Entre os Bárbaros de Cavafy e os Monstros de Gramsci — Introdução. Por Júlio Marques Mota

 

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Introdução

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 15 de janeiro de 2025

 

Ainda a minha homenagem ao Rui Namorado

Rui Namorado definitivamente partiu. Partiu e à volta da sua despedida definitiva teve os seus amigos, os vindos de um passado longínquo, os de ontem e os de hoje. Não faltaram, pois, as pessoas de bengala e a um deles pedi eu a bengala emprestada para subir os três degraus que me levariam à capela Joanina. Disse-me que sim, mas só depois dele os subir. Ri-me, agradeci, e disse-lhe que um dia eu é que iria andar assim. Tudo isto para me referir às múltiplas amizades que o tempo longo da amizade fixou naquelas bengalas que por ali circularam.

Houve os discursos felizes que nessa despedida se fizeram, houve também os discursos que lá não estiveram. Exemplo, não percebi como é que um dos representantes mais significativos da esquerda estudantil conimbricense e de um movimento estudantil quase que único no mundo, não teve a presença de um Vice-reitor ou mesmo do próprio Reitor. Seria uma homenagem também, perante aquele corpo ali presente, a todos os estudantes que na vida de estudantes tudo arriscaram até a sua própria vida, por um Portugal livre que viria 5 anos depois. Sabemos que a Universidade é, do ponto de vista político um corpo á direita, estranhamente muito à direita, sabemo-lo e perguntamo-nos se a ausência desse discurso não tem esta coloração. Também não percebi, apesar da presença dos estudantes com capa e batina na capela, porque é que a Associação de Estudantes não fez uma despedida oficial perante aquela voz de liberdade agora pela morte silenciada. Em política, diz-se, o que parece é, e o que parece ali, nesta questão foi o silêncio estudantil. Também não percebi como é que um homem que dedicou grande parte da sua vida política ao Partido Socialista não teve oficialmente ninguém da Federação do PS de Coimbra a fazer um discurso de despedida, e, o que é mais grave ainda, não houve nenhum representante da Direção nacional a fazer-se representar no funeral e com um discurso de reconhecimento do que foi o Rui Namorado como militante. Trata-se de alguém que também foi deputado à Assembleia Nacional pelo PS pelo que não ficaria nada mal se urna fosse coberta por duas bandeiras: a nacional e a do PS. Com a bandeira do PS homenageava-se o militante, com a bandeira nacional homenageava-se o político que ele foi e honrava-se a Política.

O inferno são os outros, dizia Sartre, mas não é verdade, o inferno é a ausência dos outros, como naquela despedida com os discursos que não se ouviram. A Política é algo muito mais sério do que o silêncio, é a solidariedade e o respeito forjado na luta pelos valores da democracia, foi o que aprendi com o Rui, e que não ouvi ali por aqueles quem emblematicamente o deveriam fazer. E não estavam presentes para os dizer.

Face a estes silêncios que espero tenham sido meramente ocasionais, deixem-me roubar e adaptar um poema de um aluno de Eva Cruz à situação presente:

Adivinhei em ti um poeta desde os teus verdes anos

Adivinhei em ti um político desde a Universidade

Vi-te cantar a vida sonhando com a vida inteira

Vi-te relatar a Democracia em abril futuro

Mas a velha e ferrugenta ceifeira de foice em riste

Saiu-te no caminho e o teu corpo levou

Do resto, tudo rejeitou, poemas e relatos foi o que ficou

Deixou-nos os sons dos teus versos de abril,

E a tua visão da nossa Democracia de amanhã

Sabemos que nada disto se irá silenciar

Sabemos que estes versos iremos cantar

que a tua bandeira da Democracia iremos sustentar.

 

Pela parte que me toca e em homenagem à memória do Rui Namorado dedico-lhe a publicação da presente série “Entre os Bárbaros de Cavafy e os Monstros de Gramsci”.

 

Ao contrário do poema de Constantine Cavafy, À espera dos Bárbaros, estes, afinal, sempre vão chegar à cidade e com eles abre-se a época dos monstros de que nos fala Gramsci, monstros esses criados na era do neoliberalismo que agora se encerra com uma lápide assinada por Donald Trump no dia 20 de janeiro de 2025. E os novos eleitos, Democratas e Republicanos, já se mostram disponíveis para o servir, o que não deixa de nos fazer lembrar um conto de Kafka, O homem do leme, suponho ser este o título pois cito de memória

Entre a ignorância dos bárbaros, a ignorância daqueles que as nossas escolas geridas pelos democratas criaram e de que oficialmente só agora se começou a espelhar a partir de um relatório da OCDE sobre o ensino, e a maldade dos monstros que já se começa a mostrar, há que questionar como é que chegámos até aqui. Este é o primeiro passo necessário e possível para procurar reconstruir as linhas que nos possam levar a um futuro condigno e que os neoliberais de direita e de esquerda tanto se empenharam em destruir. Como assinala Gabriel Wynant, num dos textos da coleção: isto “, não é, em si mesmo, uma solução, isso é certo, mas é o primeiro passo necessário e possível.”

ENTRE OS BÁRBAROS E OS MONSTROS, será, pois, o título de uma série de textos que iremos publicar, a partir de hoje.

 

Abaixo deixo-vos o poema de Cavafy, na tradução de Jorge de Sena.

– À Espera dos Bárbaros (Trad. Jorge de Sena)

O que esperamos nós em multidão no Forum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.

[1904]

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