PALCO 245 – PEDRO PÁRAMO – por Roberto Merino

 

 

“Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo. Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera. Le apreté sus manos en señal de que lo haría, pues ella estaba por morirse y yo en un plan de prometerlo todo.”

Este é o começo de um dos mais belos e importantes romances da literatura latino-americana. Comala, terra imaginada pelo seu autor, o mexicano Juan Rulfo (*), é tão impressionante e rica como a Macondo de Garcia Marques.

Num breve romance de pouco mais de cem páginas, caminhamos junto ao protagonista, enquanto se vai refazendo narrativamente a vida de um tal Pedro Páramo, latifundiário déspota que abandonou o seu filho e esposa.

Pedro Páramo foi publicado em 1955, dois anos depois das histórias de El llano en llamas. No início do romance, Juan Preciado, o protagonista, promete à mãe no leito de morte ir à procura do pai, Pedro Páramo, um cacique de uma pequena aldeia que ele não conhece: “Faz-lhe pagar um preço alto, o esquecimento ao qual nos abandonou”, diz-lhe, e Juan parte para Comala, uma cidade mítica que é o verdadeiro protagonista destas páginas.

Ali, envolto numa velha terra que é nas brasas da terra, “na mesma boca do inferno”, encontrará as vozes e as memórias de personagens oníricos, que vão tecer uma história de desejos e passados, de mortes e visões irreais, que vão desde meados do século XIX até às revoltas da guerra Cristera (**) de início do século XX.

“Ancorado em terra firme, o romance dispara em múltiplas direções quebrando o tempo, confundindo realidade e alucinação, mesclando violência e lirismo com suas conversas entrecortadas.

Entre fantasmas, a desolação de Comala torna realidade aquele “vale de lágrimas” que constitui a geografia universal da dor, cheia de ecos, violência e ar envenenado. No seu laconismo, Pedro Páramo é um exemplo impressionante de condensação narrativa. Rulfo viu a necessidade de que o autor desaparecesse e deixasse seus personagens falarem livremente, através de uma estrutura “construída de silêncios, de fios pendurados, de cenas cortadas, dando ao leitor a oportunidade de preencher essas lacunas. Relacionada com o realismo mágico, a atmosfera desta história é tingida de solidão, fatalismo e mitologia. Se o título original escolhido por Rulfo para este trabalho foi Los Murmullos (Os Murmúrios) – mais sóbrio, mas menos contundente que Pedro Páramo -, é preciso evitar que esses murmúrios assassinem também quem inicia a jornada rumo a esse limbo que é Comala… Juan aceitará sua nova condição: «É verdade, Dorotea – ele confessará a uma das personagens femininas – os murmúrios me mataram…” (do Prólogo ao romance de Jorge Volpi).

Foi no ano de 2019 que se realizou –  de 08 a 12 de abril –  a 16.ª edição da MIFEC – Mostra Internacional de Filmes de Escolas de Cinema., organizada pelo Curso Superior de Cinema da Escola Superior Artística do Porto/ ESAP. Nesse ano eu ainda me encontrava a dar aulas e na direção do Curso Superior de Teatro da ESAP.  A edição desse ano contou com filmes de Escolas de Cinema de Portugal, Holanda, França, Roménia, Estados Unidos da América, Espanha, Alemanha, Polónia, Sérvia, Croácia, Cazaquistão, Nepal, Israel e Filipinas. No dia 8 de abril foi entregue o prémio Aurélio da Paz dos Reis Internacional ao Realizador e Investigador Mark Cousins no Auditório da Casa do Infante e no último dia da Mostra, dia 12, foi distinguida, a realizadora Margarida Cordeiro, com o prémio Aurélio Paz dos Reis Nacional, no Cinema Trindade.

Na oportunidade de um breve discurso de agradecimento da realizadora, ela lembrou o antigo projecto cinematográfico, que junto a seu marido o realizador António Reis não conseguiram concretizar.

Efetivamente, Margarida Cordeiro e António Reis começaram a adaptar para o cinema o romance Pedro Páramo, de 1955, do escritor mexicano Juan Rulfo, no final da década de 1980 – mas a morte de Reis, em 1991, fez com que o projeto nunca fosse concluído. A leitura proposta então pelos realizadores, centrava-se no romance de Rulfo, que ecoa muitas das preocupações evidentes nos filmes de Reis e Cordeiro – desde as realidades da vida camponesa e do despovoamento das zonas rurais aos temas da memória e do esquecimento, os vivos e os mortos.

Esta crónica atualiza brevemente o romance de Juan Rulfo, quando, numa das plataformas de streaming, uma adaptação mexicana, de muita qualidade cinematográfica e interpretativa, já estreou …foi pena não ser pelas mãos dos realizadores portugueses!

 

 

 

Notas

(*) Juan Rulfo –  Juan Nepomuceno Carlos Pérez Rulfo Vizcaíno (Jalisco, 1917 – Cidade do México, 1986), escritor mexicano. Em 1944, Rulfo fundou a revista literária Pan. Na década de 1950 o autor publica o livro de contos “El llano en llamas” e o romance “Pedro Páramo”. Apesar de ter abandonado a escrita de livros depois da publicação destas obras, Rulfo continuou ativo na cena literária mexicana, colaborando com outros escritores em roteiros (Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez), escrevendo para televisão, e dedicando-se à fotografia. A influência de Rulfo na narrativa e em geral na literatura latino-americana é sentida na obra de vários escritores que protagonizaram o chamado boom literário da segunda metade do século XX. (Wikipedia)

(**) A Guerra Cristera (também conhecida como Guerra dos Cristeros ou Cristiada) é o nome pelo qual ficaram conhecidos os conflitos armados resultantes da perseguição e repressão conduzidas pelo Estado no México contra a Igreja Católica e seus fieis. Tratou-se de um levantamento popular contra as leis anticlericais impostas pela Constituição Mexicana de 1917 promulgada em 1.º de dezembro de 1917. A maior parte do conflito armado se desenrolou entre 3 de agosto de 1926 a 21 de junho de 1929 (Wikipedia)

 

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