AGUIEIRA – VISEU, ANOS 60
por Carlos Pereira Martins
Nos anos 1960, a Aguieira, na freguesia de São José, em Viseu, era um pequeno mundo rural onde todos se conheciam, as chaves ficavam do lado de fora das portas, nas fechaduras e não se receavam ladrões.
E onde a terra ditava o ritmo da vida. No coração desta comunidade estava a Quinta da Aguieira, propriedade da grande matriarca, Dona Maria dos Prazeres, conhecida por todos como Senhora Dona Prazinha, e de seus filhos. Viúva há muitos anos, muito respeitada e admirada, não só pela sua posição, mas pela generosidade com que olhava e se dava com quem ali vivia, era uma mulher de bem, que dava trabalho a muitas famílias locais e da região e nunca deixava ninguém passar necessidades. Do pão que o forno cozia semanalmente aos produtos da quinta, sempre abria mão para quem desse sinal de precisar.
A Quinta da Aguieira era mais do que uma exploração agrícola; era um centro de vida, onde as gentes se reuniam, partilhavam o trabalho e celebravam as suas tradições. Mas também as alegrias, as dores, as privações, os amores, as fraquezas e os segredos bem guardados quando o peito estivesse cheio e fosse útil pô-los fora!
No seu interior, encontrava-se e ainda lá se encontra, a capela de Santo António da Aguardente, onde, todos os anos, se fazia a grande festa e romaria da Aguieira. Durante esses dias, o espírito da comunidade brilhava mais forte, entre visitas ao Santo, música e partilha de comes e bebes.
Entre os filhos da Senhora Dona Prazinha, encontrávamos o filho mais velho, João Martins, o mais novo e “Capitão”, durante anos, do Académico de Viseu, muito respeitado por toda a cidade, Alberto Martins, que, juntamente com a esposa, D. Dulce Martins, ajudava a manter viva a tradição de solidariedade da família. D. Dulce, sempre ocupada na Delegação de Saúde de Viseu, era uma figura bem conhecida na cidade. A sua natureza solidária e fraterna fazia dela uma referência para quem precisasse de ajuda – e não havia quem batesse à sua porta sem resposta. Literalmente, ajudava toda a gente, fosse com uma palavra amiga, um apoio na saúde ou um gesto de bondade que parecia sempre surgir na altura certa.
A vida na Aguieira era feita de trabalho árduo, mas também de momentos de convívio e partilha. Para além da família Martins, ali viviam muitas outras pessoas que compunham o dia-a-dia daquela terra. D. Céu e o marido criavam os filhos Vasco, Arnaldo e Olinda, enquanto o Senhor Lopes, com a esposa e os filhos, via o pequeno José Carlos crescer no meio das brincadeiras com a rapaziada da mesma idade. Outros moradores eram D. Etelvina, Domingos, D. Zéza, Palmira e alguns mais.
Havia também o Gastão, que, apesar das suas limitações físicas e intelectuais, era parte da comunidade, sempre a circular pelos campos, cumprimentando todos com um sorriso franco. A família Galveias, vinda do Alentejo, trouxe um novo fôlego às actividades locais não agrícolas ao assumir a gestão da enorme Resineira, um dos motores económicos da zona. Um dos filhos, Paulo Galveias cresceu entre o cheiro forte da resina e o bulício dos trabalhadores, aprendendo desde cedo o valor do esforço.
Mais abaixo, junto à linha do caminho de ferro da Linha do Vouga, viviam o Fernando Figueiredo, o Dadi, o Neca, o Iai e o Virgílio, netos do Engenheiro Sousa Correia, proprietário da quinta mesmo ao lado, um ancião de barbas brancas, longas, que fazia lembrar o Pai Natal (para quem nele acreditasse!).
A presença do comboio marcava o tempo e encantava os miúdos, que corriam para ver os vagões passarem, imaginando destinos distantes. Na chegada do comboio da hora do almoço, havia sempre quem fosse apanhar o jornal Primeiro de Janeiro que Dona Prazinha sempre assinou e lia durante a tarde, por vezes, à sombra da frondosa tília atrás da sua casa, no cimo da quinta, junto à pequena capela.
A linha férrea marcava a divisão entre a chamada Aguieira de Cima, no alto com a Sé de Viseu em frente e integrava a quinta e mais tarde o Bairro dos CTT, e a Aguieira de Baixo, junto à passagem de nível sem guarda onde D. Dulce Martins viu, impávida, o comboio arrancar-lhe e levar o pára-choque da frente do seu Volkswagen! Por centímetros que não acontecia uma desgraça. Episódios…!
A Aguieira dos anos 1960 era um lugar onde os laços comunitários eram fortes e onde o nome da Senhora Dona Prazinha e da sua família ficaria para sempre associado à memória de um tempo em que se viveu com simplicidade, mas também com sentido de partilha e respeito pelo próximo.

