A NOITE MUNDIAL DA POESIA – por Adão Cruz

A NOITE MUNDIAL DA POESIA

por Adão Cruz

 

 

Voa no céu o som de um violino

chorando um poema perdido

não se sabe onde nem quando

se na claridade dos poetas mortos

se nas sombras da vida errando.

O dilema entre o silêncio e a palavra

nasce da lógica discursiva

que cabe no ridículo do poema

quando o poeta tudo vê e nada sabe.

Há um dilema entre o silêncio e a palavra

quando em teatral mensagem de poema

o poeta sonha e delira

ao enganar a poesia

nos buracos negros da mentira.

Morre a razão

nas palavras perdidas na aridez do verso

e foge a poesia da rima e dos espaços

quando do poema corre o sangue

de um mundo feito em pedaços.

Reside a poesia no silêncio de quem um dia

espera ouvir a sua voz

com ouvidos que a mereçam

mas neste tempo de ruídos e ruínas

só mudos ecos chegam até nós.

A poesia tem olhos de céu infindo

olhos de distância e de mil fontes

na planura de mil campos e horizontes.

Mais rente ao chão

voa a poesia ao redor do sentimento

como borboleta em jardim disperso

poisando na flor apetecida

onde canta a beleza de um verso.

No mundo de hoje

sem alma nem sentimento

amordaçado de mil gritos levados pelo vento

debate-se a verdade e a mentira

entre o rosto e a máscara do poema

sobrando nas entrelinhas da secura

sem dor no coração

os restos mortais

de milhões de crianças caídas no chão.

No mundo de hoje

não pode haver poetas vivos

alheados de hipócritas metáforas

estendidas sobre a mesa da vaidade

ou penduradas nos olhos da cidade.

No mundo de hoje

não pode haver poetas de almas caladas

adormecidas na noite mundial da ilusão

dando apenas ares de acordadas

quando sonham poesia nos avessos da razão.

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