Lembremos Arsénio Mota, por António Gomes Marques

Lembremos Arsénio Mota

por António Gomes Marques

Há uns meses, não consigo lembrar a data, senti, ao vê-lo, que o Arsénio se preparava para nos deixar em definitivo. O Arsénio dava-me nota de que as forças lhe iam faltando de forma acentuada e a invocação das conversas do pai quando este se aproximava dos 90 anos passaram a ser uma constante nas nossas conversas, mesmo nos habituais e frequentes telefonemas. “Eh, pá!, tenho vindo a sentir, dantes com o passar dos anos, agora já quase de dia para dia, que a decadência é exactamente como o meu pai me foi descrevendo.” Eu procurava animá-lo, mas ele logo me dizia compreender as minhas palavras amigas, que eu era ainda um jovem. “Também já estou velho, Arsénio, tenho apenas menos 15 anos do que tu e penso que não chegarei à tua idade, sobretudo com a cabeça no devido lugar, com a razão a funcionar como sempre desde que te conheço.” Ele sorria e punha a mão no meu braço: “Acredita, pá, isto está por pouco e vem aí mais um Inverno e tu sabes o que esse período do ano provoca no meu organismo. Os pulmões, então, ressentem-se de tal modo que o cansaço é uma constante, basta que eu dê meia dúzia de passos.”

Tínhamos aprazado um almoço no Porto com outros amigos, almoço esse que teve de ser adiado por meses devido a problemas de saúde, em tempos diferentes, de dois dos companheiros que também estariam no repasto e, por isso, fui adiando a minha ida ao Porto e, nos meses que, entretanto, decorreram, as minhas conversas com o Arsénio aconteceram via telefone.

Por fim, lá conseguimos encontrar uma data e, uns dias antes, novo telefonema para o Arsénio para confirmar o tão desejado encontro de amigos à volta da mesa e receber do Arsénio a informação de que já não tinha forças para aguentar um almoço prolongado. Logo lhe disse que um dos amigos, o Rui Vaz Pinto, me tinha dito que o iria buscar e, assim, fiquei convencido de que o Arsénio iria estar connosco. No próprio dia o Rui ficou a saber que assim não seria, mas que o Arsénio passaria pelo restaurante para nos dar um abraço. E assim aconteceu, seguindo depois o Arsénio para mais uma consulta médica.

Da esquerda para a direita: Arsénio, eu, Manuel Simões, Adão Cruz, Emerenciano e Rui Vaz Pinto

Neste dia, 28 de Outubro p. p., tive a confirmação do estado de saúde do Arsénio, nunca o tinha visto tão debilitado. Foi neste dia que demos o último abraço, dos muitos que demos ao longo de quase 50 anos. Algum tempo depois falámos pelo telemóvel.

Em Setembro p. p. tive oportunidade de lhe dar uma notícia que o espantou, mas que não deixou de o encher de satisfação: “A Associação Promob da tua terra propôs-se trabalhar em parceria com o Museu do Neo-Realismo «no sentido de apresentar a exposição» que fizemos naquele Museu, para o que me solicitou autorização, dado ter sido eu o Curador. Evidentemente, respondi afirmativamente de imediato.” O Arsénio mostrou-se surpreendido e disse: “Não sei de nada”.

A PROMOB – Associação para a Promoção e Mobilização da Comunidade, com sede em Bustos, terra onde nasceu o Arsénio, tem definidas actividades em quantidade significativa, entre as quais ter «salas de exposições para divulgação de trabalhos de pessoas da comunidade ou de artistas reconhecidos nas mais diversas formas de arte ou ofícios de interesse cultural», onde julgo que caberá a exposição realizada em Vila Franca de Xira, no Museu do Neo-Realismo.

O Arsénio tinha-me dado conta da sua preocupação com o seu espólio, ao que eu respondi que, sendo ele um autor da segunda geração do neo-realismo, parecia-me bem que ele fizesse a doação do mesmo ao Museu do Neo-Realismo. “Tratas-me disso, pá?” e eu logo acrescentei: “Claro que sim. Vou colocar a questão ao Museu”. E assim se concretizou a doação da quase totalidade do seu espólio, sendo a parte restante cedida à Universidade de Aveiro mais tarde.

A Direcção do Museu do Neo-Realismo comprometeu-se a realizar a exposição a que se deu o título de “Arsénio Mota – uma vida como obra”, inaugurada no dia 1 de Novembro de 2014 e ali permaneceu até 22 de Fevereiro de 2015, da qual fui o Curador. Tive preciosa colaboração da equipa técnica do Museu, da qual não posso deixar de destacar a Dr.ª Odete Belo, com a consciência de que, sem esta colaboração, duvido que fosse capaz de levar a tarefa a bom porto.

Catálogo da exposição

Alguns dos textos inseridos no catálogo da exposição irão sendo reproduzidos neste blogue, em homenagem ao Arsénio Mota, lembrando a sua obra e a sua variedade, a sua luta constante pelo desenvolvimento cultural da sua terra e o amigo que, durante quase 50 anos, senti sempre ao meu lado.

Das viagens que fizemos, uma houve que nos marcou profundamente: a viagem ao Egipto, incluindo o cruzeiro no Nilo. Não viajo como turista, viajo para conhecer como vivem outros povos, para me confrontar com eles e tentar compreendê-los, respeitando-os também nas diferenças. O Arsénio tinha os mesmos objectivos.

Em Abu Simbel, Egipto
(Primeiro plano: eu e o António Pedro, meu filho; segundo plano,
da esquerda para a direita: Carlos Loures, Helena Xavier, Arsénio Mota, Ester Vaz e Célia Marques)

 

Ultimamente, para além das forças que acentuadamente lhe iam faltando, outros temas se impuseram nas nossas conversas inevitavelmente, a começar pela guerra na Ucrânia e as suas consequências, com a Europa a seguir caninamente aquilo a que chamo “o pensamento único Ocidental «made in USA»”, em que se destaca o estado social europeu a desaparecer acentuadamente ou mesmo com a União Europeia a acabar.

Outro tema inevitável é o genocídio do povo palestiniano praticado pelos sionistas, para o que nem necessitamos de uma fundamentação plural, bastando invocar o plano gizado em casa do sionista Ben Gurion e dias depois aprovado, como escrevi no meu texto publicado em aviagemdosargonautas.net — : https://aviagemdosargonautas.net/2024/02/26/quando-se-apoia-israel-o-que-esta-realmente-a-apoiar-se-por-antonio-gomes-marques/ — «Mas um plano de extermínio dos Palestinianos elaborado pelos sionistas já vinha de antes desta declaração de independência, com Ben-Gurion à cabeça, plano esse ultimado na tarde de quarta-feira, dia 10 de Março de 1948, por um grupo de onze homens, composto por líderes veteranos sionistas e jovens oficiais militares judeus, o Plano Dalet, que foi posto em prática e tem vindo a ser executado sistematicamente, o que o criminoso primeiro-ministro de Israel Netanyahu neste momento já se sente à vontade para não esconder. Foi a quarta versão deste plano a aprovada, as versões anteriores foram muito discutidas na própria casa de Ben-Gurion.», posição esta a que o Arsénio deu o seu acordo total.

Como não poderia deixar de ser, um outro tema aflorava no seguimento destas conversas, que consistia na referência ao estado da comunicação, com todos os órgãos de comunicação a se mostrarem pouco preocupados com a busca da verdade, o que muito afectou o Arsénio, como jornalista que foi. Neste tema, a transformação do rosto do Arsénio era imediata, com a tristeza e a raiva a serem evidentes, no que eu não podia deixar de o acompanhar. E a busca da verdade, sempre relativa como bem sabemos, foi entre nós uma preocupação constante.

Nas minhas muitas discussões com o Arsénio sobre o tempo que nos foi dado viver em comum houve uma ou outra divergência, mas acabávamos sempre por chegar a uma conclusão que a ambos satisfazia. E, analisando a questão da imigração — aqui convindo lembrar que também o Arsénio foi emigrante —, partilhávamos uma outra questão que tem a ver com o reconhecimento de apenas uma raça – a raça humana!

Outras discussões mais íntimas também aconteceram, factos da minha vida ou da dele, mais da dele, onde nem sempre conseguimos chegar a acordo. Essas ficaram connosco e, como ainda por cá me mantenho, assim continuarão.

O Arsénio, há uns anos, tinha-me avisado de que eu apenas tomaria conhecimento da sua morte depois de o seu corpo ter sido cremado. “Não quero velório, não quero funeral, mas apenas ser cremado de imediato. Depois, os amigos serão informados”, foi a resposta do Arsénio ao meu porquê.

Em 10 do corrente mês de Dezembro, recebi um «e-mail» da sua sobrinha, a Dr.ª Júlia Glória Mota Tavares Nunes, no cumprimento das indicações expressas pelo seu tio, com o anexo que reproduzo:

Até na morte a coerência do Arsénio se manifestou. O que sinto quando penso nesta forma de despedida está bem expresso nas palavras escritas pelo José Luís Pires Laranjeira, outro amigo comum, num «e-mail» que me enviou há dias, que reproduzo de seguida, pois não vale a pena inventar o que já está inventado:

“O Arsénio não poderia ser de outro modo.

(…)

O Arsénio não tinha ilusões místicas, míticas, transcendentais. A vida é matéria e é energia, movimento constante de partículas. Grande ser humano! Isso é que foi, um lutador pela desalienação!”

Portela (de Sacavém), 2024-12-23

2 Comments

    1. Boas Festas também para ti e toda a família e que o Novo Ano seja, de facto, novo, que permita, ao menos, que os mais desfavorecidos tenham comida na mesa nas três refeições diárias.
      Um abraço
      António

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