Espuma dos dias… Encruzilhada da esquerda criada por ela própria — “Cuidado com a geração do confinamento.  Por Mary Harrington

Nota prévia:

Vive-se politicamente um momento complicado, complicadíssimo mesmo, quer a nível nacional quer a nível internacional.

Fiquemo-nos pelo nosso burgo, com eleições à porta e a classe política manchada pela corrupção explícita ou implícita, uma situação que vemos tanto na Madeira como a vemos aqui, no continente. No caso da AD e no continente temo-la a esconder que não tem quadros políticos de qualidade para uma resposta à situação criada e porque os não tem, irá fazer uma campanha terrível de má qualidade, de insultos sobre insultos aos adversários, ou então substitui Luis Montenegro por Passos Coelho, o homem da Troika, o homem pró Chega, o homem que se desfez das joias da coroa portuguesa. Aqui, a história do Pilha-Galinhas do Chega enfraquece este implícito acordo de coligação, mas de uma maneira ou de outra é de esperar que pela Direita iremos assistir a uma campanha extremamente suja.

A tese suave da Direita de que a crítica a Luís Montenegro significa que a esquerda acha que só políticos sem nada na sua conta bancária é que podem ascender ao poder, vai ser utilizada até ao extremo. Mas repare-se naquilo que está implícito nesta suave tese: chegar a uma certa idade e ser materialmente despossuído de tudo é sinal da mais pura incompetência. E pelos vistos o que a esquerda quererá agora, contra Luís Montenegro, será então políticos incompetentes, na vida e na política !

Outra tese, mais suave que a anterior, para a campanha eleitoral, mas menos coerente, é dizer que Luís Montenegro foi burro, burríssimo, porque bastava ter transferido a sua quota na empresa para os filhos e não teria havido problema nenhum. Dito de outra forma, o Luís Montenegro foi burro porque não soube contornar a lei! E aqui quanto à ética, passa-se uma esponja sobre ela, esquece-se o que é que ela representa e faz-se da lógica uma batata.

Quanto à Esquerda, e uma vez que o PS é o partido nela mais relevante, e digo isto porque hoje podemos considerar o PS como um partido de centro-esquerda, ao contrário do PS dos tempos de António Costa que mais parecia um partido com um discurso de um partido colocado ao centro do espetro político e uma prática política de centro direita do que outra coisa, esta Esquerda tem de ter muito cuidado na forma como pode estabelecer a campanha, tem de lutar contra a ideia enraizada no imaginário coletivo de que o PS é um partido como os outros. E isso tem sido verdade até à saída de António Costa, mas hoje tudo aponta para que isso deixou de ser verdade. Mas não há nada mais difícil que lutar contra teses enraizadas na mente popular e confirmadas durante muitos anos. Esperemos, pois, que o PS de Pedro Nuno Santos saiba descortinar as linhas de ataque contra a direita que o possam levar a ele, e a todos nós, à aventura de redescobrir, no exercício do poder, o espírito de Abril. Repare-se que pessoalmente considero o PS como o partido mais relevante na possibilidade de criar um ponto de viragem nas próximas eleições, uma vez que o Bloco de Esquerda vive mais a aquecer-se não nas lutas populares, mas sim na utilização das bandeiras utilizadas pela comunidade LGBT, o Livre vive à procura de se encostar a uma ou outra bandeira empunhada firmemente pelo PS e o PC, apesar de muitos valores politicamente seguros está a sofrer de um problema de comunicação.

Para vos mostrar a gravidade da situação, apresentamos alguns exemplos externos ao caso português, mas com paralelos de situação evidentes, que nos mostram os contextos em que a esquerda tem sido cilindrada. Para que cada um de nós possa refletir nestes exemplos e recolocá-los no quadro da nossa política nacional.

Os textos que aqui vos deixo hoje e nos próximos dois dias são:

  1. Branko Milanovic sobre a Sérvia: A ruptura do sistema representativo e o caminho para a ditadura. Um título e uma situação que dizem tudo.
  2. Mary Harrington: Cuidado com a geração do confinamento. As teses defendidas neste texto ajudarão a perceber em parte a votação em crescendo na Iniciativa Liberal.
  3. Francesca de Benedet: Em toda a Europa, está-se a formar um cordão sanitário contra a esquerda. Um texto que nos dá indicações sobre o comportamento da direita por essa Europa fora, comportamento esse que iremos vê-lo nas próximas eleições tanto pela AD como pela Iniciativa Liberal.

 

Júlio Mota, 21/03/2025


5 min de leitura

Cuidado com a geração do confinamento.

A sua angústia dará lugar à raiva

 Por Mary Harrington

Publicado por  em 19 de Março de 2025 (original aqui)

 

Esta não é uma geração à vontade consigo mesma. Foto de YMCA/Avalon/Getty Images.

 

Aqui e ali, ainda se podem ver vestígios da loucura coletiva da era Covid. Algumas marcas de “distanciamento social” ainda permanecem nos passeios ou no chão das lojas. De vez em quando, encontro uma máscara facial num casaco ou numa mala que já não uso há algum tempo. Recentemente, houve um fraco “dia de reflexão” oficial. Mas, pelo menos para alguns de nós, a vida voltou a ser como era: quatro em cada dez locais de trabalho voltaram a trabalhar a tempo inteiro, os passeadores de cães já não são perseguidos por drones e as lojas e igrejas estão abertas. Na maior parte das vezes, não falamos da história do ovo escocês, nem de sermos obrigados a despedir-nos dos nossos entes queridos que estavam a morrer através de ligação vídeo.

Mas as crianças não estão bem. Em 2020, não fazíamos ideia do impacto que o confinamento teria naqueles jovens cujo desenvolvimento normal foi tão casualmente interrompido. E embora todos os pais tenham uma história de terror sobre o confinamento, foram as crianças mais vulneráveis as mais afetadas. O confinamento aumentou o fosso entre os resultados escolares, atrasou o desenvolvimento das crianças e mergulhou uma geração de pré-adolescentes e adolescentes em perturbações psiquiátricas. Mas não prejudicou apenas as crianças; também as formou em más condições. Especialmente para aqueles que atingiram a maioridade em simultâneo com o confinamento, a pura estranheza desse período foi, por si só, uma experiência que moldou a sua visão do mundo – de formas que ainda mal começámos a compreender.

Em parte, isso foi um efeito dos confinamentos que forçaram a vida quotidiana à internet. Esta sensação de descolagem da realidade  é anterior à Covid, mas foi fortemente intensificada por ela. Lembro-me de ter sido apanhada de surpresa quando, no final da era Covid, tive uma conversa com uma mulher de vinte e poucos anos que argumentou alegremente que não só a Terra é plana, como também que os pássaros não são reais. Ela podia estar a brincar, mas senti que não estava. Por outro lado, se tivéssemos passado dois anos de formação sem nada para fazer a não ser estar a utilizar o rato do computador, poderíamos ser perdoados por concluir que não existe uma diferença significativa entre a realidade e  os memes da internet. Afinal de contas, nessa situação, a maior parte da realidade de cada um de nós são os memes da Internet.

Esta sensação de irrealidade generalizada parece ter-se tornado, especialmente para os jovens, uma constante. Recentemente, o Channel 4 alertou para o facto de a Geração Z ter perdido a confiança nas fontes de informação autorizadas, preferindo as fontes de informação na internet, recolhidas de forma “mágica” e validadas pelos seus pares. Este facto faz eco de uma tendência mais ampla observada no mês passado pela comentadora liberal Anne Applebaum, que lamentou o aumento, em todo o mundo, de uma política que funde crenças da Nova Era com práticas antidemocráticas. Nesta visão do mundo, lamenta ela: “a superstição derrota a razão e a lógica, a transparência desaparece e as ações nefastas dos líderes políticos são obscurecidas por uma nuvem de disparates e distrações”. Contrasta criticamente com a sua própria visão do mundo, na qual – diz – “a lógica e a razão conduzem a um bom governo” e “a ordem política é inerente a regras, leis e processos”.

Mas, do ponto de vista do grupo “Os Pássaros Não São Reais”, podemos perguntar: onde estavam a lógica e a razão de Applebaum, durante o surto coletivo de vários anos em que comprar um ovo escocês impedia a infeção por Covid e as crianças cortavam buracos em máscaras N95 na zona da boca para tocar flauta? Porque a irrealidade não estava apenas na utilização da internet; estava em todo o lado, muitas vezes acompanhada de uma forte  vergonha social e de um poder coercivo do Estado. Quando perguntei aos zoomers que conheço sobre as suas memórias da Covid, o tema mais comum foi a tirania absurda das regras da Covid – e depois como foi politicamente formativo desafiá-las. Um jovem amigo descreve ter visto um grupo de “marechais da Covid” sair da carrinha em que viajavam juntos sem máscara – e depois de sair, colocarem as máscaras e espalharem-se pelas ruas de Londres para impor o uso de máscaras e o distanciamento social entre os peões. Outro,  lembra-se de ter abandonado discretamente os mandatos de uso de máscara e de se ter apercebido de que isso não tinha qualquer efeito.

Não quero ficar a discutir quem ficou mais louco. O que quero dizer é simples: toda uma microgeração experimentou, no limiar da idade adulta, uma realidade coletiva e oficialmente imposta, em que todas as regras se tornaram subitamente absurdas e autoritárias, à sua custa e em nome de uma ameaça que não os afetava realmente. Como é que se reage a uma experiência deste tipo? Nos extremos, a resposta parece dividir-se entre aqueles que concluíram que, quando o mundo é tão arbitrário, não vale a pena tentar fazer nada; e, inversamente, aqueles que concluíram que não há limites para o que pode ser feito.

Num dos extremos do espetro, a Geração Z abandonou a atividade. A crise de saúde mental dos jovens precedeu a Covid, mas o confinamento agravou-a. Na sequência desta crise, os pedidos de subsídios por incapacidade aumentaram de forma mais acentuada entre os adolescentes e os jovens. Entre os requerentes com menos de 25 anos, 70% dos pedidos foram motivados por problemas mentais ou comportamentais, o que representa mais de metade do aumento. Wes Streeting, do Partido Trabalhista, afirmou recentemente que estas doenças são “sobrediagnosticadas”, o que pode ser verdade. Mas também pode acontecer que a angústia seja real e que estes jovens adultos estejam apenas a fazer o que foram condicionados a fazer. Tendo em conta que passaram dois anos fechados à força, apenas com a internet como companhia, enquanto o governo pagava tudo, não seria de estranhar que alguns desses jovens estivessem um pouco lixados. Também não seria de estranhar que muitos deles encarassem simplesmente esta situação como normal e esperassem que ela continuasse.

Alguns desses jovens adultos estão agora a entrar numa espiral de sofrimento psicológico, e talvez também de impotência aprendida. Para que ninguém me interprete mal, não quero de modo algum envergonhar essas pessoas. A vergonha deve recair sobre todos os que consentiram em políticas que privaram uma geração de experiências normais de amadurecimento, em nome de um vírus que representava pouco risco para eles. O que devemos a estes jovens, agora talvez profundamente danificados, não são subsídios de invalidez, mas arrependimento, reparação e uma forma de sair do buraco em que os enfiámos.

Mas no outro extremo do espetro estão os jovens que tiraram a conclusão oposta e que, por isso, estão a abandonar completamente a corrente política. Mais uma vez, não é de admirar: a sua entrada na vida adulta foi feita em partes iguais de irrealidade na internet, regras absurdas e a descoberta de que a única forma de fazer sexo era desrespeitando os mandatos. Se isso for alargado a toda uma microgeração, é provável que não passem a sua vida adulta a colorir as linhas políticas. Por exemplo, talvez não nos devêssemos surpreender com o facto de o estudo do Channel 4 ter concluído que 52% dos jovens entre os 13 e os 27 anos gostariam de ter “um líder forte, sem restrições eleitorais ou parlamentares”. Tal como a crise de saúde mental, o deslize para visões autoritárias é uma macro-tendência que antecede a Covid; mas não há dúvida de que a Covid representou, para muitos, uma rutura definitiva. Trata-se, afinal, de uma geração que viveu dois anos de poder estatal arbitrário, caprichoso e profundamente pós-liberal. Sim, os confinamentos eram uma forma de autoritarismo coletivista; contudo,  será assim tão estranho que alguns olhassem depois com aprovação para a variedade dos homens fortes? Como disse um jovem comentador anónimo em 2023, “toda a sabedoria dos sábios foi quebrada, rasgada e transgredida apenas para promover os interesses dos velhos”. Como resultado, sugere o autor, aqueles que eram jovens durante a Covid concluíram que “não há limites para o que a política pode alcançar”.

Em muitos países europeus, incluindo a França, a Alemanha e a Espanha, o aumento mais acentuado dos chamados partidos de “extrema-direita” verifica-se consistentemente entre os jovens – e, especialmente, entre os jovens do sexo masculino. Recentemente, o The Atlantic descreveu o mesmo fenómeno nos Estados Unidos, associando-o explicitamente à Covid. No Reino Unido, quando comparamos as repartições das eleições gerais de 2019 e 2024, fica claro que, embora o voto jovem de direita não tenha crescido significativamente em termos absolutos, os jovens que votam na direita optaram em maior número pelo partido à direita dos conservadores: The Reform de Farage.

Mas não se trata apenas de uma tendência de votar à direita; trata-se de uma tendência anti-mainstream. A mesma repartição de votos mostra que a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que optaram pelos dois partidos tradicionais caiu um quarto, de 77% para 50% dos jovens eleitores. A par do The Reform o maior vencedor entre os eleitores mais jovens foi “Outro”.

O facto de se ter atingido a maioridade em regime de confinamento parece, portanto, ter provocado uma saída geracional de qualquer sentido de realidade partilhada e, por extensão, da normatividade política. Será que isto se vai corrigir com o tempo? Talvez. Mas, olhando para a Grã-Bretanha moderna, vejo poucas razões óbvias para que um jovem de vinte e poucos anos se sinta motivado a salvar uma ordem política que hipotecou receitas fiscais futuras para financiar anos de licenças e aquisições de Equipamentos de Proteção Pessoal mal gastas, sem qualquer benefício mensurável em relação a países que não estiveram em confinamento e com um considerável prejuízo económico para os jovens. É uma ordem política que está a deprimir os salários dos trabalhadores de colarinho branco através da IA, e os dos trabalhadores de colarinho azul através da imigração em massa; que está a espremer os jovens profissionais e a deixar disparar os preços das casas, mas a salvaguardar o mecanismo de determinação da evolução das pensões, dito mecanismo de triplo bloqueio.

Na sua tentativa de fazer com que a Geração Z abandone o PIP (subsídio de apoio social dito pagamento pessoal independente) e volte a empenhar-se, Wes Streeting [político trabalhista, ministro da Saúde desde julho 2024] talvez devesse ter cuidado com o que deseja. À medida que esta geração atinge a maturidade política, devemos esperar que a política britânica se torne mais furiosa, mais radical, mais plural e fraturante – e, talvez, consideravelmente menos democrática.

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A autora: Mary Harrington é uma escritora baseada no Reino Unido, e editora contribuinte de UnHerd, onde escreve uma coluna semanal. Interessa-se (entre outras coisas) pelos efeitos secundários políticos e culturais da globalização, a substituição da política de classes por políticas de identidade, a alegria dos limites, e os direitos das mulheres na era da biotecnologia, que é o tema do seu próximo livro Feminismo Contra o Progresso.

 

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