Que época é esta? – por Boaventura de Sousa Santos

Que época é esta?

por Boaventura de Sousa Santos

A resposta fácil a esta questão seria dizer que estamos numa época de transição. Afinal, todas as épocas são épocas de transição entre uma realidade e uma realidade diferente. Mas há transições e transições. Há transições em que as realidades entre as quais a sociedade transita são tão diferentes; ou a mudança é tão rápida que o caos, a desorientação e a incapacidade de compreender se instala, não só nas instituições como também na opinião pública e nas subjectividades. Nessas situações, uns erguem a bandeira branca, outros, a bandeira negra, outros ainda (talvez a maioria) submergem na clandestinidade da privacidade anónima.

Estamos numa dessas transições? E quem é o “nós” que faz a pergunta? Será toda esta turbação apenas o efeito de quem se habituou à relativa estabilidade e à “irreversibilidade das conquistas democráticas”? E as classes e os grupos sociais, que nunca conheceram tal estabilidade nem beneficiaram de tais conquistas, que dirão para além de um encolher de ombros de silêncio, de revolta ou de resignação?  Todavia, por mais diferentes que sejam as realidades que as diferentes classes, grupos ou mesmo nações viveram, a verdade é que, em certos momentos, se instala na sociedade, no meio de muitos equívocos, um sentimento de confusão, de colapso. Não se sabe sequer se é uma transição ou uma duplicidade. A transição aponta para algo novo (ou velho) que vem substituir o que havia antes: é uma ruptura com movimento. A duplicidade é condição existencial de uma simultaneidade de opostos, uma condição potenciadora de rupturas ou de fracturas estáticas. Transição e duplicidade é o espírito do nosso tempo.

Entre as duas Guerras Mundiais do século passado, o espírito do tempo – que na altura era exclusivamente o tempo europeu – tinha algumas semelhanças como o espírito do “nosso” tempo. A relativa paz que a Primeira Guerra trouxera tinha tido pouca dura e, no meio da euforia das novas conquistas científicas e técnicas, instalava-se o medo dos novos tempos, da violência, da resistência dos explorados, de uma próxima guerra para acertar as contas mal feitas no processo de paz da guerra anterior. Como sempre, em tais épocas os artistas são mais argutos que os filósofos ou os cientistas sociais a captar o espírito do tempo. Em 1927, Hermann Hesse publicava o romance  Der Steppenwolf ( O lobo da estepe). Nesse romance, um homem, de nome Harry Haller, tem uma dificuldade enorme em se adaptar à sociedade em que vive e por isso sente-se como sendo metade pessoa e metade lobo. Por um lado, sente-se como um ser humano normal, confortável na vida burguesa e interessado pela literatura e pela música.  Por outro, sente-se como um animal selvagem que apenas obedece aos seus instintos e impulsos, um outsider que odeia a sociedade burguesa e se comporta como tal. A certa altura, depara-se com um livro intitulado “Tratado sobre o Lobo da Estepe” e a sua vida muda. Aprende a conhecer novos amigos, como a prostituta Hermínia e o saxofonista Pablo que é proprietário do “Teatro Mágico”, onde se aprende que cada ser humano tem muitas outras características para além de ser pessoa e lobo. O romance começa com um prefácio do sobrinho da senhoria de Harry que encontra o manuscrito muito tempo depois de Harry ter desaparecido sem deixar rastro.

Penso que muitos de nós vivem hoje nessa duplicidade que nada tem a ver com a lenda do lobisomem da Antiguidade clássica e do folclore europeu medieval. Vejamos alguns dos sintomas de rupturas, as quais, sendo epocais, são também existenciais e são vividas com particular intensidade pelos jovens, mesmo que na aparência sejam os que melhor convivem com elas.

A verdade era algo que existia antes da pós-verdade

A assimetria principal entre a verdade e a mentira é que a verdade só existe enquanto busca de verdade. A busca, que num dado momento parece mais profícua, convincente e coerente é a que se toma por verdade, mas dura apenas naquele momento. O progresso científico reside nisso. Pelo contrário, a mentira é sempre a certeza do oposto daquilo que se toma como verdade num dado momento, como se esse momento fosse um presente eterno. Por isso, a mentira tem sempre mais certeza que a verdade a que se opõe. A pós-verdade é o artifício que, dispensando a busca da verdade, assume algo como verdadeiro, desde que ratificado por uma retórica convincente ou uma crença pessoal intensa e intensamente colectivizada. É este o campo das fake news, da desinformação, da propaganda que se não revê na propaganda tradicional. Enquanto transição, a pós-verdade é verdade pós-factual e pós-racional. Enquanto duplicidade, é o ser e o não ser como sendo alternativas, duas formas de existência com igual validade. Alternativas geradoras de muitas outras alternativas entregues ao domicílio das emoções pelas redes sociais uberizadas. Não há critério ético para escolher entre ser lobo e ser humano. Há opções que não admitem variação.

Ou se é lobo ou se é pessoa; não há meio termo

Desapareceu o “teatro mágico” de que falava Hesse e, com ele, as nuances. Hoje, ou se é inimigo ou amigo, agressor ou vítima, em suma, ou se é lobo ou pessoa.  A diversidade aberta, as identificações descobertas em experiências novas ou velhas, o smufato da pintura da Renascença, os gradientes e tonalidades da Mona Lisa, tal como o cangiante (fusão de cores) ou o chiaroscuro (claro-escuro), desapareceram no nosso tempo e com eles a possibilidade de amenizar as relações humanas, sempre que tal é possível. A ausência de nuances é o princípio da guerra e o fim da paz. É a esse princípio e a esse fim que assistimos. Todas as guerras começam muito antes de ser declaradas. Se reflectirmos com atenção sobre o padrão dominante das relações humanas e das declarações mais salientes dos líderes políticos, concluiremos que já estamos em guerra. A desorientação e confusão instalam-se quando pressentimos que a guerra contra “eles” é afinal uma guerra contra “nós”. A guerra perpétua torna-se o único garante da paz perpétua – a que nunca existiu nem existirá.

O fascismo é tão democrático como a democracia

O discurso e a prática dos líderes mais poderosos ultrapassa todos os limites que antes se consideravam intransponíveis. De repente, quem era até então cidadão é declarado inimigo interno e, por isso, deportado, silenciado, neutralizado; num só dia, Israel mata quatrocentos palestinianos e propõe-se matar à fome e à sede os restantes, se entretanto não abandonarem “voluntariamente” a sua terra; agentes de segurança nacional trocam mensagens nas redes sociais sobre os próximos bombardeamentos de um país distante como se estivessem a combinar uma confraternização de antigos alunos de uma universidade; uma sinistra comissária-chefe da (des)União Europeia discursa fardada com o uniforme de combate e capacete de aço (a proteger o que não tem) para que não haja dúvidas sobre os perigo iminente; a crise da habitação resolve-se, construindo bunkers.

Tudo isto ocorre na mais pacata normalidade porque afinal a verdadeira política é a anti-política.

Penso o que outros pensam, logo existo

Não há tempo para pensar pela própria cabeça, e mesmo se houvesse, não seria necessário pensar. O quotidiano é um turbilhão de preocupações muito mais urgentes do que pensar e afinal há tanto pensamento tão facilmente disponível que perder tempo a pensar algo diferente é um desperdício imperdoável. E até poderia ser perigoso. O mais racional é seguir o pensamento daqueles em que se confia, e esses são os amigos.  Por coincidência, o que os amigos pensam é o que o “ego” sempre pensou, mesmo sem ter dado conta. São amigos porque se confia neles ou confia-se neles porque são amigos. É indiferente. A coincidência de opiniões é o que importa porque é a prova de que não se está sozinho, e estar sozinho é não existir como ser pensante. Nunca foi tão fácil pensar sem ter o trabalho de pensar. As orações da manhã de outros tempos foram substituídas por começar o dia, tomando conhecimento do que está pensado pelos amigos. Qualquer cidadão responsável deve sair para a rua informado e informar os outros, como é seu dever cívico. Quem discordar não é amigo e, no limite, não tem o direito de existir, porque a amizade é o bem mais precioso. Se se suspeitar que a discordância é interior porque há dúvidas, isso é sinal de que o inimigo interno pode estar dentro do ego. O mais eficaz é cortar o mal pela raiz: esquecer ou eliminar a dúvida, se possível, com a ajuda profissional ou medicamentosa.

Todos são descartáveis excepto eu

Como se deduz do anterior, nem todos são amigos. Há inimigos, agressores, concorrentes, invejosos, privilegiados, intriguistas, lambe-botas, concubinos, prostitutos, apadrinhados, protegidos, preferidos, favorecidos. O mal que acontece ao ego nunca é culpa própria porque o ego é um território-fortaleza inexpugnável e imaculado.  Quem ousar atacá-lo deve ser eliminado implacavelmente. Tudo o que puser em causa a solidez da fortaleza – por exemplo, apontando fissuras, falhas, brechas, fendas, buracos – é descartável, porque é falso, o que é atestado de modo indesmentível pelos amigos.

Ser dissidente hoje

Este diagnóstico não pretende ser exaustivo, mas é suficiente para mostrar que nos subterrâneos deste mal-estar de época, muito diferente do mal-estar do fin de siècle do final do século XIX, está a crença de que o progresso é o princípio e o fim de tudo, mesmo que este último seja o apocalipse. Hesse viveu angustiadamente essa crença e os sinais dos desastres a que podia conduzir e, antes de mais, dos desastres interiores. Dominado pela angústia, não pôde ver a alternativa: a utopia.  Ser dissidente hoje é abandonar a ideia do progresso e substituí-la pela ideia de utopia. Não a utopia totalitária, filha bastarda do progresso.  Antes a utopia concreta, aqui e agora, que começa com a coragem de correr o risco de ser dissidente no tempo hoje, o tempo da distopia normalizada.

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