Há muito que não saía à rua
há muito que não saía fora de mim
em direção ao meu corpo abandonado
estendido em fria paleta sem cor
sobre um manto de poemas carcomidos
ruídos de musgo e manchas de bolor.
Há muito que não saía à rua
há muito que não sentia a dor
do desprezo da poesia
feita espuma de coisas impalpáveis
escaldantes
abertas e sangrantes
no sofrido labirinto da alma vazia.
Há muito que não saía à rua
há muito que não me apercebia um só momento
do cantar bronco do poeta
em perpétuo e estúpido invento.
Há muito que não saía à rua
há muito que não dobrava a porta deste corpo
abandonado na escuridão de uma noite peregrina
de lacrimosas horas perdidas
em poemas de cinza em cada esquina.
Há muito que não saía à rua
e pisava o chão purulento do degredo
na lama fria dos poemas e do medo
que rompiam as cadeias do meu corpo.
Há muito que não saía à rua
há muito que se apagou a felicidade
mudando o cair da noite e o nascer do dia
em matéria grosseiramente física
de telúricos versos
sem liberdade ou poesia.


Maravilhoso