma questão separada da questão do impacto económico global dos desequilíbrios comerciais. O problema é que, quando um país domina determinados sectores, importa saber se as suas crescentes exportações nesse sector são ou não equiparadas a um aumento das importações. Há uma diferença entre subsidiar a oferta em alguns setores da economia à custa da oferta em outros setores da economia e subsidiar a oferta em um ou mais setores da economia à custa da redução da procura [13].
No primeiro caso transfere-se a oferta de um sector para outro no mesmo país sem afetar a procura total desse país, enquanto no segundo suprime-se a procura total e impõe o custo da fraca procura aos seus parceiros comerciais. Se um país se contenta em exportar, satisfaz a procura que tinha sido satisfeita no estrangeiro, de modo que o aumento das suas exportações não representa um aumento da oferta global, mas sim estar a substituir a oferta que tinha sido eliminada na economia deficitária pelo aumento da oferta do país excedentário.
Por outras palavras, se a China subsidia as exportações de veículos elétricos, os consumidores americanos de veículos elétricos realmente beneficiam de preços mais baratos. Mas se os produtores chineses ou os produtores americanos pagam o custo destes subsídios isso depende se as exportações chinesas mais elevadas resultam em importações chinesas mais elevadas ou em excedentes chineses mais elevados. No primeiro caso, um conjunto de produtores chineses paga as subvenções concedidas a outro conjunto de produtores chineses. Neste último caso, são os produtores norte-americanos que pagam as subvenções concedidas aos produtores chineses.
O problema com o comércio não é o comércio em si — é o comércio desequilibrado, no qual a oferta criada pelas exportações de um país não é compensada pela procura criada pelas suas importações. O comércio desequilibrado e a vantagem competitiva não expandem a produção global. É o comércio equilibrado e a vantagem comparativa que expandem a produção mundial.
A intervenção comercial pode ser ela utilizada para tornar o comércio mais livre?
Não existe uma diferença significativa entre as políticas orientadas para o comércio e a maioria das formas de política industrial. Qualquer política económica, monetária ou orçamental que afete o equilíbrio entre a poupança interna de um país e o seu investimento interno deve necessariamente afetar a balança comercial desse país e, através da sua balança comercial, deve necessariamente afetar o equilíbrio entre a poupança interna e o investimento interno dos seus parceiros comerciais. Numa economia global fechada [nt. a economia mundial em si é uma economia fechada], em que a poupança deve ser igual ao investimento, qualquer política que force o aumento da taxa de poupança num sector deve ser equilibrada por um investimento mais elevado ou por uma poupança mais baixa noutro sector.
É aqui que a intervenção comercial pode conduzir a um comércio mais livre. Os excedentes comerciais que são causados por políticas industriais beggar-thy-neighbor – concebidas para melhorar a competitividade internacional através da supressão da procura interna – só podem existir na medida em que sejam compensados por défices comerciais noutros países. Nesse caso, se os países deficitários implementarem políticas intervencionistas de comércio ou de capital destinadas a reduzir os seus défices, estes forçarão automaticamente os países excedentários a inverter as suas próprias políticas beggar-thy-neighbor. Isto, por sua vez, forçará um ajustamento do regime comercial global de modo que o comércio global se baseie mais uma vez numa vantagem comparativa e contribua para a expansão da produção global, e não para a supressão da procura global.
O problema é que há uma vasta gama de políticas que podem causar distorções do comércio global e, embora algumas dessas políticas possam visar o comércio, muitas delas não o fazem explicitamente. É por isso que, no interesse de um ambiente comercial global que funcione bem, é melhor visar os desequilíbrios comerciais globais, como propôs John Maynard Keynes na Conferência de Bretton Woods em 1944, do que visar violações comerciais específicas.
Embora a Organização Mundial do Comércio e outras entidades reguladoras do comércio já existentes se tenham concentrado neste último ponto, elas deixaram-nos com um mundo de pesados e persistentes desequilíbrios comerciais e fluxos de capital perversos. Estas condições provam prima facie que as entidades reguladoras do comércio existentes não conseguiram gerir adequadamente o comércio global. É por isso que os Estados Unidos, e a maior parte do resto do mundo, estariam melhor com uma reorganização radical do sistema de comércio global.
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Apêndice 2: o capital estrangeiro reduz as taxas de juro dos EUA?
Parte-se do princípio generalizado de que as entradas de capital estrangeiro baixam as taxas de juro americanas porque criam uma procura adicional para uma oferta fixa de obrigações americanas, mas isso só mostra como muitos estão confusos sobre o funcionamento da balança de pagamentos. Se as empresas americanas quisessem investir na expansão das infraestruturas ou das instalações produtivas, mas não o pudessem fazer devido à escassez de poupanças e ao elevado custo do capital, os fluxos de capital estrangeiro ajudariam, de facto, a resolver o problema, aumentando os recursos disponíveis para os americanos (sob a forma de défices comerciais mais elevados nos EUA) e assim baixariam o custo do capital para as empresas americanas. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos durante grande parte do século XIX.
Mas não é esse o caso se o investimento nos Estados Unidos for condicionado por uma procura fraca e não por capital escasso. Nesse caso, os influxos estrangeiros afetarão o equilíbrio interno do país de uma de duas formas. Uma delas envolve um aumento do desemprego, uma vez que os produtores americanos despedem trabalhadores em resposta ao desvio da procura interna para os produtores estrangeiros, sob a forma de um défice comercial mais elevado. Nesse caso, a poupança estrangeira substitui simplesmente a poupança interna e não se regista um aumento líquido da procura de obrigações dos Estados Unidos.
A outra forma envolve um aumento da dívida das famílias ou do défice orçamental para contrariar a pressão para um aumento do desemprego. Nesse caso, embora o montante total da procura de dívida dos EUA aumente com o afluxo de poupanças estrangeiras, a oferta total de dívida dos EUA aumentará no mesmo montante. Não haverá, portanto, um impacto previsível nas taxas de juro.
Isto, aliás, deveria ser óbvio a partir dos dados. Se os fluxos de entrada de capitais estrangeiros baixassem efetivamente as taxas de juro, ajustadas aos níveis de desenvolvimento, os países deficitários deveriam ter taxas de juro mais baixas do que os países excedentários, e quanto maior fosse o défice, mais baixa seria a taxa de juro. De facto, não só não é esse o caso, como parece ser o inverso do que realmente acontece; são os países excedentários que tendem a ter taxas de juro mais baixas do que os países deficitários. A China, o Japão e a UE, por exemplo, têm todos taxas de juro mais baixas do que os Estados Unidos e o Reino Unido.
Notas
[6] Em 1986, o Japão publicou o relatório da Comissão Maekawa, que defendia que o Japão deveria passar de uma economia orientada para a exportação para uma economia orientada para a procura interna. Em março de 2007, o então primeiro-ministro chinês Wen Jiabao proferiu o seu famoso discurso “a instabilidade, o desequilíbrio e a não coordenação” da economia chinesa no Congresso Nacional do Povo Chinês.
[7] Para mais desenvolvimentos veja-se: Michael Pettis, “China’s Debt Isn’t the Problem. It is a Symptom of the Problem”, Financial Times, December 20, 2023, https://www.ft.com/content/630f828c-ce4b-4f41-a867-9593bfaf0528.
[8] No entanto, não é necessário que os desequilíbrios comerciais bilaterais correspondam aos desequilíbrios bilaterais de capital. Isto significa que o impacto de um país como a China, a Alemanha ou o Japão no défice comercial dos EUA não é o mesmo que a dimensão do seu comércio bilateral com os Estados Unidos. Muito mais importante é a dimensão dos fluxos bilaterais de capitais. Por exemplo, se as poupanças japonesas excedem o investimento japonês em 100 dólares e o Japão investe o montante total das suas poupanças excedentárias nos Estados Unidos, os Estados Unidos têm de registar um défice comercial de 100 dólares e o Japão um excedente comercial de 100 dólares, mesmo que os dois países não façam quaisquer trocas comerciais entre si.
[9] Ao contrário do que se pensa, uma explosão do crédito ao consumo não é causada por uma propensão cultural para o consumo. Tudo o que é necessário é uma distribuição normal do comportamento de risco entre as famílias, o que pode acontecer em qualquer cultura. Isto porque, se os bancos responderem à flexibilização monetária flexibilizando os critérios de concessão de crédito, conseguirão sempre encontrar famílias otimistas que queiram contrair empréstimos para aumentar o consumo. Além disso, se os influxos estrangeiros fizerem subir os preços dos ativos nacionais, como é frequentemente o caso, podem provocar um aumento do consumo através de efeitos de riqueza que facilitam aos bancos o financiamento de dívidas adicionais dos consumidores.
[10] Este não é um problema exclusivo dos Estados Unidos. As enormes entradas de capitais estrangeiros (principalmente da Alemanha) em países da UE, como a Espanha, no início da década de 2000, desencadearam bolhas bolsistas e imobiliárias que acompanharam o aumento da dívida e, por fim, a crise de 2008-2009.
[11] Para mais desenvolvimentos veja-se: Michael Pettis, “Why US Debt Will Continue to Rise,” Financial Times, July 27, 2023 (ver aqui).
[12] Veja-se:
- Michael Pettis, “A (Very Short) History of Global Reserve Currencies,” Financial Times, June 7, 2023-ver aqui ;
- Michael Pettis, “,” Foreign Policy, September 7, 2011 (ver aqui)
- Michael Pettis, “,” Foreign Policy, 2011 (ver aqui
[13] Repare-se que separo os problemas do comércio de outras questões. Pode haver boas razões políticas, de segurança ou outras para que os Estados Unidos ou a Europa queiram proteger indústrias específicas, independentemente do seu impacto nos desequilíbrios comerciais. Estas razões são legítimas, mas estão fora do âmbito deste texto. O que quero dizer é que as importações subsidiadas podem ser pagas pela economia exportadora ou pela economia importadora e, se for esta última, as famílias da economia importadora não beneficiam dos preços mais baixos.
O autor: Michael Pettis [1958-] tem MBA em Finanças, pela Universidade de Columbia e Master em International Affairs, Desenvolvimento Económico, pela Universidade de Columbia. É membro senior não residente do Programa Carnegie Ásia sedeado em Pequim. Especialista em economia da China, Pettis é professor de finanças na Escola de Gestão Guanghua da Universidade de Pequim, onde se especializou em mercados financeiros da China. Entre 2002 e 2004, lecionou na Escola de Economia e Gestão da Universidade de Tsinghua e, entre 1992 e 2001, na Faculdade de Gestão da Universidade de Columbia.
É membro do Conselho Consultivo do Instituto de Estudos Latino Americanos da Universidade de Columbia, bem como do Conselho Consultivo do Reitor da School of Public and International Affairs.
Pettis trabalhou em Wall Street em investimento financeiro, mercados de capitais e financiamento de empresas desde 1987, quando se juntou à equipa de negociação de dívida soberana do Manufacturers Hanover (agora JPMorgan).
De 1996 a 2001, Pettis trabalhou no Bear Stearns, onde era director executivo das equipas dos mercados de capitais latino americanos e de gestão de passivos. Trabalhou também como sócio de uma loja de banca de negócios que se especializou na securitização de ativos latino americanos e no Credit Suisse First Boston, onde chefiou a equipa de negociação em mercados emergentes. Além dos mercados de investimento e de capitais, Pettis esteve envolvido em serviços de consultadoria soberana, nomeadamente para o governo mexicano na privatização do seu sistema bancário, para a República da Macedónia na reestruturação da sua dívida bancária internacional, e para o ministro das finanças sul-coreano na reestruturação da dívida da banca comercial do país. Anteriormente foi membro do Conselho de Diretores de ABC-CA Fund Management Company, uma joint venture sino–francesa sedeada em Xangai.
É autor de vários livros, nomeadamente Trade Wars are Class Wars (em co-autoria com Matthew C. Klein, Yale University Press, maio 2020), The Great Rebalancing: Trade, Conflict, and the Perilous Road Ahead for the World Economy (Princeton University Press, 2013).

