Nota de editor:
Este extraordinário texto de Júlio Mota, testemunho de uma vida, de uma sociedade, de circunstâncias que são já passado, está permanente e totalmente virado para o futuro, para uma sociedade com extraordinárias mutações, mas que será incompreensível se ignorarmos as suas raízes. E, infelizmente, não são apenas os jovens de hoje, muitos dos quais ignoram esse passado, são também instituições de elite como são as Universidades, são também os políticos e o poder político que minimizam quando não mesmo ignoram o passado (e querem mesmo apagar um passado recente libertador como foi o 25 de Abril de 1974) e o caminho percorrido de retrocesso que nos trouxe à situação atual. Situação que em diversos aspetos relembra misérias e perseguições que não queremos ver repetidas, uma situação que dá sinais de esgotamento do regime em que vivemos, sem que seja claro para onde queremos ir. Um tempo gramsciano, diremos.
E neste quadro de incerteza, e de potenciais perigos que se adivinham, neste quadro sombrio e distópico, grandes responsabilidades devem ser assacadas a uma esquerda, e também a uma direita, que se arrogam de anti extrema-direita, mas que na sua prática política enquanto detentores, por largo tempo, do poder muito têm contribuído para o surgimento e reforço dessa mesma extrema-direita. Em muitos dos textos publicados no nosso blog, nomeadamente de Júlio Mota ou por ele selecionados, se tem chamado a atenção para questões críticas que têm contribuído decisivamente para o estado de desorientação atual: redução do papel do estado social, com crescente privatização de serviços públicos essenciais, endeusamento dos mercados, enaltecimento desmesurado do indivíduo em desfavor do interesse coletivo, confusão entre direitos das minorias e direitos das maiorias, austeridade com crescente pobreza, crescente desigualdade da distribuição da riqueza, precarização do trabalho, tudo isto embrulhado em avalanches de informação, as mais das vezes manipulada, ou no mínimo enviesada, quer nas redes socais quer em canais públicos de informação.
Este texto do Júlio Mota, mais uma vez, tem a força e lucidez dos desafios que as suas reflexões sempre nos trazem e, como um seu amigo nos diz, tem “a mesma paixão pela (des)ordem do tempo que vivemos”.
Apesar de muito entusiasmante a leitura integral do texto, dada a sua notável extensão optámos por publicá-lo em oito partes – hoje a terceira -, seguindo a própria estrutura.
FT
14 min de leitura
Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (3/8)
A sociedade portuguesa em análise e na primeira pessoa
Coimbra, 20 de fevereiro de 2025
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Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento. JMota |
ÍNDICE
1ª PARTE – Introdução
2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto
3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF
4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país
5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo – a passagem à idade adulta
6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC
7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril
8ª PARTE – A ascensão da mediocridade às Universidades e ao poder político
ANEXOS
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(continuação)
3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF
6-7 anos depois disto se passar, sendo já aluno do ISCEF, sou internado no hospital de S. José com um maxilar e um côndilo partidos devido a uma invasão do ISCEF pela polícia de choque.
No dia seguinte, a minha mãe vai à loja comprar açúcar para fazer umas broas de mel e trazer-mas quando me viesse visitar: não sabia que eu não as podia comer. E veio. Deu-se uma situação emocionalmente complicada: Chega ao hospital e conduzem-na à enfermaria coletiva onde me encontrava, sozinho. Vinha alegre, radiante mesmo, parecia vinte anos mais nova. Felizmente, a minha namorada de então, e mulher de agora, estava presente. Eu não podia falar: estava com os maxilares todos aramados e cerrados. Só me alimentava a líquidos por uma palhinha introduzida pelo espaço de um dos dentes que foi partida com a violência da queda. Não podia falar.
Face à alegria dela tive de criar a minha própria alegria, só com os olhos. Fui bom ator, fui mau ator ? Não sei, não faço a mínima ideia. No meu rosto nada mexia. Fez-me perguntas antes de perceber que eu não falava. Respondi-lhe por escrito. Mas a minha mãe não sabia ler. A minha namorada li-a as minhas respostas. Ao escrever estas linhas estou a ver a cara dela, vestida de preto como se prezava a uma viúva, dobrada como se soubesse ler, virada para ver o que escrevi, com uma ânsia na cara como se quisesse comer as palavras que o filho não podia dizer ou talvez fosse o instinto de querer ter a certeza de que o que lhe estava a ser dito era mesmo o que eu teria escrito. Uma impossibilidade, não sabia ler. Impressionou-me a tensão do seu rosto, a fixidez do seu olhar, entristeceu-me a intensidade momentaneamente não escondida do sofrimento na sua cara estampado. Depois, a tensão passou, e voltou ao ar alegre com que tinha entrado na enfermaria.
E estivemos assim muito tempo. Foi aí que ela me explicou com detalhe a irritação que teve com a nossa prima Zabel, de que falaremos mais à frente. Naquela enfermaria, estávamos a ter um diálogo complicado, onde a minha rigidez facial fazia perder metade da riqueza afetiva sobre o que estava a falar. Ela fingia-se feliz para eu não ficar triste e eu, no limite físico do que podia, fazia o mesmo. A minha mãe tinha de voltar para o Fratel, tinha que tratar dos queijos que comercializava. Era do que vivia. Saiu com a minha namorada.
Saiu, e depois de sair surgiu-me uma pergunta que me incomodou profundamente: teria eu o direito de lhe dar este sofrimento? Esta era uma pergunta correta, mas estava a ser levantada num momento totalmente inadequado. Naquele e momento tê-la-ei levantado por efeito da anestesia. Era o momento inadequado para a fazer, pois eu estava no Hospital, não porque tivesse assumido uma qualquer posição política e então a pergunta estaria a ser feita num momento correto, mas estava ali porque era estudante universitário e estava em aulas no exercício da minha função de estudante, quando a polícia de choque entrou no ISCEF. Estava hospitalizado como uma das vítimas do ataque bárbaro que o ministro do Interior, António Gonçalves Rapazote, tinha mandado executar contra a Universidade e contra a ala liberal do Governo de Marcelo Caetano, na pessoa de Veiga Simão. Mais tarde disse-me o cunhado de Veiga Simão, um engenheiro topógrafo com quem me cruzei no Fratel e com quem conversei muitas vezes, que este se atirou em Conselho de Ministros contra Rapazote! Tiveram de segurar o ministro Veiga Simão e proteger o ministro Rapazote! Era o sistema a romper-se, era a extrema-direita no poder a jogar as suas últimas cartadas e a desfazer-se de podre que estava. Uma extrema-direita que hoje, muitos anos após o 25 de abril, se terá refeito e reconstituído para mal do nosso país de abril.
Noutras alturas, a pergunta estaria correta e ainda hoje não sei a resposta que lhe deveria dar. Fiquei, porém, com a certeza de que a minha decisão tomada e mantida desde os tempos de operário de não entrar no PC tinha sido a posição correta: Companheiro de estrada? Isso sim, camarada, não, não podia ser. Uma eventual prisão minha e isso seria a morte da minha mãe. Era o que aquela cara de sofrimento observada minutos antes me dizia. E esta pergunta deixou-me tenso, triste, muito abalado pela dor que lhe tinha criado, mesmo sem nenhuma culpa, uma tristeza que ela carregava no corpo e na alma, sentia-o eu, mesmo que ela se tenha fingido feliz em quase todo o tempo que esteve comigo. Uma alegria que soava a falso, mas em que com ela me queria dizer que estivesse descansado, que pela parte dela aguentaria o embate.
Mas voltemos atrás, voltemos à loja onde foi comprar o açúcar para os bolos que me trouxe, dado o significado político do que aí se passou. Encontra uma prima na loja do ti João Vicente que a insulta e disse-lhe mesmo que a minha mãe devia ter vergonha de ter um filho comunista! Não esqueçamos: naquela altura quem era contra o sistema, fosse o que fosse, era sempre um comunista. A resposta não se fez esperar: estou a ver a minha mãe, magricela e empertigada, a dizer-lhe o que lhe terá dito, segundo o relato que me fez: Oh Zabel, trata do teu filho que eu trato do meu como sei e como posso. Mas este trata do teu filho era insidioso.
Ambas sabiam que o meu primo sofria de doença grave na altura – epilepsia de grande mal – e ambas sabiam que o grande apoio desse meu primo, professor primário em Lisboa, era eu. A minha mãe sabia-o, porque se falava disso lá em casa, a minha prima sabia-o porque muitas vezes me pedia para ajudar o filho. De facto, fui eu que lhe arranjei um psiquiatra, o Dr. José Simões da Fonseca, era eu que muitas vezes o forçava a ir ao médico, era eu que o apoiava a ultrapassar algumas das suas situações de crise afetivas [17].
E digo crises afetivas, porque este meu primo tinha uma relação amorosa intensa e correspondida com a sua namorada, mas na cabeça dele, só na dele, havia um problema e grave: ele era filho de um ferreiro, ela era filha da média burguesia alta, ele era professor primário, um bom professor, acrescente-se, ela estava a preparar-se para ser um alto quadro na sociedade, como veio a ser. Mas não havia uma questão de origem de classes, ninguém lhe punha essa questão, a relação afetiva era intensamente correspondida, não, não havia nenhuma questão em termos origem de classes, o que havia era sim uma questão de marca de classe, de comportamento de classe na cabeça dele e nos seus comportamentos, o que é completamente diferente, que ele não ultrapassou.
A completar este quadro, adicione-se um facto para mim hoje relevante: ao contrário de mim ele entra no seminário e depois disso é que faz o Magistério Primário. São anos de pressão ideológica, de vivência em clausura e naquela idade: para mim penso ser pior do que ser marçano, embora sendo uma coisa socialmente mais limpa. Estas três coisas juntas, a clausura do seminário, a doença e um amor intensamente desejado e na cabeça dele tornado impossível, terão feito da cabeça dele um inferno. E a esta terrível realidade deve-se adicionar o não respeito das regras a cumprir com aquele tipo de doença. O resultado final foi para ele garantir-lhe precocemente a viagem para o eterno e, para mim, foi sofrer a perda de um grande amigo.
Na cabeça do meu primo, a marca de classe representava o inferno contra o céu desejado na sua relação afetiva e, no quadro da doença de que sofria, isso gerava-lhe crises emocionais complicadas. As terapias hoje serão bem diferentes, penso. Era nessas crises que eu funcionava, procurando desdramatizar a situação. Terei sido um mau psicoterapeuta, mas fui o melhor que pude, o melhor que soube. Mas uma coisa eu confirmei e que já sabia por experiência própria: confirmei que é bem mais fácil ultrapassar as situações de origem de classe do que as marcas de classe e não é por acaso a frase de Marx, diz-me como comes e dir-te-ei de onde vens. Nas palavras como comes estão subentendidas as marcas da origem de classe como bem marcadas (ver no anexo 3 a reação de um amigo meu a esta questão).
Mesmo assim, essa minha prima diz à minha mãe que eu deveria estar era preso! Esta situação mostra três coisas:
- Mostra que eu já tinha consciência política da importância ideológica que o fascismo tinha na mente daquelas gentes e de que eu tinha de me precaver quanto a insultos possíveis sobre a minha mãe se não houvesse missas em memória do meu pai. E o pós-74 provou que essa força mental nunca deveria ter sido ignorada. A pedagogia feita quanto a isto foi pouca e teve em Francisco Pereira de Moura um mau pedagogo no sentido de aparente falta de emoção naquilo que dizia, sobretudo na forma professoral como o dizia. Era preciso calor na comunicação e o grande professor que ele era, para isso não dava. Lamento dizê-lo, mas isso conta. Era um papel que alguns militares fizeram e bem nas atividades apenas locais, mas não chegavam para as necessidades do país. Se houvesse mais cuidado e menos pressa, a dar tempo à pedagogia no pós-abril de 74 de produzir os efeitos que dela se poderiam esperar, ter-se-iam evitado alguns dissabores.
- Mostra muito mais do que isto. Mostra que uma grande parte da população portuguesa “sofria” de anticomunismo primário e em que tudo o que fosse oposição declarada ao fascismo era considerado comunismo. Adicionemos a isso o facto de que uma grande parte da classe operária portuguesa ser constituída por gente vinda das aldeias, criada na mesma base ideológica e que mantinha lações familiares muito estreitos à terra. Mas não eram só os laços afetivos que eram mantidos, era também garantidos laços económicos no seu apoio ao sustento dos seus na cidade, com as couves, as cebolas, as batatas, os enchidos, o azeite, etc. Eram bem conhecidos os comboios da Beira Baixa sempre cheios de cabazes. Somados campo e cidade, nesta base, lamento dizê-lo, isto traduzia uma forte base de apoio popular a sustentar o fascismo.
- A consequência desta realidade é o permitir ao sistema fascista manter baixos salários monetários na indústria, pela existência desta “compensação invisível“ e assim se desenvolveu a cintura industrial de Lisboa, com claros sinais no final dos anos 60 de estar a criar uma zona de Maquilhadora, a antecipar a Maquilhadora da fronteira do México que se criou mais tarde, ou seja, a industrialização da longa fronteira do México com os Estados Unidos, basicamente através estratégia das multinacionais em relocalizar partes ou segmentos dos seus processos produtivos.
Um ano depois desta história se ter passado, e totalmente independente dela, o ministro Veiga Simão, sob carta de recomendação dos professores Alfredo de Sousa, Monteiro Alves e Ramos Pereira financiava com um subsídio de 6100 escudos (naquela época era dinheiro) a minha ida a Paris para estudar durante as férias, enquanto os finalistas do meu ano serviam a propaganda fascista passando na viagem de curso por Luanda. O meu pedido de subsídio ao ministro tinha como principal objetivo o de cobrir politicamente face à PIDE o meu pedido de emissão de novo passaporte, por suposta perda do anterior e a seguir é que vinha o problema do dinheiro, mas esse utilizar-se-ia à medida do que houvesse. E confirma-se, tinha razão em proceder assim.
Fui chamado à PIDE para explicar a perda do passaporte. Neste inquérito foi bem evidente o ódio que as gentes da PIDE tinham ao ministro Veiga Simão. O agente da PIDE, creio que inspetor, leu-me a ata do interrogatório onde se dizia: tendo feito um pedido, na qualidade de finalista, a Sua Exª o Senhor Ministro da Educação Veiga Simão, de subsídio para ir a Paris nesta altura. Dito desta forma, marcava-se que se o ministro desse o dito subsídio estava a dá-lo a alguém que não só não era um dos deles, mas como era contra os deles. Nada disto era inocente. Reagi e disse: não foi na qualidade de finalista: foi na qualidade de estudante, é para estudar que vou a Paris, não é para gozar férias como finalista. Estamos de férias, mas aproveito o tempo para estudar. Desculpe, retorquiu o agente: é ou não é finalista? Sou, disse eu. Bom, então assine, diz-me o inspetor já de pé, com um ar de vitória. E assinei. Um ano depois deste relato, o governo caía e a PIDE desaparecia.
Passada a data indicada de entrega do passaporte, passei a ir diariamente ao governo civil para saber se já o podia levantar. A senhora do guichet de atendimento geral já me conhecia, de tanta vez lhe fazer a mesma pergunta: saber se podia levantar o passaporte. E respondia-me com um ar triste, como se adivinhasse o medo que me ia na alma quando me dava como resposta, como se estivesse também a partilhar o meu sofrimento, o seguinte: ainda não veio. Passadas as primeiras vezes, mal me via na fila de espera e fazia-me sinal com a mão: nada, ainda não nada, queria ela dizer e sempre com o mesmo ar triste estampado na cara. Parecia-me ser uma mulher batida naqueles dramas dos passaportes que não vinham.
Comecei a ficar assustado. O tempo passava e corria o risco de passar as férias da Páscoa sem o passaporte, o que significava que perdia a justificação para estar a pedir uma nova emissão. Decidi então ir ao Ministério da Educação, no Campo dos Mártires da Pátria nº 2: Passo o largo portão de entrada e lembro-me dos meus tempos de criança de onze anos em que escrevi para esta morada três cartas de protesto pelo que se estava a fazer em termos de educação na minha terra. Espantosamente, chego ao gabinete do ministro Veiga Simão, o que hoje penso ser impossível, chegar ao chefe de gabinete do ministro e sem nenhuma cunha.
Aqui, sou recebido pelo chefe de gabinete, penso ter sido o engenheiro Formosinho, que me diz o seguinte: arranje três cartas de professores seus, arranje quem lhe empreste o dinheiro e eu garanto-lhe que à vinda de Paris lhe dou o dinheiro. Assim fiz. As cartas foram-lhe entregues em mão, sublinho este facto, numa sexta-feira ao princípio da tarde. Na segunda- feira seguinte, como habitual, vou à tarde ao Governo Civil. Coloco-me na fila de espera e eis que …transbordando de alegria a senhora do guichet levanta o passaporte ao alto e acena-me também com a cabeça, para que eu não tivesse dúvidas. É difícil expressar o sentimento de alívio quando a vejo fazer isso. Num mundo imaginário, o que só poderia acontecer no cinema, quase que apetecia saltar para lá do guichet e abraçá-la de comoção, de reconhecimento por aquela fraternidade silenciosamente partilhada. A ideia que tudo isto me deu é que as cartas de recomendação, de resto assinadas por pesos pesados no ISCEF, terão permitido ao Ministério dar alguma indicação do seu interesse no aluno em questão que era eu. É o que penso.
Quando voltei de Paris recebi um postal do Ministério para me dirigir ao chefe de gabinete. Assim fiz e este deu-me em mão os 6.100 escudos e diz-me o seguinte: o país precisa de técnicos, precisa de os formar, é por isso que lhe estamos a pagar as suas despesas de formação.
Em Paris, corri tudo o que era Biblioteca, desde manhã e até ao final da tarde, almoçando por lá, bem ou mal, disso já não me lembro. Conheço bem Paris [18], isso é verdade, mas basicamente da cidade de Paris conhecia naquela época sobretudo os seus subterrâneos, as estações do metro e as bibliotecas. Nada mais. Vim carregado de textos, centenas e centenas de fotocópias. Estamos em 1973. Muitos desses textos vieram parar às mãos dos alunos do ISCEF ou até de alguns dos seus professores, ou às mãos dos alunos da FEUC pós 1975.
No caso do ISCEF ainda me lembro de ter traduzido e publicado com um dos meus alunos de então, Jorge Lucena, que mais tarde passou a ser meu afilhado de casamento, vários textos traduzidos pelos dois e batidos numa velha Remington que eu tinha e de que lamentavelmente me desfiz. Destes textos, penso que um deles terá sido A Mathematical Note on Marxian Theorems [19], de Nobuo Okishio. O texto terá sido escrito com uma gralha de grafismo por escrevermos mal numa máquina de escrever, frações em que o numerador e denominador tinham também eles frações e penso que isso tinha a ver com a expressão geral para a taxa de lucro. Trata-se de um tema importante no marxismo e com assinatura de um importante autor, mundialmente conhecido, mas desconhecido em Portugal.- Isso deu depois origem a que um jovem assistente, um promissor matemático que se confirmou depois, tenha retomado o texto e tenha feito uma conferência no ISCEF com a grande sala da Biblioteca apinhada de gente. Mas houve aqui uma gralha bem maior que a gralha que eu e o Jorge Lucena cometemos no texto: não me foi pessoalmente dito nada quanto à realização da conferência. Passada a espuma desse facto, comuniquei ao responsável da disciplina em que a conferência esteve inserida o meu desagrado pelo ocorrido. Ficou espantado e quis ir imediatamente chamar o assistente em causa. Recusei e com firmeza que isso fosse feito e mais, exigi que o assunto morresse ali, o que julgo ter acontecido [20].
Falo disso para confirmar e honrar aqueles que assinaram as ditas cartas de recomendação, falo disso para explicar que a atitude do chefe de gabinete de Veiga Simão era uma atitude ponderada e traduzia uma filosofia avançada para a época quanto ao ensino, falo disso para explicar a fragilidade teórica de todos nós, a começar por mim [21], em termos dos grandes clássicos da economia, e aqui também do marxismo, falo disso para explicar que a política de ensino de Veiga Simão, para lá da criação e extinção dos gorilas, procurava através da sua reforma do ensino e das suas estruturas criar uma janela aberta para o mundo e, por isso mesmo, concentrava os ódios da extrema-direita em Portugal e seria pois um alvo a abater. E o assalto ao ISCEF e a minha permanência naquela enfermaria do Hospital de S. José eram disso uma evidente prova.
Mas voltemos ao universo mental da minha mãe, da minha prima e das gentes do campo no tempo do fascismo. Perceba-se então o meu raciocínio geral de então tanto quanto às missas, estávamos em 1965 -, como quanto ao peso que a formação cristã tinha na minha forma de ser e estar; perceba-se ainda como é que a propaganda anticomunista da Igreja católica estava bem presente na alma daquela gente rural. Recusar a Igreja, defender a mensagem de Cristo aprendida e interiorizada, isso era coerente comigo, embora possa parecer absurdo na época, como pode parecer absurdo aos olhos do leitor de hoje. Talvez, mas não era absurdo para mim na altura tal como não o é ainda hoje.
A defesa da mensagem cristã tê-la-ei feito pela matriz cultural criada na infância, logo por princípio, mas não só, tê-la-ei feito também por instinto, por necessidade, a necessidade de ter um código de ética que me permitisse “ler” o mundo e orientar-me no meu próprio quotidiano e tanto mais quanto menino era coisa que aos 11 anos já tinha deixado de ser e estava sozinho na grande cidade, Lisboa. Essa matriz cultural seria a primeira lente de olhar e compreender o mundo. Mais tarde e não por sobreposição, assinale-se, junta-se-lhe uma outra lente, de mais largo campo visual, o marxismo.
Aqui ter-me-á sido muito útil a leitura do marxista Henri Lefebvre e do primeiro livro que li dele, quando assinalava que podemos ignorar Deus, mas nunca devemos ignorar a mensagem de Cristo. Creio que li esta sua posição num pequeno livro Le Marxisme da coleção “Que sais-je”. Com a leitura de Lefebvre reforça-se-me mentalmente a força da primeira lente e redimensiona-se a força interpretativa da segunda, aumentando-a, e assim cheguei ao marxismo pela força moral do cristianismo. E é com estas duas ferramentas que deixo de ser marçano e passo á condição de operário fabril e com uma bem mais forte capacidade de resistência aos desaires da vida difícil que tinha pela frente.
Cerca de 12 a 15 anos depois de ter lido esse seu primeiro livro, cruzo-me com Henri Lefebvre na casa de gente católica em Lisboa, na Rua Ricardo Espírito Santo, para onde fui convidado para conversar com Henri Lefebvre. Ter sido Henri Lefebvre convidado de gente católica – a esquerda católica foi muito importante no antes e no pós-25 de abril – também não terá sido por acaso. Aliás, eu colaborei com o dono da casa numa peça para o Jornal do Fundão da época, onde estava, creio eu, o Vicente Jorge Silva, sob o tema regime comercial dito de drawback, como colaborei com ele na feitura de alguns dos jornais publicados pela JOC-Juventude Operária Católica.
Para esse serão (estamos em 1974), levei um colega meu amigo, o Vasco Leitão, um conhecido do dono da casa: eram da mesma terra. Estava também presente o arquiteto Nuno Portas e mais duas pessoas do Fundo de Fomento de Habitação, para além do dono da casa, todas elas ligadas também ao programa de habitação SAAL- Serviço de Apoio Ambulatório Local. Foi um agradável serão, onde além de discutirmos urbanismo, de discutirmos especulação dos solos e rendas urbanas nas cidades e a distorção dos preços que provocava nas relações indústria-agricultura, falou-se de rendas absolutas e do Alentejo [22], isto em termos gerais, pois discutiu-se sobretudo a Revolução de Abril de portas mil; falou-se ainda de uma realidade que eu desconhecia, a de que muitos dos bairros degradados de Lisboa estavam situados em zonas que mais cedo ou mais tarde estariam sujeitas a fortes efeitos especulativos, porque estavam sobre linhas em que a cidade se tenderia a expandir. Vejam-se os bairros de Chelas, da Picheleira, do Relógio, do Casal Ventoso-Campolide, entre outros.
Nesse serão e para ironia de todos nós, o Nuno Portas defendeu com muita humor a tese de que o nosso nome carrega desde o batismo com o nosso próprio destino. E dizia: olhem para mim, sou Portas, logo só podia ser arquiteto! Virou-se para o meu colega Vasco Leitão e diz-lhe a rir: e o meu amigo é Leitão de nome, e vai ser leitão na vida. Vai ter uma vida difícil a justificar o nome que lhe deram, é isso que vai ter. Rimo-nos todos. À saída da casa dizia-me o Vasco Leitão: o Portas deve ter razão. Sou Leitão de nome e de vida, olha a vida que levo. Com um ar tenso, a noite já ia bem longe, com alguma irritação respondi-lhe: cura-te da guerra onde andaste e voltarás a ser o que eras. Não se curou, não voltou a ser o que era, piorou e morreu de cirrose. Uma morte como a de muitos que não morreram na guerra, mas morreram da guerra. Desses nem as estatísticas falam!
(continua)
Anexo 3. Sobre o que se veste e não veste
Meu caro Prof. Júlio Mota, li atentamente o seu penúltimo e-mail sobre as razões que aduz para não se ter doutorado. Embora parte do seu percurso de vida já o conhecesse, aqui, o Prof. abre-se de uma forma tal, que chega a ser comovedora.
Para justificar porque não se doutorou lança mão de diversas circunstâncias, todas seguramente plausíveis.
Eu, porém, resumia-a a uma só: O Prof. e as suas circunstâncias, e as marcas que ficam no disco duro (conforme referiu o seu amigo da maxilo-facial dos HUC), que não o deixaram sequer vestir um fato ao longo da vida, como iriam aceitar que vestisse aquelas fardas académicas e colocar a borla e o capelo?
O meu avô paterno tinha uma pequena mercearia em XXXX no Douro (concelho YYY). Teve três filhos, sendo que o meu pai era o mais velho. Só tinha capacidade económica para financiar um curso superior a um dos três. Caberia essa sorte ao meu pai, talvez dos três o mais inteligente. Só que a sorte não lhe deu essa chance. Aos 8 anos de idade contraiu sarampo e ficou com cerca de 18 dioptrias em cada vista e, os médicos, na altura, foram categóricos em afirmar que o meu pai não podia esforçar a vista, e que, como tal, desaconselharam liminarmente que o meu pai viesse a licenciar-se. Coube essa sorte ao segundo irmão.
O meu pai concluiu o curso comercial na Escola Oliveira Martins, no Porto, com notas fabulosas e teve como primeiro e único emprego ser gerente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo em XXXX, durante longos anos a única agência bancária do concelho.
Herdou alguns terrenos, poucos, do meu avô, e foi adquirindo alguns prédios rústicos para exploração agrícola. A minha mãe era professora primária. O meu pai foi sempre uma pessoa culta, que a minha mãe tinha de vigiar permanentemente, para que não esforçasse a vista para além do que a sua profissão exigia. Mas, não tomavam um café, não se davam ao mais pequeno “luxo”.
Entretanto, eu fico noivo da minha primeira mulher, que pertencia a uma família “bem” do Porto. Seguindo as convenções de então a boda era custeada pelos pais da noiva.
Até aí tudo estava a correr dentro da normalidade até que o meu pai tomou conhecimento de que os cavalheiros tinham de ir de fraque. E deu-se um vendaval! O meu pai recusou-se a ir ao meu casamento, se tivesse de ir de fraque. Para os meus futuros sogros o casamento com fato de cerimónia era um deslustre. Mas a recusa do meu pai foi mais ponderosa. O casamento foi de fato de cerimónia.
Este é um pequeno apontamento, para enfatizar que como diz Ortega y Gasset, que somos nós sem as nossas circunstâncias.
MS
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Notas
[17] Um outro agradecimento devo aqui fazer, agradecer ao António Rodrigues a dupla leitura feita a longos excertos deste texto. Digo dupla leitura, porque se um texto se lê com os olhos, é sempre assim, este foi lido em simultâneo também com o coração. E por uma simples razão: muitas vivências relatadas nestes excertos foram lidas como sendo também as suas. Nascido e crescido na orla de Coimbra, em Santa Clara, com ele fiquei a saber que, afinal, aí se vivia na década de 40 e 50, desde que se não fosse de origem remediada, com a mesma dificuldade (ou quase) com que se vivia, na minha terra, Fratel, uma terra quase para lá dos confins do que se podia chamar desenvolvimento. Isso confirma-nos, para além do meu relato, que o futuro de muita gente em qualquer região deste país e naquele tempo, morria assim, na transformação de situação conjuntural de pobreza em condição estrutural de pobreza.
O que se acaba de dizer, pode parecer uma afirmação forçada, mas não o é. Um número para exemplo: os livros para o 11º ano em 1966-1967 custavam 1150 escudos, o equivalente em termos nominais a 520 euros hoje, mas com um peso maior no rendimento de então do que os 520 euros têm hoje. Adicionem-se ainda o custo das explicações para a admissão à Universidade que se fazia naquela época. Claramente, naquela altura estas eram despesas que muita gente não poderia suportar e falo de gente a viver na cidade, e muito menos as poderia pagar a maioria das pessoas que vivia fora dela. Falo, pois, de um país que tinha fechadas as portas do ensino médio e superior à maioria da sua população.
Para a maioria dos filhos deste país de então, progredir nas habilitações escolares para lá do ensino básico, isso era quase um milagre. Terá sido um quase milagre o que eu fiz, mas à custa, por vezes, de chegar a pisar a linha do inferno. A grande arma do fascismo para se sustentar, e talvez tanto ou mais eficaz que a da PIDE, era estabelecer e manter o seu próprio apoio de massas na base de um povo ignorante que ele próprio “fabricou” assim. O caso da minha prima Zabel acima relatado, assim como o silêncio das pessoas que assistiram à agressão verbal da minha mãe na loja do Ti João Vicente, atestam bem esta cruel verdade.
[18] A sério, conheço bem Paris cidade apenas a partir de 2017 quando fui durante 14 dias mostrar a cidade a uma neta minha, mas aí era mais a obrigação cultural para com ela do que o prazer de estar a fazer turismo que estava em jogo. Aliás, um elemento do grupo Roosevelt, António Bagulho, a que pertencíamos, num jantar no Procópio pergunta-lhe mesmo: diz-me de entre as tuas amigas se conheces alguém cujo avô faça 4000 Km para fazer feliz a sua neta. Esta ficou a olhar para quem ternamente lhe fazia a pergunta..
[19] Creio ter sido este o texto e se foi, a sua publicação tinha uma função pedagógica bem precisa: a de mostrar aos estudantes que o marxismo era uma linha de análise científica e que, enquanto tal, nunca poderia ser reduzido a paleio e era isto quer estavam a querer que fosse feito.
[20] Enviei previamente este texto já concluído ao grupo de pessoas que me apoiaram na revisão dos muitos e longos textos publicados em homenagem ao saudoso Joaquim Feio. Um deles, o Júlio Gomes, meu antigo aluno e amigo, responde-me dizendo: “Se tiveres tempo vê e analisa https://resistir.info/m_roberts/capitalismo_11fev25.html “.
Segui a sugestão, vi, li. Trata-se de um artigo de Michael Roberts cujo original eu tinha na minha caixa do correio eletrónico à espera de ter tempo para o ler. Mas enviado nestes termos pelo Júlio Gomes depois de ter recebido o presente texto tem outro significado e este é pura e simplesmente o seguinte; de 6 a 8 deste mês de fevereiro decorreu em Tusla a conferencia inaugural do Center for Heterodox Economics, (CHE) dirigido por Clara Mattei. Nesta conferencia anual de dois dias que reuniu alguns dos mais relevantes economistas heterodoxos da atualidade (economistas não neoclássicos) três nomes foram uma referência constante nessa conferencia, Marx, Sraffa e também Nobuo Okishio, que acabámos de referir acima. Dos dois primeiros fala-se muito neste texto, quanto ao terceiro referimos o que aconteceu em 1974.
Tendo em conta as matérias de que se falou nessa conferência inaugural em Tusla, direi então, face ao mundo universitário português de agora, povoado por vários catedráticos tão jovens que os poderemos considerar de aviário no confronto com os velhos catedráticos de outrora, que tenho muito orgulho no “faro” científico e no que fez aquele rato de biblioteca, que só conhecia Paris pelas estações de Metro e de rato alcunhado por um funcionário da biblioteca do ISCEF e seu amigo, o Nuno Salavessa Moura. Foi nesse contexto que nos anos setenta, esse rato de biblioteca traduziu Nobuo Okishio para português, apesar da gralha tipográfica e esta tinha a ver apenas com um dos lados do parêntesis curvo. E este autor, 50 anos depois de estar a ser ignorado em Portugal, continua a manter-se como um nome de referência mundial.
[21] Vencer a minha ignorância sobre as linhas de análise estabelecidas a partir dos grandes clássicos da economia, Smith, Ricardo e Marx, constituiu o meu projeto de vida ao longo de décadas e dessa escolha não tenho nada a lamentar, antes pelo contrário.
[22] Nesta matéria já sabia um pouco sobre os efeitos que implicava a existência de outros fatores na repartição, sobre a formação e a distorção dos preços relativos, o que me permitia um discurso não técnico sobre o tema. Também já tinha lido a obra acessível Le tribut foncier urbain de Alain Lipietz, um autor que a um outro nível, já bem mais abstrato, utilizámos em 2024 na série de textos dedicada ao Joaquim Feio e exatamente sobre a renda absoluta, mas em Sraffa.




Caro Júlio
Antes de mais um grande abraço.
Quanto ao encontro com o Henri Lefebvre na Rua Ricardo Espírito Santo que referes, os donos de casa eram a Marta Ulrich e eu próprio Hélder Paulo Tiago, originário do Tortosendo – Covilhã como o Vasco Leitão, e a algumas estações de comboio depois do Fratel mas na mesma Beira Baixa que nos formou aos três.
Quanto á observação que colocas na voz do Nuno Portas, se bem me lembro, foi produzida pela assistente do Henri Lefebvre – brasileiro – ele próprio chamado de Vila Nova, se não me falha a memória. E acrescentava á lista o nome do então Secretário de Estado do Ambiente que se chamava Ribeiro, Ribeiro Teles.
Quanto a “gente católica” nem eu nem a Marta á época nos sentiríamos confortáveis nessa etiqueta.
Mas há mais memórias comuns entre nós.
Deixo-te o meu endereço para contato
htiago1@yahoo.fr
A pedido de Júlio Mota:
Memória contra memória.
A frase para mim é de Portas. E estou a vê-no sofá de costas para a parede mas isto vale o que vale. Já lá vão 50 anos.
Quanto ao resto a filosofia daquela gente era de matriz cristã e era isso que me queria referir e sempre dificil explicar bem bem a diferença. E o SAAL tem na minha opinião esse espírito.
Uma vez fiz um texto onde era peça central a tuia casa de campo arrendada ao Senhor Campos. Na altura, o Mariano reviu o texto e deu-te como morto! Folgo e com que alegria que tu e a Mara estejam bem vivos.
É mais dificil mas é sempre possivel que a gente se encontre a beber um copo como naquela noite e poderei ir mesmo a Lisboa de propósito para isso.