Não é por acaso que, nas distopias mais famosas, a literatura e a leitura são sempre objecto de ataque dos seguidores do pensamento único, como no ‘Fahrenheit 451’ e, em alguns deles, os livros são queimados ou proibidos; neste, de Ray Bradbury, havia mesmo um corpo de bombeiros com uma função –queimar livros e bibliotecas, públicas e privadas.
Noutros livros e ensaios, mostra-se como a estratégia para acabar com a importância dos livros, é apenas torná-los irrelevantes, para acabar também com todos os campos de liberdade pessoal e íntima, transmitida pela poesia, pelos ensaios, novelas ou romances. Nem é necessário lembrar como a leitura é uma atitude individual, mas também comunal e social, por nos levar a contactar com o mundo, nas experiências e emoções que não vivemos, mas pode levar –leva mesmo– a pôr em questão toda uma série de conhecimentos e estórias próximas, insuficientes para nos achegar à realidade. Repare-se também como nos states, Irão, Rússia e China, para citar os mais importantes, e sob as mais diversas escusas, os livros são censurados, quando não adulterados, com acusações de doutrinação ou, mais simplesmente, de ‘má influência’!
Uma questão particularmente indesejável e mesmo perigosa nestes dias, e nesta parte do mundo, pois, pergunta a prof. de Ciência Política da Complutense, Ruth Ferrero-Turrión, ‘Se não for na Europa, em que outra qualquer parte se poderia revindicar estas questões, o respeito ao estado de direito, aos Direitos Humanos e ao multilateralismo?’.
Repare-se, continua esta professora, que ‘os dois patrões do mundo’, disputando espaço e poder há uns quatro anos, até estão a fazer acordar os países europeus, apenas com imagens de guerra, devastações e mortes, mas nunca através da palavra e de propostas concretas, a apontar os caminhos de uma autonomia europeia e dissuasória.
E, em maior ou menor dimensão, os ‘memes’ dos dois patrões, estão também envolvidos num autoritarismo competitivo, governando por decretos, ignorando a separação de poderes, o pluralismo e a liberdade de imprensa; e, assim e aí, temos Viktor Orbán, na Hungria, Nayib Bukkele em El Salvador, Nicolás Maduro na Venezuela, Tayyip Erdogan na Turquia e Narendra Modi na Índia, só para citar alguns dos mais falados, depois do milei, do boçalnaro ou do casal ortega na Nicarágua.
Estou preocupado, porque, com tais patrões e tais memes, não fotográficos nem de desenho, mas bem reais, a guerra acabará por chegar, sem sabermos de onde, nem de que tipo e dimensão! E vemos a União Europeia a caminho de se rearmar, e o também europeu e patrão da NATO, o cónego Ritter, (tem cara e jeito disso!) a calar-se frente ao trumpa, quando ele fala em querer a Dinamarca, os nossos governos a defender o aumento das despesas com o rearmamento, e um dia qualquer voltaremos aos livros, por alguém ter acabado e destruído as imagens para o povo; mas nessa altura, cegos, surdos e atados pela urgência dos likes, vamos perguntar-nos, ‘donde é que eles vieram?’
E neste clima incrível, entre guerras, militarismos, mortes e ruínas, almirantes e populistas, lembro-me do escritor, poeta e cineasta italiano Pier Paolo Pasolini –no ‘Corriere della Sera’ de 1 de Fevereiro de 1975– ano em que viria a ser brutalmente assassinado, publicou o que ficou conhecido como ‘Aquele artigo dos pirilampos’, profeticamente um alarme de Pasolini, já a assinalar o drama que passa hoje a humanidade, o que ele chamou de fascismo fascista (encarnado por Mussolini e Hitler) poderia ser menos catastrófica do que chamou ‘novo fascismo’. E escreveu isto, ‘De todo modo, que fique claro: eu, apesar de ela ser uma multinacional, trocaria a Montedison (empresa de indústria química) inteira por um só pirilampo’.
Lembro-me de alguém ter dito alguma coisa como isto, ‘O domínio dos privilegiados é subtil, por vezes dócil, e é difícil resistir à tentação do ‘comodismo’ da vida automatizada, muito mais quando estamos a precisar de uma anestesia’. Para saber de onde e como vêm? Ou quem são e representam na realidade? Ou o que querem fazer de nós, escravos ou senhores?
Quem me dera um pirilampo!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor