LITERATURA: QUE LIBERDADE? – por Pires Laranjeira

LITERATURA: QUE LIBERDADE?

            Pires Laranjeira

Neste atual contexto sombrio para as esperanças de uma humanidade desesperada, devo começar por lembrar que a liberdade não é fácil, porque os antigos escravizados podem tornar-se escravizadores e genocidas. E grupos sociais e políticos, associações criminosas e instituições dos estados, serviços secretos e polícias fardados e disfarçados em milícias, militares, forças especiais e trogloditas, fartos de lutas de libertação e direitos, ou engordados e fascinados pelos poderes, oleosos e odiosos, pegam nas armas, em bombas, palavras, minas, cocktails, armadilhas e punhais e assassinam a diversidade da liberdade: a lista dos tipos de vítimas tem de tudo, correspondendo aos milhões de mortos e desaparecidos e esquecidos, sejam inocentes, crianças, pacifistas, bebés, deficientes, democratas, comunistas, fascistas, homossexuais, pansexuais, assexuados, piedosos, ecologistas, indígenas, negros, pobres, brancos, santos, eremitas, sem teto, esfomeados, pacifistas, apátridas, ateus, doentes, incapacitados, dominados, espezinhados, marginalizados, diferentes, diversos, estranhos, desconhecidos, fugitivos, minoritários, maioritários, ciganos, racializados, demonizados, aterrorizados, que nos atormentam a memória, essa putéfia que sempre quer esquecer o cabrão do nosso passado.

Que tal um poema sobre livre/idade de ser-se sempre jovem (libertinidade?), essa quimera de quem se quer sempre o mais livre possível? O poema – é certo, mas não sabido – chama-se “Liberdade”:

                         No limiar da tua porta

                         No soalho reluzente

                         Na caixa do teu piano

                         Escrevo o teu nome

                         No primeiro dos degraus

                         No segundo e nos outros

                         Na porta da tua casa

                         Escrevo o teu nome

                         Nas paredes do nosso quarto

                         No papel viperino

                         Na lareira de cinzas

                         Escrevo o teu nome

                         No teu rosto que me estendes

                         Nas tuas narinas abertas

                         Em cada um dos seios agudos

                         Escrevo o teu nome

                         No teu ventre como um escudo

                         Nas tuas coxas afastadas

                         No teu mistério corrediço

                         Escrevo o teu nome

                         Vim na noite

                         Conspurcar tudo isso

                         Vim pelo teu nome

                         Para o escrever

                         Com esperma

Este não é o celebrado poema “Liberté”, de Paul Éluard, comprometido com a Resistência Francesa ao nazismo. Houve um tempo em que esse poema “Liberté”, de Paul Éluard (muito lido: hoje, menos), funcionava como senha e lenha para a máquina da resistência ao nazismo e aos fascismos, aos totalitarismos sem piedade cristã, socialista, budista, democrata ou humanista: basta escolher o menu. O poema transcrito é de Boris Vian, que desvia o tema da política da coisa pública para a política do púbico. Vivia-se o existencialismo em Paris, essa magnífica cidade cheia de luz e de sombras, aliás como todas, seja Lisboa, mas pode ser a Cidade Velha, Luanda, Macau, Rio, Salvador ou Maputo. Poema libertário, incluso nos escritos pornográficos de Boris Vian, que estão publicados em Portugal. Mas o poeta que fala de “Vaginas horizontais, vermelhas/Abundantemente guarnecidas de dentes”, também escreve, numa conferência sobre o tema, que “não há literatura erótica”. Seria assunto para longa discussão, mas interessa que atentemos na questão principal da liberdade e sua relação com a literatura, tendo sempre na linha do horizonte que a escrita é escrava da língua e o escriba não se consegue libertar da cadeia, do encadeamento dos significantes, do discurso. A liberdade é limitada, logo no começo mental da escrita, em que se pensa/escreve numa dada língua e não se pode escrever numa outra, qualquer delas, das que há neste planeta. Pode não haver “literatura erótica” ou “literatura livre”, mas há “literatura engajada”, título de um livrinho recente de Sylvie Servoise, que trago quase sempre comigo, porque tem muitas chaves para esclarecimento e memória. A literatura começa entre a memória e o desejo de antecipação, no lugar do desejo e da pré-consciência. A liberdade começa onde não há poder e opressão e nunca se sabe até onde pode ir e quando acaba. Verdadeiramente, não somos livres.

A liberdade não é fácil. Sempre existiram – com mais ou menos determinação, pertinácia ou legitimidade – organizações como as Brigadas Vermelhas, Pol Pot, Wagner, PIDE, ETA, IRA, Hamas, Stasi, KGB, Legião Estrangeira, SS, Ku Klux Klan, Daesh, exércitos, milícias, revoltosos, brigadistas, mafiosos, serviços de inteligência (que ironia de certas designações!), torquemadas, inquisições, ditaduras, opressões, carnificinas, assassinatos, genocídios, e assim por diante, para que a vida andasse para trás, e refiro-me à dos inocentes.

Escritores privados de liberdade física e de pensamento e expressão? Páginas e páginas podiam ser preenchidas, quais memoriais. Sim, porque a liberdade de pensamento pode ser comprometida com autocensura, ou quando se atinge a depressão e a castração da mente, e não se consegue pensar porque não há condições mentais, anímicas e materiais para poder ler, descansar, discutir, vaguear e circular para saborear o relâmpago de novas ideias forjadas em discussões, diálogos, coletivos, grupos. Nazim Hikmet, o poeta turco, do novo Estado laico saído da queda do Império Otomano, por via da luta de Ataturk, herói nacional, amigo do escritor, que acabou por mandar prender durante anos, é um exemplo que tenho sempre presente. Agostinho Neto inspirou-se nele quando foi prisioneiro do colonialismo português, em Luanda: “Aqui no cárcere/eu repetiria Hikmet”. Mas o poeta acrescenta, a terminar o poema: “Ninguém/impedirá a chuva”. E assim foi que esses dois versos se tornaram anúncio da independência por vir: a chuva fertilizou a (ideia de) liberdade. Depois dele, o angolano Luís Kandjimbo, mais conhecido como ensaísta e investigador das literaturas e das filosofias do continente, escreveu no seu livro de poemas De vagares a vestígios: “Na terra de Nazim Hikmet/Vagueio na história da cidade/Em bazares e mesquitas/Meus pés sentem vetustos orgulhos/De Constantinopla, do Sultão e do Império/ (…) Na noite ruidosa/As putas russas/Como a amada do Sultão” (o poema chama-se “Istambul”). Turista, investigador, fascinado pelo Império Otomano? A liberdade não pode ter fascínio nem sequer pelos sugestivos impérios antigos do Mali ou Songhai. Não é coincidência, mas o retomar da tradição poética que se reclama da liberdade de escolha engajada, comprometida com a visão de mundo anti-imperial e pós-colonial, porém ciente de que ela pode desaparecer ou simplesmente ser driblada em qualquer esquina de uma independência, não deve sequer assomar ao espanto da grandiosidade seja de que império for. Mais vale o fascínio pela música da natureza. Ou pelas putas, como escreveu o poeta.

Para além de guerras, genocídios, lutas, terrorismos, atentados, assassínios, desmandos, autoritarismos, poderes, exércitos, legiões estrangeiras, mercenários, penas de morte, linchamentos, etc., com o caos e o terror a quererem tomar o poder e instalar-se, o escritor, antes de o ser, como ser humano individualizado, isto é, cidadão de algures, não vive em liberdade física nem na liberdade da sua mente. Pesam sobre as suas tentativas de liberdade os preconceitos da sociedade, a ordem, as regras familiares, costumeiras, religiosas, ideológicas, institucionais, a força dos tribunais, do parlamento, do governo, da legislação comunitária e da legislação excecional, das leis internacionais, dos abusos, das prisões de inocentes (por ideias políticas ou filosóficas, religiosas ou artísticas). Enfim, desde os tempos de bebé e criança, em que pode vir a ser escritor, o ser humano é constrangido, orientado, controlado, desviado, reprimido, castrado, funcionando a literatura como escape, cura, transe, descarga elétrica, prolongamento do corpo, tábua de salvação nos naufrágios da vida. A educação, a escola, a comunidade, as instituições, o trabalho e a alienação fomentam a perda da individualidade, do Ser que deveria ir na direção da integridade e da totalidade comunitária, global e cósmica, mas, ao ser encaminhado em prol da sociabilidade, do cumprimento de regras sem fim, da legislação, da fronteira, do impedimento, da perda de direitos e livre arbítrio, fica aprisionado nas teias dos poderes e da burocracia, da discriminação, tantas vezes entregue à voracidade do ónus lucrativo e ao entesouramento em que se enreda. A educação caseira e formal e as aprendizagens possíveis são obviamente necessárias, mas acompanham-nas a burocratização da vida e, constantemente, as tentativas identitárias de pensamento único ou binário ou alienador, e, muito mais perigosas, as ameaças à integridade do sujeito.

A literatura é uma das instituições da grande instituição da cultura, com a sua panóplia de fautores, associações, sociedades, editoras, distribuidoras, investigação e ensino, vertente comercial, divulgadores, controladores, aproveitadores e usufrutuários livres. Cada autor, cada texto, cada obra, cada circulação, cada leitura, cada sistema tem os seus fundamentos, desígnios, finalidades e funcionamentos. Há uma longa e complexa rede e um sistema de prémios, publicações, distribuições e consequências que escapam a qualquer controle individual e, no entanto, servem também ao controle dos cidadãos, porque existem censuras ditatoriais e também democráticas, mais subtis. Escritores são mortos nas guerras e na resistência às guerras e às ditaduras, são processados, julgados, exilados, presos, torturados e enforcados, guilhotinados ou fuzilados por escreverem e falarem, pouco que seja: Gregório de Matos, Sócrates, Sade, José Luandino Vieira, Marquesa de Alorna, José Craveirinha, Mahmoud Darwish, Charles Bukowski, Manuel Alegre, Cláudio Manuel da Costa, Ken Saro-Wiwa, Paul Verlaine, José Rodrigues Miguéis, Puig Antich, Olímpia de Gouges, Victor Hugo, Bocage, Aretino, Alexandre Soljenitsin, Miguel de Cervantes, Luís de Camões, Alves Redol, Aquilino Ribeiro, Maria Lamas, Óscar Wilde, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Francisco Manuel de Melo, Mário Cesariny de Vasconcelos, Fiodor Dostoievski, Gomes Leal, António Vieira, Jack Kerouac, David Mestre, Vsevolod Meyerhold, Isaac Babel, Gao Xingjian.

Todos fazemos parte do grande sistema das sociedades a que pertencemos desde o nascimento, desde um Luís Pacheco e um Jean Genet, ao Marquês de Sade, Camões, Paulina Chiziane, Machado de Assis, passando por José Luiz Tavares ou Arménio Vieira, Maria Teresa Horta ou Vergílio Alberto Vieira, confirmando ou denegando o louvor da democracia. Um sistema político, de facto com vantagens, dependendo de quais, de quando, onde e a favor de quem, mas, ainda assim, melhor do que qualquer outro, até ver. Veremos. A dialética é uma boa maldição que não nos deixa em sossego, porque é preciso estar alerta e não perder a consciência pessoal e social. Mas a lista de escritores feridos e atingidos no seu orgulho de libertários (quando são ou querem ser), tal como as listagens dos cidadãos anónimos e ainda os apócrifos e das civilizações que desapareceram, é gigantesca, incluindo desempregados, alcoólicos, drogados, miseráveis, ex-prisioneiros, fugitivos, espoliados, (antigos) revolucionários, vagabundos, extremistas, perseguidos, apaziguadores, arruaceiros, proxenetas, prostitutas, maquiavélicos. As sociedades assentam numa quota parte de caos organizador, tenebroso, desonesto, traumatizante e sádico. Não existem comunidades inteiramente sãs, bondosas e solidárias, para usar conceitos pietistas. Os escritores compõem o friso minoritário da sociedade, que ora os aprecia, ora os despreza, por cima de todo o ego e fortuna fiduciária ou ética. A literatura combate, interroga, inquieta, desassossega, informa, distai, aliena, dependendo da matéria de que é feita e do uso que dela se faz.

Tantos escritores que tiveram vidas difíceis, como viajantes ou traficantes, perseguidos, na miséria, correndo mundo e profissões, sujando e queimando as mãos em sangue ou na terra, nas minas ou na neve, dormindo no adro de uma igreja, tanto num catre como na sarjeta, com textos e mais textos recusados por editores, escritores que continuaram a escrever até o corpo lhes doer, insuportavelmente, sem desistir, lutando por uns direitos de autor e pagamentos sonegados, pelos direitos dos outros e das outras, pagos para comerem um pão e queijo ou uma sopa durante todo um dia, como Jack London ou Erskine Caldwell, ou, então, Sebastião Alba, enquanto outros viajavam por geografias físicas, humanas, religiosas, linguísticas e políticas de endoidecer qualquer ser humano e se tornavam iguais às pessoas que lhes eram estranhas, e penso em Richard Burton, um criador de heterónimos com que viveu diversas vidas reais, parecendo irreais, Lawrence da Arábia, o hábil aventureiro dos pilares de uma sabedoria conservadora, o praticamente desconhecido revolucionário B. Traven, refugiado no México, como Trotsky, ou o cultuado Arthur Rimbaud, tão libertino e livre, na vida como na escrita, mas também traficante de pessoas e armas. Com que armamentos, minhas senhoras e meus senhores, se tece a liberdade e a liberdade da literatura, quando ela pode ser livre! E será que pode ou trata-se, como sempre, da ilusão do engajamento – mas ele existe, não é, Lorca? -, do mimetismo, do realismo, do referente que somente refere, indica, mas não retrata, nem remete, nem remata, e apenas alude. A realidade que escapa à literatura, porque é ficção.

Não há epidemiologia do suicídio que possa salvar a tendência da atração (literária, libertária) pelo abismo da vida e da morte. Tantos escritores que se suicidaram, como quaisquer seres humanos, todavia atingidos pela tragédia da condição sofrida e interiorizada com a sensibilidade extremada: Camilo Castelo Branco, Cesare Pavese, Antero de Quental, Ernst Hemingway, Sá-Carneiro (o poeta), Manuel Laranjeira, Ana Cristina César, Primo Levi, Yukio Mishima, Heidi Holland, Walter Benjamin, Florbela Espanca, Stefan Zweig, Gilles Deleuze, Virginia Woolf, Romain Gary. A liberdade do suicídio? Para escrever um texto, um livro, uma vida, umas vidas inventadas? Vale a pena sofrer, não ser livre, para libertar a palavra e criar a literatura? Não há respostas para isto, somente poesia, física quântica.

Num texto de George Orwell, incluído no livro Porque escrevo e outros ensaios, pode ler-se: “Olhámos para o homem amarrado e encapuçado no cadafalso, e escutámos os seus gritos – cada grito um segundo mais de vida; o mesmo pensamento estava em todos os espíritos: oh, matem-no depressa, acabem com isso, parem esse ruído abominável!”. Há, então, um outro escritor que acrescenta: “Então pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome”. É Primo Levi, no livro Se isto é um homem. Ou, prosseguindo, em certo romance, temos um escritor que acaba por ir viver para um cemitério, junto com desafortunados e sem-abrigo: “Condenado à prisão e proibido de publicar por insultos a um chefe de estado estrangeiro, vira-se privado, ao sair da prisão, de toda a actividade literária rentável e, ainda por cima, perseguido diariamente por uma chusma de credores mal educados (…) Meditara sem cessar sobre a cobardia dos povos e a sua submissão ao impudor de governantes iníquos. Este obséquio para com os tiranos, que confinava muitas vezes com a devoção, provocava nele um perpétuo espanto, ao ponto de chegar a acreditar que a maioria dos humanos só aspirava à escravidão”. Isto está em Albert Cossery, em As cores da infâmia.

As cores da infâmia têm origem económica e social, mas igualmente cultural: “Neste sonho, eu ouvia-o falar-desfalar em crioulo, (…) depois manejar o crioulo ou o francês conforme os tempos de autoridade, de violência, de cumplicidade ou de medo” (Patrick Chamoiseau, Écrire en pays dominé).

Neste atual contexto sombrio para as esperanças de uma humanidade desesperada, sofre-se o horror de novos extermínios. Mahmoud Darwich, o poeta da Palestina, cujo livro Na presença da ausência, saiu em Portugal em 2024, e que ele não quis classificar dizendo que não era prosa nem poesia, um sintoma clarividente de liberdade arquitextual, afirma-se como artista esteticamente refinado e muito ciente quanto à dolorosa desrazão dos que se arvoram no direito de oprimir e reprimir os vizinhos durante décadas, com a impunidade da desmemória do sofrimento passado. Portanto, um livro poético, de prosa, da memória sofrida do povo palestiniano, mas que se aplica a qualquer outro povo desapossado e subjugado: “Não podes adentrar um novo dia sem um duche, uma barba feita, um jornal e uma chávena de café. Mas aqui a Terra tem dois metros quadrados e uma porta de ferro sempre fechada (…) Nem prisioneiro nem homem livre, porque a prisão é densidade (…) Aquele que se dedica a privar o outro da luz afoga-se na escuridão da própria sombra. Nunca te livrarás de mim a menos que a minha liberdade tenha a magnanimidade de te ensinar a paz e de te mostrar o caminho para casa. És tu, não eu, quem teme o que esta cela me faz (…) Tu tens de permanecer acordado, atento a mim, não vá o sono sacar-te a arma da mão sem te dares conta. O sonho é o meu ofício; o teu, a inútil intromissão numa conversa hostil entre mim e a minha liberdade (…) O fervor elevou-me ao seu mais alto grau e o sol de amanhã iluminou-me os túneis”. O livro foi originalmente publicado em 2006 e nem sequer é premonitório, ao falar de túneis, porque a falta de liberdade existe há décadas, na Palestina, desde que os ingleses abandonaram o território e o deixaram nas poderosas mãos dos israelitas saídos do genocídio e de lugares outros.

          Coimbra, 4 de fevereiro de 2024.

 

 

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