Nota prévia:
Infelizmente, ao lermos este texto de Claudia Carpinella, concluímos que o retrato aqui divulgado em A Viagem dos Argonautas em Junho de 2020 (ver aqui) se mantém inalterado, ou antes agravado. Uma exploração desenfreada, cada vez mais gente assassinada, em que a vida humana, começando pela das crianças nada vale perante os omnipotentes mercados, neste caso, o da alta tecnologia. Até quando?
E o mercado não somos afinal todos nós?
FT, 11/03/2025
Seleção e tradução de Francisco Tavares
4 min de leitura
Sangue e Coltan: o coração das trevas do Congo
A República Democrática do Congo é mais uma vez vítima de um conflito feroz. Outra vez sangue, que alimenta o comércio internacional de coltan, essencial para a tecnologia.
Publicado por
em 27 de Fevereiro de 2025 (original aqui)
A notícia de que setenta cristãos foram encontrados decapitados dentro de uma igreja protestante na República Democrática do Congo (RDC) deu a volta ao mundo. Mais um massacre devastador contra civis assassinados, estes, como outros, por causa da sua fé, mesmo que, mais do que o ódio à fé para motivar os assassinos que estão desenfreados na RDC, sejam interesses bem definidos.
O massacre, que teve lugar numa aldeia do Kivu do Norte, foi perpetrado pelas Forças Democráticas Aliadas (ADF), um grupo armado filiado no ISIS e, como outros, ligado ao conhecido M23, um grupo armado que lidera uma coligação dos chamados “rebeldes” que nos últimos meses está a levar a cabo uma ofensiva violenta nas regiões orientais do país. Desde o mês passado, o M23 conquistou a principal cidade de Kiwu, Goma e também Bukavu, um avanço que custou a vida a mais de 7 mil pessoas, muitas delas ainda não identificadas (al Jazeera).
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Neste momento, parece que a coligação está pronta para “iniciar conversações com o governo para acabar imediatamente com os combates”. Depois de milhares de mortos e de deslocados, é preciso perguntarmo-nos se esta abertura ao diálogo resulta de uma estratégia bem calculada. A questão permanece, tal como a afirmação.
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O coltan ensanguentado
Há mais de trinta anos que o leste da RDC é dominado por um dos conflitos mais sangrentos e não resolvidos do mundo. Não escapa o facto de precisamente neste país, nas províncias do Kivu do Norte e do Sul, estar concentrada a maior parte das reservas de coltan (80% do coltan do mundo provém destas regiões). Um mineral que vale tanto quanto o ouro – mas muito mais raro – do qual se obtêm nióbio e tântalo, indispensáveis para os produtos tecnológicos.
Para se ter uma ideia da sua importância, cada telemóvel de última geração contém cerca de 40 miligramas de coltan, mas é essencial para todos os produtos tecnológicos, especialmente os computadores.
O coltan é extraído principalmente ilegalmente, por mineiros semelhantes aos escravos sem correntes, que não gozam de quaisquer direitos e que pagam com a vida a arbitrariedade absoluta dos seus senhores e a total ausência de medidas de segurança – além disso, estima-se que existam 40 mil crianças e adolescentes explorados para a extracção de coltan.
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Esta região está efectivamente fora do controlo do Governo central e existem grupos armados que lutam pela exploração de minas. Milícias apoiadas pelo Ruanda e pelo Uganda, mas também militares congoleses corruptos e sem escrúpulos, todos determinados a açambarcarem o máximo de coltan possível.
Nos últimos anos, o M23 ganhou o controlo de várias áreas mineiras cruciais e, de acordo com um relatório da ONU publicado em dezembro passado, a milícia “rebelde” envia cerca de 120 toneladas de coltan para o Ruanda todos os meses, de onde é revendido a empresas multinacionais às quais recorrem as empresas Hig Tech de todo o mundo. Um comércio a preços de pechincha, que permite aos fabricantes de smartphones e computadores vender os seus produtos a preços acessíveis (apenas para dar um exemplo).
O mesmo relatório realçou um aumento significativo das exportações minerais ruandesas nos últimos anos, a maioria das quais se acredita vir da RDC, em parte porque Kigali não tem um grama de coltan no seu território.
O coltan e as indústrias hig tech
Durante décadas, a RDC, bem como vários organismos internacionais (em primeiro lugar a ONU, mas também as Igrejas locais, perseguidas), acusam o Ruanda de apoiar, financiar e armar as milícias que sangram o Kiwu, a última das quais é o M23. Mas tais acusações caem claramente em ouvidos surdos, sendo muito fortes os interesses em jogo.
Sob a pressão destas alegações e para evitar a rejeição por parte da comunidade internacional do tráfico de coltan saqueado à RDC, o comércio global encontrou um truque não demasiado fantasioso. O coltan sangrento do Kiwu é lavado com uma reclassificação banal: “Made in Ruanda“.
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Deve-se assinalar, finalmente, que o primeiro incêndio que se acendeu nas regiões orientais da RDC foi desencadeado em meados dos anos 90, em paralelo com o boom global da telefonia móvel, dando vida àquela que são consideradas a primeira e a segunda Guerras do Congo, esta última chamada “Guerra Mundial Africana” porque viu a entrada em cena dos exércitos de vários países do continente esquecido, que entraram em campo ao lado dos chamados rebeldes, e não ao lado de Kinshasa.
Depois de 2003, quando o segundo conflito terminou, o Kiwu ficou vítima de uma desestabilização permanente, com milícias de todo o tipo prontas a massacrar e a massacrarem-se a si mesmas para que o fluxo de coltan continuasse a fluir ininterruptamente para o vizinho Ruanda. Mas o conflito, embora tenha registado picos mais do que dramáticos, manteve-se relativamente contido, com ondas que ressurgiam.
Nunca, desde então, atingiu os picos registados nos últimos dias, uma vez que, a partir da noite de 26 de Janeiro, o M23 aumentou o seu ativismo para o paroxismo, espalhando-se por todo o leste. Uma actividade anómala que parece derivar de um impulso novo e até então desconhecido.
Ousemos: assim como a primeira onda estava ligada à disseminação da telefonia celular, a segunda poderia estar ligada ao boom da inteligência artificial, cujo desenvolvimento precisa de recursos, muitos recursos. Contudo, para além dos pressupostos, permanece a importância do coltan e o muito, demasiado sangue derramado para a maior glória do desenvolvimento tecnológico dos países ricos.
Estima-se que, desde 1996 até à data, as vítimas do conflito tenham sido de 10 milhões, o que o torna o conflito mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial. Quando Conrad escreveu o seu “Coração das trevas“, que também narrava a ferocidade do domínio colonial do Congo, ele não tinha ideia das alturas que viria a alcançar.
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A autora: Claudia Carpinella é jornalista. Licenciada em Humanidades pela Universidade de Roma Tre.







